Águas de Março – Capítulo 02

Ivan anotou em um papel o endereço indicado por Cesar e depois vestiu uma calça jeans, uma camisa polo, sapatênis e uma jaqueta para enfrentar o vento frio que fazia par com a chuva. Pegou o celular, chamou um Uber e cerca de 20 minutos depois chegou no local indicado pelo policial. Neste momento a chuva caía intensamente, o que o fez procurar um local para se abrigar. Ligou para Cesar e minutos depois uma viatura da polícia parava em frente ao abrigo que ele encontrou para se esconder das águas de março que já começavam a cair – e que em 2019 parecem ter chegado mais cedo, em fevereiro –, indicando o fim do verão. Ivan entrou no carro e cumprimentou Cesar.

– Eu estou bem, cara! – respondeu Cesar abrindo um sorriso.

Com cerca de 30 anos, magro, barba muito bem aparada e já com alguns fios brancos e olhos castanhos esverdeados, Cesar sempre fez muito sucesso entre as mulheres – e alguns homens também. Solteiro, abusava de seu charme, boa altura, cabelos impecavelmente penteados e pele clara. Nunca quis casar e afirmava “querer aproveitar o melhor da vida”. Entre as jornalistas, muitas contavam que uma noitada na cama com ele garantia excelentes oportunidades. Porém, Cesar teve apenas um relacionamento passageiro com uma jornalista e não quis mais nada com nenhuma outra profissional da categoria após ter seu nome revelado como fonte em uma investigação sigilosa, o que quase causou a sua exoneração. “Elas acham que ir uma vez para cama significa exclusividade na hora de passar uma notícia e, quando você nega, querem se vingar”, justificava ele sempre que o assunto surgia.

Do outro lado, Ivan, por sua vez, nunca teve qualquer sucesso com as mulheres. Muito inteligente e perspicaz, era encorajado por Mônica a sair mais, porém ele preferia uma vida um pouco mais reclusa e reservada. Teve poucos relacionamentos, mas seu perfil ligeiramente antissocial às vezes afastava as candidatas. Seus cabelos loiros acinzentados e pele clara deixavam seus olhos azuis ainda mais evidência. “Eu sou baixinho. Talvez se eu fosse um pouco mais forte, mas já estou com trinta anos e já não tenho mais vontade de frequentar uma academia como antigamente…”, dizia sempre para justificar o seu fracasso em relacionamentos. “Não, você é apenas inseguro! Sempre foi um dos melhores repórteres do jornalismo e excelente nas reportagens ao vivo. Tanto que fiz questão que trabalhasse comigo!”, respondia Mônica quando Ivan começava a desabafar.

Ivan e Cesar se conheceram na faculdade. Ivan cursava Jornalismo e Cesar estudava Direito. As salas dos dois cursos eram muito próximas e eles sempre se cruzavam nos corredores ou mesmo na cantina. Um dia descobriram que moravam em prédios próximos e passaram a ir juntos para as aulas durante a semana.

A amizade entre eles sempre foi tão forte que um foi convidado para a formatura do outro e até antes das respectivas rotinas serem afetadas pela vida profissional, com frequência saíam juntos. Cesar sempre saía acompanhado. Ivan sempre saía carregado ou cambaleante.

Mesmo distantes, a amizade permanecia e Cesar sempre passava detalhes de investigações ou informações e casos em primeira mão. Por causa disso, e para disfarçar, pois, caso a relação entre eles fosse descoberta Cesar seria punido por vazar informações que quase sempre eram confidenciais, eles mantinham certa distância física e evitavam serem vistos juntos, chegando até a não terem nenhum vínculo em redes sociais. Naquela noite, Cesar estava sozinho e dirigiu por cerca de 10 minutos enquanto Ivan era seu passageiro e o policial aproveitava o caminho para falar, com detalhes, da sua última aventura sexual.

