Águas de Março – Capítulo 03

Cesar estava impaciente quando Ivan apareceu na porta da casa.

– Poxa, cara! Por que tanta demora?

– Calma, Cesar! Eu estava dormindo e acordei com você me ligando. Além disso, não passou cinco minutos da meia noite e estou meio lesado. Talvez eu seja demitido por ter entrado ao vivo na madrugada.

– Deixe a Mônica comigo, já te falei! – disse um pouco mais calmo e na sequência ficou mais apreensivo e emendou – Ivan, aconteceu de novo, cara.

– Aconteceu o que, Cesar?

– Mais uma mulher foi encontrada morta e o corpo novamente estava na região central. E o rosto dela também foi desfigurado, mas desta vez com pedradas. E um saco com o que acreditamos ter sido as pedras que foram usadas no crime foi encontrado perto do corpo.

– Cesar, vamos entrar para conversar.

– Não. Eu vim te buscar para ir até o local do crime comigo.

– Cara, eu não vou entrar ao vivo de novo.

– Ivan, entra nesse carro e vamos até lá. Tudo bem se você não entrar ao vivo, mas eu quero que você vá. Não sei, cara. Isso não tá me cheirando bem e se ontem eu falei que a morte da Tamara me ajudaria na carreira, hoje eu começo a ficar apreensivo e sei que posso contar com a sua ajuda para que não tenhamos nenhum alarde além do necessário.

– Você está com medo das mulheres ficarem desesperadas?

– Medo? Eu tenho certeza que isso vai acontecer e a opinião pública vai cair em cima de mim.

– E o que eu posso fazer?

– Você é o produtor de um dos programas vespertinos mais assistidos e relevantes. Tem tudo na mão, cara! Além disso, você é meu amigo e pode ser o primeiro a chegar no local do crime. Acho que isso te ajudaria a voltar a ter moral com a Mônica.

Ivan abaixou a cabeça, olhou para Cesar e concordou em ir até o local do crime. No caminho, fez algumas perguntas:

– Você acha que alguém possa estar cometendo esses crimes de maneira sequencial?

– Tipo um serial killer? Duvido! Ainda é cedo para qualquer análise, mas duvido. Teoricamente não existe nenhuma relação entre as vítimas, mas é cedo para qualquer afirmação.

– Você quem vai investigar esse segundo caso?

– Com toda a certeza. Mas, acredito que eles coloquem mais alguém comigo e espero que seja o policial Valentim. Já conversou com ele?

– Não. Já ouvi falarem sobre ele, mas nada demais.

– Ele, modéstia a parte, faz menos sucesso com as mulheres que eu, mas é um bom profissional. Muito inteligente e perspicaz. E sabe disfarçar a imprensa… Hahahaha! – Cesar disse isso e gargalhou na sequência.

– Bem, acho que o segundo ponto interessa um pouco mais, no nosso caso. O primeiro não é muito relevante, a não ser que você vire figurante do “Jogo do Beijo” na “Domingueira Jaraguá”. Aliás, conheço uma galera da produção e se você tiver interesse…

– Ha! Ha! Ha! Muito engraçadinho, senhor Ivan! – interrompeu Cesar.

– Bem, vamos voltar ao trabalho. Ela foi encontrada onde? No mesmo local da outra?

– Não. Dessa vez foi em uma região deserta na Mooca. O rosto dela estava igualmente desfigurado e tinha um saco com pedras ensanguentadas ao lado do corpo.

– Estranho… Muito estranho!

– Chegamos. Vem comigo.

Os dois andaram por alguns minutos e chegaram em um local pouco iluminado.

– Eu já falei isso antes, mas vou repetir: eu confio muito em você para estar nesse lugar a esta hora!

– Fique tranquilo, Ivan!

Os dois chegaram ao local onde o corpo estava e um policial que guardava a área cumprimentou ambos e acendeu uma lanterna. Cesar se aproximou, abriu a mortalha e Ivan pode observar a nova vítima.

– Meu Deus! Que coisa horrível! E agora, o que vocês vão fazer?

– Não sei. Eu vim aqui acompanhar a situação. É carnaval, cara! Sabe como é… Nada funciona no Brasil!

– E na certa o assassino ou os assassinos fizeram isso para se aproveitar disso.

– Talvez, talvez… Bom, liberação da imprensa é como ontem: uma hora de exclusividade e depois, tchau! Mas, tem uma coisa: se o Valentim entrar nessa investigação, você nunca deve citar o meu nome. Na verdade você nem deveria estar aqui. Mas, conheço o instinto da sua profissão e conheço mais ainda o faro da sua chefinha.

– Mônica, Mônica… A essa hora deve estar tramando como vai fazer para me demitir e me humilhar com alguma piadinha ou frase pronta.

– Cara, pede para sair.

– Eu gosto do “Tarde Viva” e, pode soar estranho, mas gosto de trabalhar com a Mônica. Ela não lida bem quando as coisas não vão como ela planejou ou quando se sente traída, mas ela tem um faro para televisão que nunca vi em ninguém e, quando se sente grata, ela não mede esforços para agradecer.

– É… – disse Cesar em tom vago e em seguida mudando o tom de voz – Bem, o que você vai fazer?

– Vou acionar o plantão da TV e pedir uma equipe para um ao vivo.

