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O encolhimento do mundo

Você já voltou a um lugar que amava na infância e sentiu um choque ao perceber o quanto ele parecia menor? O corredor que antes era um labirinto agora é só um aperto; o muro gigante agora bate na sua cintura. É exatamente sobre esse fenômeno brutal e silencioso que Bee Gees e, posteriormente, Sarah Brightman cantam na belíssima e melancólica “First of May”.

A imensidão perdida

A canção começa com um contraste fenomenológico doloroso: “Quando eu era pequeno, as árvores de Natal eram altas”. A filosofia nos ensina que a criança não mede o mundo em centímetros, mas em maravilhamento.

Na infância, nós habitamos uma “bolha” mágica de completude. No entanto, o tempo, com sua indiferença cruel, passa por nós. O momento em que “alguém de longe se muda” para o nosso espaço é a metáfora perfeita para o fim dessa bolha: é a invasão da realidade, das regras e do mundo dos adultos.

A síndrome da árvore pequena

O refrão nos atinge com o peso do amadurecimento: “Agora somos altos, e as árvores de Natal são pequenas”. Crescer tem um preço. Quando ganhamos altura, o mundo perde o seu encantamento. As coisas tornam-se apenas coisas.

Psicanaliticamente, a música descreve o processo de luto que todos nós passamos ao deixar a infância para trás. A magia não foi a lugar nenhum; fomos nós que desaprendemos a enxergá-la.

As maçãs da entropia e a recusa do esquecimento

A imagem da macieira, da qual os frutos caem “um por um”, é uma representação devastadora de como assistimos passivamente à passagem do tempo e à perda daqueles que amamos. Neste sentido, a despedida ( ou “o dia em que beijei seu rosto e você se foi” ) pode significar o momento em que somos expulsos do nosso próprio Éden particular.

Contudo, “First of May” é, antes de tudo, uma canção sobre a resistência da memória. Ao clamar para que chegue o “Primeiro de Maio” (a primavera, o renascimento), o eu lírico recusa-se a esquecer.

É a melancolia pura: a recusa em deixar morrer o amor da infância, guardando-o como um relicário dentro do peito, imune aos ponteiros do relógio.

Publicado emEntrelinhas Musicais

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