Distâncias

Dizem que a menor distância ente dois pontos é uma linha reta, mas, hoje, esse conceito mudou e se tornou uma linha ondulada que pode passar por diversas antenas. Estou falando dos telefones celulares e da facilidade que esta tecnologia afirma trazer para a comunicação e os relacionamentos.

De fato, ele é um excelente instrumento, que diminui distâncias e nos permite falar com quem está há quilômetros, em outro país ou mesmo continente. Mas, o mesmo aparelho que une, pode afastar e destruir.

Cada vez mais deixamos de lado o interesse honesto em conhecer alguém, enganados pelas fotos devidamente editadas em aplicativos de melhoramento de imagens e pelos perfis cheios de palavras e nenhum conteúdo realmente significativo. Criamos, na maioria das vezes, um alter ego que em quase tudo se parece com a gente, mas que, ao contrário da nosso vida rotineira, atinge uma perfeição que nem os roteiristas conseguem atingir ao criar um personagem.

É como se, ao criar um perfil, colocássemos nele a solução para o nosso vazio existencial: “Vou dizer que sou isso, aquilo e aquilo outro para ver se alguém se interessa por mim”. Não chega a ser mentira, mas sim uma ampliação do que realmente sou como forma de clamar por atenção.

Depois disso, vamos à caça, avaliando os perfis como um comprador de escravos do século XIX, de olho no gramado do vizinho e depois no gramado do outro vizinho e assim sucessivamente. Até que somos encontrados e também encontramos, tentamos uma aproximação na esperança de sair da mesmice, mas eis que surge outro contato com uma descrição mais bonita e fotos melhores: automaticamente descarto o crush anterior e tento alguma coisa com o novo.

Essa busca frenética leva a gente do nada ao lugar nenhum. Conheço pessoas que há anos tentam levar alguém para além do papo no smartphone e não conseguem e, pior, quando se encontram, uma das partes não sai do mundo virtual mesmo estando frente a frente com um encontro real.

E isso faz com que a distância entre dois corações solitários aumente apesar de, fisicamente, eles estarem poucos centímetros distantes. Assim, a menor distância não é uma linha reta, mas, sim, ondulada e conectando um smartphone a outro, até um novo modelo ser lançado e substituir aquele que em pouco tempo se tornou obsoleto.

E o vazio existencial permanece, continuamos não deixando o outro ser ele mesmo e se expressar, como se um relacionamento fosse apenas uma questão de match.

Deixe uma resposta