Vista de cima, a Terra é um estelionato visual. Sarah Brightman abre seu álbum com a faixa “Dive”, nos lembrando, com uma voz que parece flutuar sobre o oceano, que o azul que define nossa casa não nos pertence. O mundo é, por direito de ocupação e volume, o território da baleia. Mas, enquanto a música nos convida a mergulhar em um sonho subaquático, a superfície da realidade é muito mais turbulenta.
Cientistas e órgãos como a Comissão Baleeira Internacional (IWC) estimam que, antes da caça comercial desenfreada, as populações eram vastas. A baleia-azul, o maior animal que já existiu, chegou a ter cerca de 250.000 indivíduos cruzando os oceanos. Hoje, após décadas de proteção, o número ainda luta para passar dos 10.000 a 25.000.
A ironia desse “território” é que ele se tornou um campo minado. Embora a caça comercial tenha sido banida pela maioria dos países em 1986, a média de mortes anuais causadas diretamente por humanos ainda assusta: entre 1.000 e 1.500 baleias por operações lideradas por nações que não aderiram ou contornam a moratória, como Japão, Noruega e Islândia.
No entanto, o assassino mais silencioso não é o arpão. O “emaranhamento” em redes de pesca e as colisões com grandes navios de carga matam silenciosamente milhares de cetáceos todos os anos — números que alguns estudos sugerem chegar a 300.000 se incluirmos golfinhos e botos.
Ao voltarmos à superfície, percebemos que a modernidade — aquela mesma que finge que “as coisas mudaram” para esconder a ignorância — transformou o santuário em rodovia. Dizer que “o planeta é o território da baleia” hoje soa mais como uma denúncia do que como uma constatação geográfica. É preciso aprender com o passado para que o futuro desses gigantes não seja apenas uma canção gravada em um disco de 1993. Se não pudermos garantir a segurança de quem realmente é dono de 70% da nossa casa, que direito temos de nos chamarmos de moradores?
Oceano em mutação
As fronteiras desse território estão encolhendo ou se deslocando de forma caótica devido ao aquecimento global. O aumento da temperatura das águas polares é um ataque direto à despensa das baleias: o krill depende do gelo marinho para sobreviver. Com o degelo acelerado, essas populações se movem centenas de quilômetros para o sul.
Isso força as baleias a viajarem distâncias muito maiores para se alimentar. Estudos recentes de 2025 e 2026 mostram que baleias-franca-austrais estão com intervalos maiores entre as gestações porque as fêmeas não conseguem acumular gordura suficiente para sustentar um filhote, resultando em menos nascimentos.
As mudanças climáticas alteram a fenologia — o tempo das coisas. A primavera chega mais cedo, o gelo derrete antes do previsto e as rotas de migração mudam. Essa mudança de endereço tem um custo mortal: os animais acabam entrando em áreas de tráfego intenso de navios onde não costumavam estar. No Golfo de Maine, o aquecimento das águas empurrou a criticamente ameaçada Baleia-Franca-do-Atlântico-Norte para o norte, resultando em eventos de “mortalidade incomum”.
O “clima extremo” não se resume a furacões. Ondas de calor marinhas podem reduzir o habitat de espécies como a baleia-comum em até 70%. Além disso, a acidificação dos oceanos altera a forma como o som viaja na água, aumentando a poluição sonora e dificultando a comunicação desses gigantes, que dependem do canto para encontrar parceiros e navegar.

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