Águas de Março – Capítulo 04

– Mônica? Já é tarde! O que você está fazendo aqui? – disse Ivan olhando no relógio – Já é meia noite… meia noite e um agora, para ser exato.

– Acho melhor você me convidar para entrar e colocar uma camisa. Temos muito para conversar.

Mônica não esperou o convite e caminhou até a sala de Ivan. Ele fechou o portão e foi atrás dela. Quando ele entrou na sala, ela disse:

– Eu ainda não engoli a sua entrada ao vivo na madrugada.

– Mônica, eu estava ali. O seu programa é à tarde. Não tinha o que fazer… Pelo menos fui creditado como jornalista do “Tarde Viva”. Sabe o que isso significa?

– Significa muito para você. Para o programa, nada! Você tinha que dar um jeito de segurar aquela informação até segunda-feira. Subornasse quem precisasse subornar, bastava me ligar. Dinheiro compra qualquer coisa, até mesmo juras de amor eterno.

– Mas, o dinheiro não compra a eternidade do amor, Mônica…

– Não me venha com filosofia barata. – ela disse sentando-se no sofá.

– Mônica, vamos fazer assim. É… Eu vou pedir meu afastamento do “Tarde Viva” e tentar uma vaga no jornalismo. Se não der certo, saio da TV Jaraguá e vou fazer outra coisa da minha vida.

– Você sempre tenta o caminho mais fácil. Desistir da carreira por causa disso?

Nesse momento o telefone de Ivan tocou, interrompendo a conversa dos dois.

– Oi, Cesar! Tô conversando agora e não posso falar com você.

– Eu acho melhor você vir para fora da sua casa agora. Passo aí em cinco minutos, cara! Aconteceu de novo! – disse o policial do outro lado da linha.

– Aconteceu de novo o quê?

Cesar desligou o telefone e Ivan disse para Mônica que precisaria sair e precisava se vestir.

– Fico esperando você voltar aqui na sala. Prometo não mexer em nada.

Ivan foi para o quarto e procurou uma roupa para usar. Não tinha entendido direito o que o amigo policial tinha dito ao telefone, mas a verdade é que ele não queria acreditar no que seu instinto afirmava. Colocou uma calça jeans, uma camiseta branca, tênis e voltou para encontrar Mônica na sala, mas ela não estava lá.

Assustado, ele foi até a garagem, viu o portão aberto e então saiu, encontrando Mônica do lado de fora ao lado de Cesar:

– Vocês não vão a lugar algum sem mim. Eu já desconfiava que você tinha esse investigadorzinho como fonte.

– Mônica, é… – tentou dizer Ivan.

– Entrem no carro. Não posso perder tempo. – disse Cesar.

Ivan fechou o portão e entrou no carro. Cesar saiu em alta velocidade rumo ao endereço indicado anteriormente por telefone pelo policial. No caminho, o silêncio predominou dentro do carro e só foi cortado quando o policial ligou para Eduarda e indicou um táxi para ela ir embora.

– É de um amigo. Diga a ele para me cobrar depois. – disse antes de desligar.

Quando chegaram ao local indicado, eles encontraram alguns carros de polícia parados e uma mortalha sendo fechada. Cesar se aproximou e começou a conversar com um policial:

– Boa noite! Policial Cesar! Como a vítima foi encontrada?

– Ela estava caída no fim desse beco e levou três tiros no rosto. – respondeu o outro policial.

– E a arma do crime? – perguntou Cesar.

– Do lado do corpo, embrulhada em um jornal com a data de hoje.

– Alguma página específica? – indagou Cesar.

– Classificados de emprego.

– Precisamos localizar o registro dessa arma.

– Duvido que tenha, Cesar. O modelo parece ter sido contrabandeado.

– Droga! Deixe eu ver a vítima.

Mônica acompanhava à distância a conversa e neste momento se aproximou. Quando Cesar abriu a mortalha, ela já estava ao lado dele:

– Oh, meu Deus! – ela disse e levando a mão à boca.

– Policial, quero todas as informações possíveis sobre a vítima. Hoje mesmo vou me reunir com o delegado para falar sobre essas três mortes.

Cesar foi até Ivan e Mônica o seguiu.

– Mais uma, Ivan! Mais uma! Onde vamos parar?

– Agora você acredita na minha tese de ontem?

– Ainda não. Vou conversar com o delegado logo mais e vamos elaborar uma linha de investigação.

– E hoje à tarde eu quero vocês dois no “Tarde Viva” conversando comigo sobre esses crimes todos do fim de semana.

– Mônica, você não muda… Estava há pouco horrorizada com o crime e já voltou a pensar nos números de audiência. – disse Cesar em tom de repreensão.

– Ter pena de uma vítima nunca rendeu audiência, mas falar sobre a investigação… Ah, isso sempre rende bons números.

– Eu jurei que você tinha ficado assustada quando viu o corpo. – rebateu Cesar.

– E fiquei. Mas, o instinto jornalístico sempre fala mais alto.

Cesar entrou no carro e Ivan disse:

– Quer que eu chame alguém da reportagem para vir para cá?

– Faça o que quiser. – Cesar disse isso e acelerou o carro.

Ivan foi até perto de Mônica que estava conversando ao telefone.

– Sim, venha! Estamos esperando aqui. Até daqui a pouco!

