Águas de Março – Capítulo 06

– Eu não quero que ele suba. Agradeça a gentileza e diga-lhe que toda e qualquer urgência entre um jornalista e um policial é tratada em uma entrevista.

Mônica disse isso e desligou o interfone. Depois foi tomar um e logo depois dormiu.

Cesar não recebeu a notícia muito bem, tentou insistir e, quando viu que não conseguiria nada, entrou no carro e foi para casa. Desesperado, abriu uma garrafa de vodca e começou a beber sem nem despejar o líquido em um copo. Depois, sentou no sofá, virou mais alguns goles e ficou olhando para o nada até a bebida fazer efeito e ele então dormir.

No dia seguinte, Cesar chegou quase por volta de meio dia no trabalho e encontrou Valentim logo que estacionou o carro.

– Cesar, tentei falar com você ontem à noite. O que aconteceu?

– Puts, Valentim! Meu celular acabou a bateria e só me dei conta agora. Aliás, não faz muito tempo que acordei também. Tive uma noite difícil, tomei um porre e apaguei. Aconteceu alguma coisa?

– Adivinha… O de sempre…

– Como assim?

– Jenifer da Costa Souza. Foi encontrada em algum ponto da estrada logo depois da saída de SP para o interior.

– Como ela foi morta?

– Enterrada viva.

Cesar olhou assustado para Valentim.

– Como foi descoberta?

– Denúncia anônima e a ligação parece ter sido feita a partir do telefone da própria vítima. O mais curioso é que ela estava abraçada ao aparelho embaixo da terra. Pedi uma cópia da ligação e estou esperando. Acredito que temos uma pista aqui.

– Na certa ele a fez desmaiar ou deu algum calmante e depois fez todo o resto.

– É a minha hipótese também.

– Valentim! Que pesadelo é esse, cara? Seis dias de março e cinco mulheres mortas. Temos pelo menos certeza que essa última talvez faça parte do cardápio do criminoso que talvez tenha matado as demais?

– Absoluta. O rosto dela estava todo cortado. Tenho umas fotos no meu celular. Aliás, o rosto dela me fez lembrar o de uma amiga que tinha depressão e vivia cortando partes do corpo sempre que ficava sozinha.

Cesar olhou as fotos e disse:

– Precisamos saber o horário da morte de todas as vítimas, onde elas moravam…

– Já pedi essa informação. – disse Valentim.

– Precisamos saber o que essas mulheres faziam da vida.

– Estamos checando! Devo receber o relatório ainda hoje.

– Precisamos chamar os familiares para interrogarmos…

– Já estamos providenciando isso.

– Precisamos comprar uma máquina nova de café. Só saio dessa delegacia quando descobrir quem é esse assassino.

– Fui além. Comprei colchonetes.

Cesar entrou rindo na delegacia e Valentim foi atrás. Entraram na sala destinada à investigação deste caso e então Valentim disse:

– Este é um dos casos mais intrigantes que eu já vi acontecer.

– Precisamos de um quadro, Valentim! Vamos fazer um quadro com o máximo de informações de todas as vítimas!

– Vou providenciar, Cesar.

Valentim saiu da sala e Cesar colocou o celular para carregar. Ligou o aparelho na sequência e começou a pensar sobre o caso enquanto analisava algumas fotos. Pouco depois recebeu uma ligação, olhou na tela e viu o nome de Mônica. Pensou em atender, mas por fim desligou e voltou ao trabalho.

Do outro lado, Mônica desligou o telefone e chamou Ivan.

– Precisamos falar com Cesar. Preciso de novidades sobre esses assassinatos todos.

– Cesar não atende ao telefone desde cedo. Estou tentando falar com ele desde quando cheguei.

– Insista nisso. Eu vou para o camarim. Preciso meditar.

Ivan percebeu que ela não estava bem e não fez nenhum comentário. Pegou o celular  e mandou uma mensagem para o amigo:

“Tem alguma novidade sobre os casos?”

Pouco depois ele recebeu uma resposta:

“Estamos investigando!”

Ivan mandou outra mensagem:

“Preciso de novidades. Consegue me ajudar?”

Cesar não respondeu mais. Ivan começou então a montar um dossiê com o que sabia até então sobre todas as vítimas. Ligou para um colega de um programa policial da TV Jaraguá que estava cobrindo caso e marcaram um café no dia seguinte para falarem sobre o caso. Depois, Ivan foi embora e, quando chegou em casa, encontrou o carro de Cesar parado no portão.

– Cesar, o que você está fazendo aqui? Vai me dizer que…

– Não! Ninguém morreu. E espero que não morra. São 5 mulheres mortas e eu já não sei o que fazer. Aliás… Não vai me convidar para entrar?

– Ah, claro! Vamos entrar.

Os dois entraram na casa e Cesar começou a falar:

– Ivan, desculpe não te responder. Estava muito ocupado. Analisamos todos os casos hoje e temos algumas conclusões.

– É um serial killer mesmo?

– Uma das hipóteses diz que sim. Ainda é cedo, mas talvez seja. Porém, não quero falar de trabalho! Vim para beber e comer pizza, como fazíamos quando estávamos estudando. Lembra?

Ivan colocou uma playlist para tocar e pediu pizza. Comeram, beberam, conversaram sobre tudo, deram risadas, relembraram antigos amores e se divertiram juntos como há tempos não faziam. A alegria só foi interrompida quando Cesar recebeu uma ligação de Valentim:

– Cesar, desculpe ligar tão tarde. Recebi agora uma ligação e talvez tenhamos uma pista sobre o assassino. Sabemos que a denúncia foi anônima e feita do celular da própria vítima. Ainda não tenho o áudio, mas sei que a voz da ligação é de uma mulher.

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