O gramado

Nossa vida é uma jornada e vivemos experiências que moldam nosso caráter, sonhos e vontades. Nessa jornada visitamos inúmeros lugares, experimentamos condições, passeamos por jardins que nunca veremos novamente. Alguns deles nos recebem, mas temos uma mania chata de acreditar que a grama do jardim alheio é melhor que a do nosso. E mudamos. Aí o antigo gramado começa a parecer melhor por ele ser agora parte da grama do vizinho.

Esquecemos que não basta apenas mudar de grama (e às vezes nem adianta porque o problema é o caminhar, não o campo). Ficam as marcas, restos de histórias, pegadas. Às vezes é necessário até tirar o gramado todo e esperar o verde brotar novamente. Porém, em outros tantos casos o gramado não brota ou nasce cinza. É a terra que se mostra cansada ou desesperançosa. Vazia. Sem sentido. E aí não há água suficiente para penetrar as entranhas do solo para poder limpar cada grão de terra e torná-la pronta para um novo gramado.

É preciso mais. É necessário limpar os entulhos, adubar com cuidado, arar. É mais trabalhoso. E quanto mais profunda for a raiz desse gramado, maior serão os cuidados pois a terra se revolverá mais e mais quando for retirada. E assim a harmonia de outrora se transforma em um monte de terra que não produz, não germina.

Nosso coração é essa terra. Cheia de tudo aquilo que acreditamos, somos, aprendemos. E não dá para trocar a terra.

É preciso honestidade e respeitar o jardim que cultivamos na terra alheia ou que fomos escolhidos para ajudar a cultivar. Saber que o coração é como um gramado que se molda aos passos que inicialmente o ferem mas depois passam a viver em harmonia. Saber ainda que o gramado do nosso coração também fica marcado, assim como o jardim alheio, com as experiências da nossa vida. Para o bem e para o mal.

E, principalmente, saber que essas marcas em alguns casos ficam escondidas e quando percebemos às vezes parecem não mais ser possível consertar. Assim como o gramado que um dia nós destruímos intencionalmente ou não, talvez nunca mais se regenere ou não volte com seu colorido e cores originais. É preciso consciência e respeito com o jardim alheio.

E quando cansarmos daquelas flores e paisagem temos duas escolhas: mudar tudo em comum acordo com o dono ou deixar o espaço, mas colocando uma semente que vai brotar assim que a terra que nos acolheu e revolvemos for novamente preparada para a primavera. Sem semente um gramado não brota nem se recupera. Sem esperança um coração para de sentir e perde a essência. Vira pedra.

Afinal, somos responsáveis pela nossa vida e influenciemos aquelas que passam um tempo conosco na jornada. Para o bem ou para o mal.

1 comentário sobre “O gramado”

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