Águas de Março – Capítulo 05

– Mônica, não sei o que tenho a conversar com você.

– Sabe sim, Policial! Sempre temos muito a conversar. Aliás, eu diria que um jornalista e um policial sempre tem muito assunto. – insistiu ela ainda em tom irônico.

– Mônica, eu não quero conversar com você. Vá embora!

– Eu só quero saber uma coisa: porque você privilegia tanto o Ivan?

– E você ainda pergunta? Tem amnésia ou o quê?

– Você não respondeu a minha pergunta…

– Sai daqui… – Cesar entrou e deixou Mônica sozinha na calçada.

Ela foi até o carro, entrou e disse para si mesma:

– Esse imbecil do Cesar ainda vai me contar o porquê de privilegiar o Ivan.

Minutos depois, ela viu Cesar sair com o carro em alta velocidade e foi atrás. Dirigiu por cerca de 20 minutos e então parou. Um pouco mais à frente, Cesar desceu do carro e foi em direção a uma pilha de madeiras que foi indicada por um policial. O policial olhou e viu uma mulher morta e com o crânio amassado por um toco de madeira que estava ao lado do corpo.

– Não chamem a imprensa. Chega de alarde! Vamos sentar e encontrar quem está fazendo isso.

– Ora, ora! Você quer a gente longe da notícia? – disse Mônica se aproximando calmamente do local do crime.

– O que você está fazendo aqui, Mônica?

– Ué… Tenho total liberdade de ir e vir. E não tem nenhuma faixa delimitando que esta é uma zona de investigação policial.

Cesar bufou e foi para o carro. Ligou para Valentim e contou sobre a nova morte.

– Precisamos verificar se existe uma relação entre as vítimas, Cesar! – disse Valentim.

– Vamos trabalhar nisso amanhã cedo, Valentim.

– Temos muito a fazer, Cesar!

– Eu estou desesperado, Valentim! Já são 4 casos! Todas as noites aparece uma mulher morta em algum lugar da cidade. Não sei mais o que fazer!

– Cesar, vá para casa, tome um banho e durma. Amanhã conversamos. – disse Valentim.

– Eu vou para casa sim. Vou tomar um porre e dormir.

Cesar desligou o celular, entrou no carro e foi embora. Mônica continuava no local e, quando foi impedida por um policial que estava no local de fazer imagens, ela disse:

– Eu tenho liberdade de imprensa.

– Olha aqui, dona! O responsável pela investigação é o Cesar e ele pediu que a imprensa ficasse longe desse caso.

– Eu sou a imprensa aqui neste momento e posso te processar por impedir de fazer o meu trabalho.

– Dona, não dificulte as coisas.

– Eu vou chamar alguém da redação. – ameaçou Mônica.

– Até chegar alguém, já tiramos o corpo. Melhor a senhora ir para casa. Aliás, minha mulher adora o seu programa. Passa à tarde, né?

Mônica então percebeu que não iria conseguir nada ali e foi em direção ao carro. Ignorou a última fala do policial e saiu em alta velocidade. Chegou em casa quase uma hora depois, entrou no elevador bastante irritada e quando entrou no apartamento, ligou para Ivan. O jornalista não atendeu e ela mandou uma mensagem de áudio dizendo:

– Amanhã quero você às oito da manhã na minha mesa. E nem um minuto a mais!

Mônica sentou no sofá e ficou olhando na tela da TV e resmungou:

– Isso não vai ficar assim!

O dia amanheceu e Ivan acordou. Olhou no celular e ouviu a mensagem de Mônica. Saiu correndo de casa e às oito em ponto estava na mesa de Mônica.

– Eu vou ser direta: o que você tem com o Cesar?

– Eu e Cesar somos amigos da época da faculdade.

– E porque ele te passa tudo quase sempre em primeira mão?

– Por causa disso, Mônica. Somos amigos da época da faculdade.

– Isso não me parece o suficiente. Mas, já me dá uma pista…

– Você acha que eu estou mentindo para você, Mônica?

– Não. Dessa vez eu tenho certeza que você está falando a verdade. Agora, precisamos de mais informações sobre uma jovem que morreu nesta madrugada e teve o rosto esmagado por um toco de madeira.

– Vou ligar para o Cesar.

Enquanto isso, na delegacia, Valentim disse para Cesar:

– Quatro mulheres e pelo menos uma coisa em comum entre elas, Cesar!

– Descobriu alguma coisa? – perguntou.

