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O mito da disponibilidade eterna

Certa vez, um amigo me confidenciou que estava encantado por alguém. Ele se aproximou, investiu na relação e tudo caminhava bem, até que outra pessoa surgiu em seu caminho.

De repente, aquele novo terreno parecia mais interessante para desbravar; aquele novo mundo parecia um lugar melhor para habitar. Tomado por essa ilusão, ele simplesmente disse à primeira pessoa que não a amava mais.

Mentiu para si mesmo.

Não demorou muito para ele perceber que o novo solo não era tão fértil assim. O novo amor não era tão cativante, nem tão instigante quanto o que ele havia deixado para trás. Após um ano de ausência, ele tentou retomar o que fora descartado.

Ao reencontrar a antiga paixão, ouviu um “não”. Ele não compreendeu bem aquela negativa e chegou a duvidar da veracidade do sentimento que um dia havia sido demonstrado.

Foi então que ele me procurou.

Ao final do seu relato, eu o questionei: “Você realmente acreditou que esse antigo amor estaria disponível o tempo todo? Que essa pessoa ficaria parada, esperando você se divertir no parquinho até enjoar e então te aceitar sua volta?”

A realidade é dura, mas simples: ninguém está 100% disponível para sempre. As pessoas escolhem nos doar uma parcela do seu tempo e do seu afeto. No momento em que rejeitamos essa oferta, a porta se fecha. A disponibilidade que antes era nossa é redirecionada para outra pessoa, outra atividade, outro sentido de vida.

Escolhas geram perdas. E uma vez que algo é jogado fora, não se recupera a forma original. Você pode até encontrar algo parecido no futuro, mas nunca será aquilo que você decidiu abandonar.

No fim das contas, a vida não possui um botão de “pause” para os sentimentos alheios enquanto testamos nossas indecisões. Achar que o outro é uma estação de trem, onde podemos embarcar e desembarcar conforme nossa conveniência, é o maior erro de quem não sabe valorizar o agora.

O amor não é um objeto que guardamos na gaveta para usar quando a novidade perde o brilho; é um organismo vivo que, se não for alimentado, simplesmente deixa de existir para nós.

Quem caminha olhando sempre para a grama do vizinho acaba perdendo o chão que pisa, esquecendo que o terreno mais bonito não é o mais novo, mas aquele que escolhemos cultivar com verdade e presença.

Publicado emCrônicas

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