De repente o carro parou próximo a uma rua pouco movimentada na região central e Ivan comentou:

– Ainda bem que confio em você ou sairia correndo do carro pedindo socorro.

– Fique tranquilo, Ivan! Você tem sorte. Mas, a pessoa que vou te mostrar não teve nenhuma.

– O que aconteceu?

– Eu quero que você veja por si só. Vem comigo.

Os dois andaram por um alguns minutos rumo a uma parte mal iluminada do Parque Dom Pedro II. Ivan avistou alguns policiais armados fazendo guarda para um corpo já coberto. O jornalista percebeu que não se tratava de um falecimento qualquer. Aquele cadáver trazia alguma coisa consigo que tornava aquela morte especial e notória.

Os policiais abriram caminho para Ivan e Cesar. O policial se aproximou do corpo coberto, olhou para o jornalista e disse:

– Eu vou te mostrar e você terá uma hora para aproveitar esse furo de reportagem. Depois, não posso segurar mais. Já acertei tudo com todos os envolvidos.

– Calma, Cesar! É muito pouco tempo.

– Todo mundo aqui tem seus esquemas, Ivan. Eles só toparam privilegiar você pois eu pedi e… Bem, tenho os meus argumentos… Não posso ir além disso. Confio em você, sabe disso. Você é meu brother, cara. Além disso, se tudo correr como imagino, serei indicado para acompanhar esse caso e a repercussão será muito positiva para a minha carreira. Afinal, não é todo dia que você tem a oportunidade de noticiar em primeira mão – ele abriu o zíper da mortalha – que Tamara Leão foi morta e teve o rosto desfigurado por uma série de pauladas.

Ivan ficou pálido quando viu o corpo da célebre cantora ali, sem vida e seu rosto praticamente irreconhecível.

– Cesar, você não está falando isso. Você quer ficar famoso a custa da dor de outras pessoas… – disse Ivan, indignado com o show que o amigo estava fazendo

– Ivan, seja honesto! Vocês, jornalistas, principalmente você e a sua chefinha, ficaram famosos com o quê? Não foi por causa de receitas de purê de batatas para pessoas com intolerância à lactose! Vocês querem e buscam histórias bizarras e chocantes. Agora, vamos! Você tem apenas 59 minutos pela frente. Rápido!

O jornalista respirou fundo e então o instinto jornalístico passou a falar mais alto. Ele ligou para a emissora onde trabalhava e contou parcialmente o que estava acontecendo. Então disse que precisava entrar ao vivo na programação para noticiar uma morte chocante.

– De quem? Se você não falar, eu não mando ninguém aí. Você pode pagar de chefinho no “Tarde Viva”, não aqui no jornalismo da Jaraguá. – disse Paula, produtora de plantão naquela madrugada.

– Paula, somos a maior audiência da programação e pagamos o seu salário, inclusive. Acho melhor você aceitar e mandar logo uma equipe para cá.

– A Mônica não manda e não influencia nada no departamento de jornalismo. – provocou Paula, demonstrando uma rixa entre o programa de variedades vespertino e o departamento de jornalismo.

– Eu já fui subordinado ao gerente de jornalismo e tenho ótimo relacionamento com ele. E sei que ele não vai gostar de saber que perdemos a chance de darmos um furo em rede nacional por causa de uma babaquice. Quer que eu ligue para ele para perguntar se uma equipe pode vir para cá?

Paula ficou muda por alguns segundos e então respondeu:

– Tem uma equipe a caminho daí. Previsão de chegada em 30 minutos.

– Ótimo! Só roda a vinheta do plantão e abre o sinal. O resto, deixa comigo.

Enquanto isso, na Zona Oeste da cidade, uma crise de insônia deixava Mônica desesperada e cada vez mais embriagada: ela tinha por hábito beber uma taça de vinho sempre que o sono faltava. Estava na quinta taça e nada do sono aparecer.