– Infelizmente eu ainda não posso falar.

– Faremos apenas um boletim. Mas, se prepare para ser bombardeado em breve. Ninguém vai te deixar em paz!

Ivan ligou na sequência para a redação e 40 minutos depois uma equipe de reportagem chegava ao local indicado. Marcelo, um dos principais repórteres da TV Jaraguá, saiu do carro e disse:

– É aqui que entregaram o presunto?

– Nossa, Marcelo! Sua sutileza me assusta, sabia?

– É só uma brincadeira, Ivan! Mas, como você soube desse crime e já está aqui?

– Isso não te interessa. Tenho minhas fontes e acho melhor você preparar o boletim antes que a redação comece a te ligar.

Marcelo fez caras de poucos amigos e começou a organizar as informações para entrar ao vivo durante a programação da madrugada. Ivan saiu do local e foi em direção a um local mais iluminado para chamar um Uber e voltar para casa. Mandou uma mensagem para Cesar agradecendo a exclusividade na informação e, logo que o carro chegou, desligou o celular.

Quando chegou em casa, olhou o relógio e resmungou:

– Mais um dia dormindo de madrugada! Já são mais de duas da manhã!

Deitou no sofá e conseguiu dormir somente quando o domingo nublado começava a clarear. Iria passar o domingo de carnaval dormindo, mais uma vez.

Acordou por volta de duas da tarde. O corpo dolorido por causa do pouco conforto do sofá e a mente a mil. Tentou ligar para Mônica mais um vez e não conseguiu. Tomou um banho, comeu algo que encontrou na geladeira e saiu para curtir um pouco do carnaval. Quando colocou o pé na rua, uma forte chuva começou a cair. Ele voltou para dentro de casa e abriu o Tinder para tentar encontrar alguém. E conseguiu.

Joana estava como ele: sozinha em casa e entediada. A distância entre eles era pouca, apenas 500 metros. Se encontraram, foram para a casa dela, transaram algumas vezes e às sete da noite ele teve que ir embora correndo:

– Meu marido está chegando. – ela disse.

Ivan foi embora às pressas. Ela não passara sequer o número do telefone, mas Ivan, no fundo, não queria. Queria distância de confusões e se envolver com uma mulher casada definitivamente não estava nos planos dele.

Chegou em casa, tomou um banho e depois ficou de cueca pela casa. Sentou no sofá, pegou um livro e leu por cerca de quase uma hora até que decidiu assistir um pouco de TV. Foi para a cozinha, fez um lanche e depois ficou com o olhar fixo em um programa sobre vida selvagem em um canal por assinatura.

Enquanto Ivan se divertia com a TV, Cesar chegava em casa com a sua diversão favorita: uma mulher. Eduarda. Eles se conheceram em uma padaria logo após Cesar sair trabalho, exausto por ter montado parte do processo de investigação das duas mortas: Tamara Leão, a famosa cantora, e a “Nobre Sem Nome”, como ele anotara em um papel, que ainda não tinha sido identificada e nem reclamada por nenhuma família.

Os dois foram para a casa dele e já começaram a tirar a roupa tão logo a porta da sala foi fechada. Transaram loucamente por duas horas e, quando o relógio marcava onze e vinte e cinco, ele se jogou na cama após a terceira sessão de sexo com Eduarda:

– Você é maravilhosa! Três vezes quase seguidas não é para qualquer uma, hein?

– Não dá para recusar um homem incrível como você! – ela disse de maneira sensual.

– E eu estava precisando, hein? Tive dois dias muito difíceis no trabalho.

– Você trabalha com o quê?

– Sou policial. Ontem e hoje tivemos algumas coisas bem complic… É… Não posso te falar, pois são informações confidenciais, mas são situações bem difíceis e não quero falar disso com você, minha linda. Só quero aproveitar tudo que você tem para me dar…

– Ok, bonitão! Como você preferir. Eu vou tomar um banho. Quer vir comigo e aproveitar para uma quarta sessão?

– Não precisa convidar duas vezes…

Eduarda se levantou e Cesar foi atrás. Entraram embaixo do chuveiro e começaram a se beijar. Quando a situação entre os dois começou a esquentar, o celular dele tocou. Cesar ignorou o chamado e continuou com Eduarda, mas novamente o aparelho começou a tocar e Cesar perdeu o tesão:

– Desculpe. Eu preciso atender ao telefone. Eu prometo voltar.

Cesar foi pelado até o quarto e olhou o visor do telefone. Era um policial que estava de plantão:

– Chefe, acho que estamos no fundo do poço ou bem perto dele.

Cesar engoliu em seco.

Enquanto isso, já perto de meia noite, Ivan estava assistindo a um documentário sobre extraterrestres e se assustou com a campainha tocando. Ficou com medo e pensou ser o marido de Joana querendo tirar alguma satisfação. Foi correndo até a área de serviço e vestiu a primeira bermuda que encontrou.

A campainha tocava insistentemente, deixando Ivan ansioso e irritado. Ele abriu a porta da sala, passou pela garagem de maneira apressada e logo depois abriu o portão.

– Boa noite, Ivan! Acho que precisamos conversar… – disse Mônica abrindo um sorrido irônico logo que o portão se abriu.

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