Águas de Março – Capítulo 07

– Uma mulher? Quê?

– Isso mesmo. Amanhã consigo acesso ao arquivo de áudio e poderemos ter uma noção melhor de tudo. Inclusive vou ouvir, transcrever e anexar à investigação.

– Valentim, essa é uma informação muito importante. Talvez seja a nossa primeira pista sobre o assassino. Ou melhor, sobre a assassina.

– Cesar, acho melhor sermos cautelosos. Duvido que ele seja tão burro a ponto de entregar o jogo assim tão facilmente.

– Você está certo, cara!

– Amanhã nos falamos. Boa noite!

– Boa noite, Valentim!

– Pelo que ouvi, temos uma novidade! – disse Ivan se aproximando do amigo.

– Sim, temos. Mas, se te contar, tenho que te matar.

– Chega de morte. Já tivemos muita gente morrendo até agora.

– Eu vou te contar. Mas você precisa prometer para mim que não vai contar para ninguém enquanto eu não disser que você pode divulgar a informação.

Ivan balançou a cabeça positivamente e Cesar começou a andar pela sala de um lado para o outro enquanto falava:

– Mais uma jovem morreu. Foi enterrada viva e encontrada abraçada ao telefone com o rosto todo cortado.

– Pelo visto temos alguém que adora destruir rostos alheios.

– Esse caso foi pior: ele usou o telefone da própria vítima para fazer uma denúncia anônima. Ou melhor, ela usou o telefone da própria vítima.

– Peraí… Você está querendo me dizer que temos uma assassina?

– Até aqui, sim. Pelo menos é a pista que temos. – disse Cesar.

– Muito estranho. Não me parece uma pista segura.

– Não vamos nos agarrar a ela, mas iremos segui-la.

– Vocês precisam levantar os perfis das vítimas. Saber o que faziam, se namoravam, com quem, com o que trabalhavam… – sugeriu Ivan.

– Estamos fazendo isso.

– Alguma novidade nesse sentido?

– Nenhuma! Na verdade, queremos uma investigação sigilosa para evitar que o assassino se assuste e… sei lá do que ele é capaz.

– Bem, Cesar! Vamos continuar a beber pois faz tempo que não fazemos isso.

Beberam e conversaram e Cesar, embriagado, acabou dormindo na casa de Ivan. Acordou no outro dia bem cedo e quando chegou na delegacia, encontrou Valentim desesperado ao telefone.

– O que aconteceu, Valentim?

– O que aconteceu, Cesar? – disse Valentim irritado – Você esqueceu que tem um assassino à solta por aí e que todo dia encontramos uma vítima? Pois bem, temos mais uma!

– Onde?

– Entra no carro e dirige.

Cesar foi dirigindo guiado por Valentim e chegaram até uma região da Zona Sul de São Paulo. A imprensa já estava no local e Cesar avistou de longe o amigo. Fez que não o viu e se aproximou de uma mortalha que foi prontamente aberta por Valentim.

– Nossa! Fecha isso… – disse Cesar.

A vítima, como todas as outras, teve o rosto desfigurado, dessa vez por cacos de vidro.

– Os familiares estão indo para o IML fazer o reconhecimento do corpo. – contou Valentim.

– Mais uma família enlutada. Mais uma morte. A sexta morte.

Cesar voltou para a delegacia sem falar nada. Valentim também estava quieto no banco do passageiro e perdera toda a motivação apresentada até então. Trabalharam em silêncio avaliando os casos e fazendo anotações e só conseguiram trocar alguma palavra muito tempo depois do almoço, já no meio da tarde.

– Valentim, é… Alguma novidade sobre o áudio?

– Desculpe, Cesar. Estava sem cabeça para ouvir e transcrever, mas estou com o arquivo.

– Eu não estou legal. Vou para casa. Preciso de um pouco de descanso. Estou me sentindo impotente diante dessa história. – confidenciou Cesar.

O policial foi para casa e Valentim continuou o trabalho. Quando Cesar chegou em casa, tomou um banho e foi correr em um parque próximo à casa dele. Mais tarde, já anoitecendo, ele voltou para casa, jantou e deitou no sofá. Ficou olhando para o teto e então pegou o celular. Ligou para Eduarda, a menina com quem tinha saído dias atrás, e marcou de se encontrarem dentro de uma hora.

Mais tarde, quando se encontraram na sala da casa dele, Cesar não teve muita cerimônia quando a viu e disse:

– Eu não aguentava mais. Queria muito te ver.

Eduarda e Cesar começaram a se beijar e tiraram a roupa ali mesmo e no sofá ficaram até poucos minutos antes de meia noite, quando o celular de Cesar tocou. Era Valentim:

– Cesar, desculpe te ligar tão tarde assim. Eu… Eu consegui ouvir o áudio…

– Não se deixe abater, Valentim! – aconselhou Cesar – Vá embora, descanse, faça qualquer coisa que você goste. Eu estou fazendo… – disse Cesar dando um beliscão de leve em Eduarda.

– Cesar, eu não posso descansar agora. Eu preciso te mostrar esse áudio, cara. Eu preciso que você ouça isso o quanto antes!

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