Foi na varanda e observou a chuva caindo. Segundos depois sentou no sofá, pensou em fumar, então lembrou que há tempos não tragava nada e não tinha nenhum cigarro em casa. Por fim, ligou a televisão, sintonizou o equipamento na TV Jaraguá e começou a assistir a um filme que estava passando. De repente a vinheta de plantão do “Telenotícias Jaraguá” começa a passar na tela.

– Lá vem alguma morte e uma pauta de repercussão para segunda-feira! – disse em voz baixa para si mesma.

Com o olhar fixo na tela, ela se assusta ao ver a imagem de Ivan na tela e levanta nervosa do sofá.

– Boa noite! A cantora Tamara Leão foi encontrada morta há pouco na região central de São Paulo. A polícia ainda não tem maiores detalhes, mas acredita que a artista foi assassinada. Ao lado do corpo foi encontrado um pedaço de pau com muito sangue.

– Filho de uma puta! Então quer dizer que você vai me trair e me trocar pelo jornalismo! – exclamou Mônica irritada enquanto procurava o celular em cima do sofá para ligar para Ivan.

No parque, logo que Ivan terminou de fazer a entrada ao vivo ele sentiu o celular vibrando no bolso da calça. Pegou o aparelho, viu o nome de Mônica no visor e atendeu:

– Oi, Mônica!

– Esse furo era para ser nosso!

Mônica desligou o aparelho e Cesar se aproximou do amigo.

– Bom, vou fazer silêncio enquanto for possível. Daqui a pouco seus colegas aparecem, mas garanto que só você fala comigo.

– Minha chefe está brava comigo. Talvez eu seja demitido por causa disso.

– Quem está bravinha? A Mônica? Deixa ela comigo. Sei como domar a fera e tenho certeza que você não será demitido. Você tem mais nome no mercado do que imagina, Ivan.

Ivan agradeceu a equipe de reportagem que o acompanhou e começou a conversar com um repórter que iria assumir o trabalho a partir daquele ponto. Foi para casa e demorou para pegar no sono. Na rua, por volta de quatro da manhã, um grupo de foliões passou cantando e Ivan só conseguia pensar: “Esse carnaval vai ser mais longo do que estou imaginando…”

Acordou por volta de meio dia, tomou um banho, saiu para comer e aproveitar as poucas aberturas de sol do sábado. Quando terminou, foi caminhar sem rumo pelo shopping e no caminho tentou ligar algumas vezes para Mônica. Ela não atendeu ao telefone e ele começou a perceber que em breve estaria desempregado. Ivan se arrependeu de ter entrado ao vivo para noticiar a morte de Tamara e por ter deixado a vaidade falar mais alto.

O relógio marcava seis da tarde. Chovia muito forte e ele novamente chamou um Uber para levá-lo até em casa. Chegou em casa pouco mais de meia hora depois e ficou na sala pensando em tudo o que estava acontecendo e ouvindo o barulho dos trovões. Quando o relógio marcou oito da noite, ele ligou a TV. O “Jaraguá Telenotícias Noite” dedicou 20 minutos à morte de Tamara. A reportagem citava que o primeiro a dar a notícia foi o repórter do programa “Tarde Viva” Ivan Torres. Quando ouviu seu nome, desligou a TV e fechou os olhos, desesperado.

Foi até a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma cerveja. Ligou novamente a TV e as notícias sobre a forte chuva que caía sobre São Paulo começaram a ganhar destaque no telejornal: vários pontos de alagamento, quedas de árvores, desmoronamentos, e desabamentos. A seguir, as notícias do carnaval e os foliões aproveitando a festa mesmo embaixo de chuva, seguida da previsão do tempo.

– Tudo no roteiro de sempre… – disse para si mesmo.

Ivan recostou no sofá e cochilou. Acordou algumas horas depois, por volta de quase meia noite com o celular tocando. Era Cesar.

– Boa noite, Ivan! Estou na porta da sua casa.


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