A maioria das histórias que escrevo nos meus romances tem um pé na realidade. É inevitável: a vida é o melhor laboratório para um escritor. Por isso, vira e mexe, alguém me pergunta: “Em quem você se inspirou para criar esse personagem?” ou “Que história real deu origem a esse capítulo?”.
Minha resposta é sempre o silêncio. E existe um motivo muito importante e prático para eu nunca revelar minhas fontes.
No início, cheguei a abrir o jogo uma ou duas vezes. Lembro-me de uma situação específica em que contei a uma pessoa que ela havia inspirado um personagem. Ela ficou curiosa, quis ler o resultado e, quando o fez, o problema começou.
Ela me questionou duramente: “Mas por que você mudou isso? Por que o personagem agiu assim se eu não agi?”. Ela ficou brava, sentindo-se “dona” da narrativa.
O que as pessoas geralmente não entendem é que, como escritor, eu tenho liberdade artística. Eu não estou escrevendo a biografia de ninguém; estou me inspirando em um fragmento da realidade para construir algo novo. Para a história ter coesão, coerência e ser interessante para o leitor, eu posso (e devo) mudar o que eu quiser.
Muitas vezes, a alteração da realidade não é apenas um capricho estético, mas uma necessidade de preservar a identidade da própria fonte de inspiração.
Certa vez, em um dos meus romances, mudei pontos cruciais de um personagem para que ninguém pudesse associá-lo à pessoa real. Cheguei a transformar um personagem que, na vida real, era um homem heterossexual em um personagem homossexual na ficção.
Essa mudança não só protegeu a privacidade da pessoa, como abriu um leque de possibilidades narrativas riquíssimo que eu não teria explorado se tivesse me prendido à “fidelidade absoluta”.
Mesmo com essas mudanças, quando a pessoa descobriu a inspiração, veio me cobrar. Tive que explicar que aquele fator real era apenas o ponto de partida, não o destino final. No fim, usei o argumento da proteção e ela aceitou, mas o desgaste ficou.
As pessoas tendem a não desassociar o fato da ficção. Elas acreditam que, se a semente da história veio delas, o fruto também as pertence. Mas, no momento em que coloco a caneta no papel (ou o dedo no teclado para ser moderno, apesar de menos poético), a história é minha.
Hoje, entendo que a melhor forma de honrar minhas inspirações e manter minha paz criativa é guardar esse segredo comigo. Ao não dizer quem inspirou o quê, protejo as pessoas reais de julgamentos e protejo minha obra de cobranças que não fazem sentido no mundo da literatura.
No final das contas, o que importa não é o que aconteceu de verdade, mas o quanto a história que eu criei consegue tocar o coração de quem lê.

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