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Abandono compartilhado

Eu preciso confessar: o que foi feito na cidade de São Paulo é de uma audácia que beira o vanguardismo. Se no passado a gestão pública “pecava” pelo conservadorismo de manter a Cracolândia restrita ao Centro, como um gueto esquecido entre o fluxo e a poeira, no ano passado a decisão foi pela inovação.

Afinal, por que privilegiar apenas o coração da cidade com tamanha efervescência? Hoje, assistimos, finalmente, à era da democratização do caos.

O que antes ocupava uma rua ou um quarteirão específico, hoje ganhou a liberdade do asfalto. É um projeto de expansão urbana sem precedentes: agora, quase todo bairro tem uma Cracolândia para chamar de sua. É a descentralização do vício levada ao nível máximo da logística. Parabéns aos envolvidos! É realmente fantástico.

A ideia é tão genial que chega a ser conveniente. Se alguém, por um acaso do destino, decidir que precisa comprar drogas, não precisa mais enfrentar a travessia épica até a região da Luz. Nada disso. O acesso foi facilitado, quase um serviço de “entrega rápida” em cada esquina.

A Cracolândia em São Paulo parece até aquela rede de lojas de conveniência – que não vou citar o nome aqui para evitar processos: a cada esquina tem uma, esperando por você. Seja para comprar, seja para você correr o risco de ser assaltado.

É o luxo da proximidade: você sai para comprar pão e, quatro esquinas depois, ali está o “fluxo”, instalado com a naturalidade de uma banca de jornal, praticamente na porta da sua casa.

É uma política pública inclusiva, democrática, que abraça a cidade inteira sem distinção. Antes, a Cracolândia era um problema localizado; hoje, é um patrimônio compartilhado por todos os paulistanos.

Precisamos de mais ideias assim, audaciosas e inovadoras, que transformam um problema crônico em um detalhe onipresente na paisagem da maior metrópole do país.

Genial, não? Uma ideia brilhante! Bacana mesmo! Novamente dou parabéns aos envolvidos!

P.S.: não precisa dizer, mas vamos lá. Este texto contém ironia. Se você levou a sério, leia novamente.

Foto: Divulgação/Craco Resiste

Publicado emCrônicas

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