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Quando nos confrontamos com o nada

Sempre acreditei que a música é a forma mais refinada de expressão. Ela não apenas descreve um sentimento; ela o coloca diante de nós, palpável, permitindo que o observemos sob diferentes luzes. Recentemente, vi-me mergulhado em um exercício quase obsessivo de escuta comparativa entre duas obras de Sarah Brightman: “Free” e sua versão francesa, “Guéri De Toi”.

Embora habitem a mesma melodia, as letras revelam uma divergência filosófica profunda. Elas não narram apenas o fim de um relacionamento, mas dois estágios distintos do que os existencialistas chamariam de “confronto com o nada”.

I had to be free

Em Free, sou confrontado com a liberdade sob uma ótica livremente inspirada em Jean-Paul Sartre. Para o filósofo francês, o ser humano está “condenado a ser livre”, mas essa liberdade não é uma dádiva alegre e sin um fardo pesado, pois implica a responsabilidade total pelas nossas escolhas e pelo vazio que elas criam.

Quando Sarah canta “I had to be free / From feelings that haunted” (Eu tive que ser livre / De sentimentos que me assombravam), percebo uma vontade ativa e uma tentativa deliberada de romper as correntes de um afeto que se tornou uma prisão. No entanto, o eu lírico de Free ainda habita o que podemos chamar de “liberdade negativa”: ela é livre de algo, mas ainda não sabe para o quê é livre.

A dor de Free reside na vigilância. A protagonista ainda observa as sombras na parede, ainda questiona se o “outro” a substituiu. Aqui, a liberdade é uma ferida aberta e pulsante, uma angústia de quem escolheu a solidão e agora precisa lidar com o eco do próprio grito. É o desejo schopenhaueriano em sua forma mais crua: a oscilação entre a dor da falta e a busca por uma paz que ainda não chegou.

Je guéri de toi

Se Free é sobre o ato de libertar-se, Guéri De Toi (Curada de Você) é sobre o cenário pós-guerra. Aqui, a filosofia muda. Saímos do existencialismo dinâmico e entramos em uma espécie de niilismo passivo ou uma melancolia heraclitiana.

A letra começa com a imagem de “bouts de ruine” (pedaços de ruína) e “pans de murs anciens” (pans de muros antigos). É a aceitação de que o tempo é um agente entrópico que corrói até as construções mais ricas de amor. Em francês, o eu lírico não clama por liberdade; ele constata a cura. Mas é uma vitória de Pirro.

A pergunta central desta versão – “Mais guérie de quoi? Si l’amour m’est égal?” (Mas curada de quê? Se o amor me é indiferente?) – evoca o conceito de ataraxia dos estoicos, mas desprovido de sua sabedoria iluminada. É uma ausência de perturbação que se assemelha à morte em vida. Se em Free havia fogo e sombra, em Guéri De Toi há apenas o “frio”.

Cura, neste contexto, não é o retorno à saúde, mas a transição para a apatia. O eu lírico atingiu o estado de indiferença onde o objeto amado não mais assombra, mas também onde a própria capacidade de sentir e de amar foi sacrificada em nome de uma suposta superação. Como Nietzsche alertou, ao lutar contra monstros (ou contra a dor de um grande amor), devemos cuidar para não nos tornarmos o próprio vazio.

Assim, podemos nos questionar se, apesar de ser dizer curada, com a capacidade de amar tolhida, a protagonista da canção encontrou de fato a cura para a dor que sentia após o fim do sentimento que outrora nutriu? Pode até ser que sim, mas não houve uma cura total visto que ver o amor com indiferença pode ser uma sequela/consequência ou mesmo um resquício da dor que hoje ela acredita não mais ter ou até mesmo prefere evitar.

O destino do eu

Ao comparar as duas, sinto que Free é o grito de quem ainda luta, enquanto Guéri De Toi é o silêncio de quem já desistiu de lutar porque não sobrou nada pelo que batalhar.

Em qual dessas versões eu me encontro? Talvez na oscilação entre ambas. Há dias em que a liberdade parece uma conquista heroica, uma afirmação da minha vontade sobre o caos dos sentimentos.

Em outros dias, porém, a “cura” se manifesta como esse frio que Sarah canta com tanta delicadeza. A percepção de que, para deixar de sofrer por alguém, tive que apagar uma parte da minha própria luz.

No fim das contas, Sarah Brightman nos oferece um espelho duplo: de um lado, a liberdade que queima; do outro, a cura que congela. Ambas são verdades universais. Ambas são o preço que pagamos por termos ousado construir algo “belo e rico” em um mundo regido pelo tempo e pela impermanência.

E você, no teatro da sua própria existência, prefere o peso da escolha ou o vazio da indiferença? Porque, como estas canções nos ensinam, raramente conseguimos um sem aceitar o outro.

Publicado emEntrelinhas Musicais

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