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Rumo

Assim que minha mãe foi enterrada, eu voltei para minha casa, em outra cidade, longe da casa onde ela morava. Foi a viagem mais difícil da minha vida e foi o início da noite mais tenebrosa que já vivi em toda a minha vida.

Na verdade, enquanto escrevo esse texto, eu ainda não consigo de fato assimilar e aceitar a morte dela. Parece que a qualquer momento vou receber uma mensagem no Whatsapp ou uma mensagem dela. Mas, sei que é só uma sugestão inconsciente e que essa mensagem nunca vai chegar.

Assim que entrei na minha casa, eu tomei um banho. E chorei.

Me senti sem rumo. Ainda me sinto. Antes eu sabia que poderia voltar para ela caso tudo desse errado. Hoje, eu sei que não tenho mais isso. É como aprender a andar de bicicleta: eu sabia que, seu caísse, ela estaria lá. Por mais longe que eu fosse, eu olharia para trás e ela estaria lá, me observando.

Agora, não tem mais isso. Olho para trás e vejo o horizonte atrás de mim totalmente vazio, com algumas pegadas no chão que, em determinado momento, cessam e somente as minhas seguem.

Ainda busco um rumo, um novo norte.

Resguardada as devidas peculiaridades, eu me sinto cantando em frente a um espelho o trecho inicial da canção You Must Love Me do musical Evita:

Para onde nós vamos daqui?
Não é aqui que pretendíamos estar
Nós tínhamos tudo
Você acreditava em mim
Eu acreditava em você

Certezas desapareceram
O que temos que fazer pra que um sonho sobreviva?
Como mantemos todas as nossas paixões vivas?
Como nós costumávamos fazer

O silêncio que encontro quando penso na minha mãe também me coloca em outro lugar pois sei que essa é uma ruptura forte na minha vida. É como se eu abandonasse de fez a minha vida passada e fosse forçado e continuar em um novo formato, sem ela.

Sou forçado a me olhar novamente sozinho, perdido. Olhando para trás e não encontrando mais para onde voltar. Novamente falando de música, talvez o trecho que melhor defina o que sinto é o refrão de Another Suitcase in Another Hall, também do musical Evita:

Então o que acontece agora?
Outra mala em outro corredor
Então o que acontece agora?
Tire sua foto de outra parede
Para onde eu vou?
Você vai sobreviver, você sempre conseguiu antes
Para onde eu vou?

Sigo tentando ser firme e forte, mas confesso que está cada dia mais difícil. Sei que vai ser assim por um bom tempo e só queria que doesse um pouco menos, já que não posso ter minha mãe de volta.

Publicado emCrônicas

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