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O ultimato do eu

Se existe uma constante nas interpretações das canções da Sarah Brightman que venho fazendo aqui no blog, é a capacidade de transformar a passividade da dor em uma forma de conhecimento estético. Hoje, ao colocar “With These Eyes” em meu computador mental, fui atingido pela dualidade entre o ver e o querer.

A insistência característica da música pop no verso “With these eyes” me remete imediatamente à Fenomenologia da Percepção. Na filosofia, o olhar não é apenas um sentido físico; é o que constitui o objeto. Ao cantar que “com estes olhos” ela viu o amor acabar e esperou na chuva, a protagonista valida a realidade da sua dor. Não é um sonho, não é uma ilusão: ela testemunhou a própria ruína.

Isso cria um contraste doloroso com Let it Rain. Enquanto naquela música ela pedia para ser “lavada” pela chuva, aqui ela já passou pela tempestade e saiu dela com uma visão límpida e cruel: “I’ve watched you turn away / With nothing left to give” (Eu vi você se afastar / Sem nada mais para dar).

A ética da alteridade de Lévinas e o fantasma do outro

Onde a música realmente ganha profundidade é nas estrofes em francês. Quando Sarah canta “Ne viens pas / Si tu n’as pas choisi / S’il reste à tes silences / Encore un pouco de lui” (Não venha se não escolheu, se resta em seus silêncios um pouco dele), entramos no campo da alteridade.

Emmanuel Lévinas falava sobre a ética do encontro com o “Rosto do Outro”. Em With These Eyes, o problema é que o rosto do amante está “assombrado” por um terceiro. O eu lírico recusa-se a ser um espelho para alguém que ainda busca outra pessoa. Existe uma dignidade existencial imensa aqui: a recusa em ser o “entre-lugar” ou o consolo para uma escolha não feita. É um passo além de Guéri de Toi; aqui, a personagem não está apenas curada ou anestesiada, ela está estabelecendo fronteiras.

A indiferença da arte: o destino que não se importa

O verso final é, para mim, um dos mais filosóficos da carreira de Sarah: “A sad song doesn’t care whose heart it breaks” (Uma canção triste não se importa com o coração de quem ela quebra).

Esta frase evoca o conceito de Schopenhauer sobre a música como a expressão direta da “Vontade”, uma força cega e indiferente aos indivíduos. A tristeza da vida (e da música que a imita) é uma força da natureza. Ela não escolhe vítimas; ela simplesmente acontece. Aceitar que o sofrimento é impessoal e que a “canção triste” continuará tocando independentemente de quem sofra, é o estágio final da sabedoria trágica.

O Limite do Amor

Ao comparar com as reflexões anteriores, vejo um amadurecimento. Se em Let it Rain o eu era a vítima da tempestade, em Free ele passa a ser o fugitivo da prisão e em Guéri de Toi o eu se torna o sobrevivente nas ruínas. Mas, em With These Eyes, o eu vira o juiz.

Esta canção nos ensina que o amor exige uma escolha radical. Não basta “ver” com os olhos; é preciso “decidir” com a alma. Se houver silêncio ocupado por outra pessoa, se houver dúvida, então a resposta deve ser o silêncio do afastamento. Porque, no final, nossos olhos podem até suportar ver a dor, mas nosso coração não deve aceitar ser apenas o disfarce de um amor que já partiu.

Publicado emEntrelinhas Musicais

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