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Sobre a Vida

Gosto de pensar que a Vida uma senhora idosa, forte, lúcida e sentada em um trono com uma foice nas mãos, nos observando a cada decisão.

Ela não tem pressa. Não se levanta por qualquer capricho nosso. Apenas observa, com olhar doce e ar severo, e olhos fundos que carregam a paciência de quem já viu todas as ilusões possíveis nascerem com brilho e morrerem no silêncio. E, quando precisa agir, não grita e sequer não ameaça: apenas ergue a sua foice.

Não é uma foice de morte. É de corte.

Ela corta o sonho que era fantasia demais para caber na realidade. Corta o amor que confundíamos com necessidade. Corta a expectativa infantil de que o mundo nos deve aplausos. Cada golpe é seco, preciso. E dói. Dói como doem as coisas que nos arrancam da ingenuidade.

Nós a chamamos de cruel. Mas, quando olhamos com os óculos da maturidade, ela soa apenas coerente.

A senhora da foice não quer nos perseguir, ela está nos lapidando. Seus cortes são cirúrgicos: retiram excessos, ilusões, dependências. Cada desejo aparado é uma camada de inocência que cai.

Cada frustração é um degrau invisível que nos faz crescer. Amadurecer talvez seja isso: perder pedaços do que imaginávamos ser indispensável e descobrir que continuamos de pé.

Ela nos vê implorar por atalhos, por garantias, por finais felizes antecipados. E permanece imóvel. Porque sabe que o fruto arrancado antes do tempo apodrece nas mãos. Então espera. E, quando finalmente corta, não é para destruir e sim para ajustar. Não é para tirar, é para preparar terreno para o que vai doar.

A vida, essa senhora austera, não tira por sadismo. Ela tira para que possamos suportar o peso do que ainda virá.

No fundo, a foice não é instrumento de punição. É ferramenta de poda. Como o jardineiro que remove galhos para que a árvore cresça mais firme, ela elimina aquilo que nos impediria de florescer com profundidade.

E talvez a maturidade seja o dia em que, ao ouvir o som da lâmina atravessando mais um desejo, em vez de revolta, sentimos compreensão e talvez até agradecimento.

Porque começamos a perceber que, se nada fosse cortado, nada seria fortalecido.

E que a senhora no trono nunca quis nos ferir, mas apenas nos ensinar a suportar o peso de sermos quem somos.

Publicado emCrônicas

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