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Se tem aviso, tem história

Mergulhei no mar de cabides daquela loja de departamentos como quem busca um tesouro perdido. Minha técnica é apurada: primeiro o toque, depois o caimento. Passei a mão por uma camiseta para usar na academia: o tecido não me agradou logo de cara e, olhando com mais atenção, percebi que a costura estava um pouco frágil. Então, desisti.

Mudei de setor e avancei para uma calça de sarja verde musgo, avaliando a resistência do tecido entre os dedos. Estiquei a peça contra a luz, conferindo se a costura era firme ou se ia me deixar na mão no primeiro agachamento. Estava ali, naquele transe silencioso de quem faz cálculos mentais entre “eu mereço” e “será que parcela?”, quando o som ambiente foi cortado por um estalo seco.

– Atenção, senhores clientes – a voz do locutor ecoou, vinda de algum lugar entre as lâmpadas de LED e o forro de gesso. – Gostaríamos de lembrar que dispomos de provadores amplos e higienizados no fundo da loja. Pedimos a gentileza de NÃO experimentar roupas no meio do salão ou entre os cabideiros. O provador foi feito justamente para isso. Por favor, respeitem o espaço comum.

Eu travei com a mão ainda no zíper da calça que eu ia apenas… medir. O susto foi tão grande que meu coração deu um solavanco. A voz dele não era um convite, era um sermão.

Imediatamente, minha cabeça virou um radar. Comecei a olhar para os lados com os olhos arregalados, esperando encontrar alguém em trajes sumários ali mesmo, entre a seção de moda praia e os jeans em promoção. Dei dois passos para trás, espiando por entre as frestas dos cabideiros circulares. Será que tem alguém de cueca atrás daquela pilha de moletons? Alguém decidiu que a luz do corredor é melhor que a do espelho do provador e resolveu ficar pelado aqui do meu lado?

Fiz uma varredura completa. Olhei para a direita, onde uma senhora examinava meias, e para a esquerda, onde um casal discutia o preço de um cinto. Ninguém parecia estar cometendo um atentado ao pudor naquele segundo, mas o clima mudou. A cada movimento suspeito de um cabide, eu já imaginava uma pessoa tentando enfiar uma calça apertada sem o auxílio de uma porta trancada.

O anúncio se repetiu, agora com um tom de quem já tinha visto coisas que não podia desver.

Larguei a calça de volta no lugar. A vontade de levar qualquer coisa evaporou, substituída por uma curiosidade antropológica. Enquanto eu caminhava em direção à saída, desviando de manequins que agora pareciam testemunhas silenciosas de algum caos recente, uma frase martelava na minha mente como um mantra.

Apertei o passo, sorrindo sozinho ao passar pela porta giratória. Afinal, ninguém cria uma regra dessas do nada. Ninguém interrompe a playlist de sucessos do momento para dizer o óbvio se o óbvio não tivesse sido ignorado de forma épica minutos antes.

Ou seja, se tem aviso, tem história.

Publicado emContos

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