– Sim. Elas não morreram no local onde foram encontradas. Os exames preliminares indicam que elas foram mortas e depois desovadas. – afirmou Valentim.

– Ou seja, ele mata e depois leva para o lugar onde são encontradas e… Alguma novidade sobre a causa da morte? – questionou Cesar.

– A primeira foi morta a pauladas. A segunda a pedradas. A terceira a levou três tiros no fim de um beco e tudo indica que ela foi perseguida ou levada até lá.

– Câmeras de segurança?

– Nenhuma! – disse Valentim balançando a cabeça negativamente.

– Testemunhas?

– Não. Pelo menos até o momento.

– Bem, não temos muita coisa, mas pelo menos já temos algo.

– Isso parece ser um serial killer. Precisamos descobrir qual a lógica que ele usa para matar.

– Precisamos descobrir qual a lógica que ele usa para desovar os corpos.

– Eu duvido que ele tenha. Algo me diz que ele escolhe os locais de forma aleatória. Esse cara deve ser muito inteligente. Hoje em dia não é muito fácil matar alguém e desovar o corpo sem nenhuma câmera de segurança flagrar. Mas, certamente ele sabe como fazer isso sem chamar a atenção.

– Aliás, Valentim! Pedrada e paulada… Fala sério! Em que ano nós estamos?

– O que mais me intriga, Cesar, é o fato dele sempre destruir o rosto da vítima. Aí deve ter alguma coisa.

– Ele levou algum pertence? Violentou sexualmente?

– Nada. Ele só matou em algum lugar e desovou.

– Ah, Meu Deus! E… Tem alguma coisa no horário das mortes?

– Não. Uma foi no meio da tarde, outra de manhã, outra pouco antes de ser encontrada… Nada que ajude muito.

O celular de Cesar começou a tocar. Ele olhou na tela e viu o nome de Ivan e atendeu:

– Ivan, meu caro! Não posso falar com você. Mas, te adianto que não tenho novidades.

– Cesar, é sobre a mulher encontrada morta nesta madrugada.

– Sem novidades. Se quiser, pode vir aqui fazer matéria. Mas, eu não vou falar nada.

– Você acredita que seja um serial killer? – perguntou Ivan.

– É você quem está dizendo, Ivan. Ainda não temos nada que relacione as mortes.

Ivan desligou o telefone e Cesar continuou a falar com Valentim.

– É assim. E vai ser ainda pior.

Mais tarde, Mônica encerrou o programa e foi direto para o camarim. Trocou de roupa e foi para casa. Passou pela mesa de Ivan e encontrou-o rascunhando um texto.

– É para o programa de sexta-feira. Estou tentando umas coisas para um resumo de todas essas mortes que aconteceram. – ele disse.

– Vá embora para casa. Já são quase seis da tarde e você trabalhou direto.

– Você não está bem, Mônica. O que aconteceu?

– Só preciso ir para casa, tomar um banho, tomar um porre na sequência e então dormir. E você deveria fazer o mesmo.

– Não. Hoje eu vou começar a fazer academia. Vou sair daqui a pouco e vou para lá.

Mônica deu um sorriso e foi embora. Entrou no carro, dirigiu até o apartamento e, quando chegou lá, tirou a roupa, colocou uma música, encheu uma taça com vinho e bebeu tudo de uma só vez. Ela então encheu outra taça e sentiu a bebida começar a fazer efeito. Então, ela começou a dançar nua pela sala enquanto segurava a taça já pela metade.

Começou a rir. Ria muito e rebolava. Até que caiu no sofá ainda rindo muito e então o choro aos poucos começou a dar lugar ao pranto. Ela então levantou, foi até a garrafa de vinho e bebeu todo o líquido de uma só vez. Depois, foi até um enorme espelho no meio da sala, se olhou e começou a falar baixinho:

– O que eu tenho? Nada! Aquele desgraçado do Cesar nunca disse nada e nunca me assumiu!

Ela então pegou a garrafa e arremessou em um canto da sala. Depois, foi para o quarto, deitou olhando para o teto e assim ficou até dormir. Porém, quando o relógio marcava 23 horas e 58 minutos ela acordou com o interfone tocando e foi atender:

– Isso são horas? Vou ter uma conversa séria com o zelador amanhã…

– Senhora Mônica, desculpe! O senhor Cesar está aqui embaixo e quer subir para falar com a senhora. Disse que é urgente.

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