– Duas equipes estão vindo para cá: uma do jornalismo para entrar ao vivo e outra especialmente para o “Tarde Viva”. E eu vou para casa. Você comanda tudo aqui com a nossa equipe e nos vemos logo mais.

Mônica chamou um Uber enquanto Ivan tentava organizar mentalmente a produção da reportagem que aconteceria dentro em breve.

– Mônica, eu… Eu não sei o que fazer.

– Você sabe sim. Sempre soube e sempre saberá. Ah, esqueci de dizer que só está vindo um câmera para cá. O vídeo é seu pois você acaba de ser promovido a repórter do meu programa. Quem sabe aparecendo na frente das câmeras você deixa de querer me trair novamente. E essa será a sua última chance, Ivan!

Mônica disse isso e viu se aproximar o carro que tinha chamado. Ele foi em direção ao veículo sem olhar para trás. Trinta minutos depois as equipes chegaram. Ivan fez toda a reportagem sobre o caso e, quando terminou, foi para casa. Dormiu algumas horas, mas acordou várias vezes ao longo da madrugada e às oito em ponto ele ligou o computador na redação do programa. Mônica já estava lá e foi até ele:

– Bom dia, senhor repórter. Ótimo trabalho! Eu sempre soube que você sabe o que fazer em qualquer situação.

– Minha cara estava horrível. Minha roupa amassada…

– Tudo pela notícia, Ivan! Esse é o lema da nossa profissão. Esqueceu?

– Esqueci foi a minha dignidade quando assinei a matrícula da faculdade.

– Sem piadinhas. Ligue para o Cesar e convença-o a conversar comigo hoje à tarde nem que seja por telefone. Quero ele e o delegado.

– Vou fazer melhor. Vou até lá!

– Esse é o Ivan que eu conheço. – disse Mônica.

Ivan pegou um carro da emissora e foi em direção ao prédio onde Cesar trabalhava. Enquanto isso, o policial estava reunido com a Delegada Marina em uma reunião urgente sobre as três mulheres assassinadas.

– Primeiro foi Tamara Leão, famosa cantora e comoção nacional. Uma morte que entristeceu o carnaval de todos. Depois, Paula Ferreira, vendedora de uma loja de móveis. Por último, Denise Siqueira, fotógrafa.

– Podemos dizer que se trata de um serial killer, delegada? – perguntou Cesar.

– Não sem antes estabelecermos uma relação entre as assassinadas ou algo que caracterize um serial killer. E para te ajudar, o Policial Valentim será seu parceiro nessa investigação. Saia daqui agora, arrumem uma sala e preparem uma linha de investigação. Quanto mais tempo perdemos, mais mulheres podem ser vítimas desse maluco à solta.

Cesar saiu da sala da delegada Marina e ouviu um burburinho na recepção. Foi até lá e encontrou Ivan querendo entrar.

– Podem deixa-lo passar. É meu amigo.

Ivan entrou e foi até Cesar. O policial foi direto ao assunto:

– Eu não vou falar nada. Procure a Delegada Marina.

Ivan tentou de diversas formas convencer a delegada a falar ao vivo no programa “Tarde Viva”, mas sem sucesso. Por fim, quando já estava quase desistindo, ela disse:

– Eu não levo jeito para isso. O Cesar pode nos representar? Porém, tem que ser com horário e tempo no ar cronometrados e ele não pode arredar o pé daqui.

– Como a senhora quiser, Delegada!

Ivan saiu radiante da sala de Marina e organizou uma entrevista ao vivo do lado de fora da Delegacia e próximo a uma praça. Ligou para Mônica na sequência e contou a novidade.

– Da próxima vez você tenta no local do crime. Esse é seu desafio! – disse Mônica.

A entrevista foi ao ar e fez a audiência do programa bater novo recorde:

– Quatro pontos, Ivan! Quando batermos cinco eu juro que perdoo a sua entrada ao vivo na madrugada. – disse Mônica quando viu o repórter chegando na redação após o fim do programa.

Por volta de oito horas da noite, Ivan saiu da redação foi para casa. Novamente pegou um Uber e foi ouvindo as notícias sobre alagamentos na cidade de São Paulo.

– São as famosas águas de março… – disse o motorista tentando puxar assunto.

Ivan sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Logo depois virou a cabeça e ficou olhando o movimento dos carros do lado de fora.

Quando chegou em casa, abriu a geladeira e comeu o que encontrou pela frente. Abriu o Tinder em busca de alguém, mas, além de não ter nenhuma mensagem na caixa de entrada, percebeu que dois contatos tinham desaparecido da lista.

– Acho que perdi dois matches

Ligou a TV, começou a ver uma série na Netflix e dormiu poucos minutos depois.

Enquanto isso, Mônica chegou em casa e não conseguia tirar da cabeça a ida de Cesar até a casa de Ivan. Fez um lanche com um resto de salpicão que tinha na geladeira, tomou um banho, pegou o carro e saiu.

Ficou dando voltas pela cidade até que respirou fundo e pensou:

– Vou passar essa história a limpo.

Dirigiu até a casa de Cesar e viu o carro dele na garagem. Ficou do lado de fora tomando coragem e às onze e cinquenta e cinco tocou a campainha. Silêncio. Insistiu por longos quatro minutos até que o policial apareceu com cara sonolenta e trajando apenas uma samba canção.

– O que você quer aqui?

– Precisamos conversar, Policial! – disse Mônica em tom de ironia.

Enquanto isso, dentro da casa de Cesar o telefone do policial começava a tocar.

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