Sigo analisando músicas da Sarah Brightman e neste texto vou falar de uma música do álbum Dive, no qual a cantora nos convida a um mergulho que não é apenas físico, mas psicológico.
A canção da vez é “Ship Of Fools”, talvez, a mais, digamos, “terrestre” no ritmo, mas a mais “abissal” em seu significado. Ela captura o exato momento em que percebemos que o amor não era um porto seguro, mas uma balsa com dois náufragos em busca de terra firme, mas sem saber qual direção tomar.
A folly como condição humana
Filosoficamente, a canção me remete a Erasmo de Roterdã e seu Elogio da Loucura. Erasmo argumentava que a loucura (a “Folly”) é essencial para a felicidade humana; sem um pouco de ilusão, ninguém suportaria o casamento ou as relações sociais.
Em “Ship Of Fools”, Sarah canta sobre o início, onde “everything was right” (tudo estava certo). Ali, a loucura era doce. O problema surge quando a ilusão se desfaz e sobra apenas a realidade de que “you’re not the same” (você não é o mesmo).
Navegar no “navio dos tolos”, portanto, é aceitar que o amor, muitas vezes, é uma construção baseada em segredos e projeções que o tempo, esse mestre cruel que já vimos em Guéri De Toi, acaba por revelar.
O retorno ao olhar e o ciclo da consciência
É fascinante notar como Sarah inicia esta canção: “Remember the day / When I first set my eyes on you”. É o mesmo “olhar” que analisamos em With These Eyes. No entanto, enquanto em With These Eyes o olhar era de julgamento e limite, aqui ele é a memória de uma queda.
Se em Let It Rain o eu lírico se afogava na chuva, aqui ele está em mar aberto. Há uma tentativa desesperada de comunicação (“Tell me what went wrong”), mas o navio já está à deriva.
A filosofia de Platão na República descreve um navio onde a tripulação, ignorante sobre a arte da navegação, toma o controle. No amor de “Ship Of Fools”, o intelecto foi jogado ao mar e os amantes são apenas passageiros de um destino que “always has to end this way” (sempre tem que terminar assim).
Conclusão: a frota das emoções
Ao olhar para todas as músicas que analisei até agora, vejo agora um mapa náutico completo da alma:
- Ship Of Fools: É a partida. A euforia cega que nos faz embarcar em algo destinado a falhar. É a loucura do início.
- Let It Rain: É a tempestade em alto-mar. O momento em que a lei do amor nos golpeia e só nos resta o afogamento purificador.
- With These Eyes: É o farol. O momento de lucidez onde olhamos para o outro e dizemos: “Eu vejo quem você é, e não permitirei que você entre no meu porto se não for por inteiro”.
- Free: É o bote salva-vidas. A decisão dolorosa, mas necessária, de abandonar o navio principal para salvar a própria identidade.
- Guéri De Toi: É o desembarque na ilha deserta. O navio afundou, a tempestade passou. Restam as ruínas na areia e o frio de quem sobreviveu, mas esqueceu como era navegar.
Sarah Brightman, através das canções que analisei até agora, não canta apenas sobre corações partidos; ela canta sobre a nossa incapacidade de sermos capitães perfeitos de nossas próprias vidas.
Afinal, somos todos, em algum momento, tripulantes desse Navio dos Tolos, torcendo para que as memórias valham o naufrágio.

Seja o primeiro a comentar