Águas de Março – Capítulo 08

– Valentim, eu… – Cesar levantou do sofá e foi conversar com o parceiro de trabalho longe de Eduarda – Cara, eu estou com uma garota em casa. Vai se divertir, cara!

– Cesar, quem ligou passando indicação do local foi a própria vítima! Ou seja, ela morreu pouco depois da ligação. O assassino fez ela ligar e depois a enterrou viva. Eu ouvi o áudio, cara. Ela…

– Chega, Valentim! – interrompeu Cesar – Você me convenceu. Estou indo para aí. Me espera.

Cesar desligou o telefone e foi até a sala falar com Eduarda:

– Eu… É… Eu preciso ir para o trabalho.

– Sério mesmo, Cesar? Você disse que queria muito me ver e agora faz isso? Vamos fazer o seguinte: me esquece, ok?

Eduarda vestiu a roupa e saiu da casa batendo a porta. Cesar ficou observando tudo e, quando ela saiu, passou a mão na cabeça e chutou a primeira coisa que encontrou pela frente. Ele vestiu a roupa e foi para a delegacia na sequência. Quando chegou lá, encontrou Valentim na sala onde trabalhavam no caso.

– Ainda bem que você chegou, Cesar! Venha aqui no meu computador. Ouça isso!

– Boa noite! Eu gostaria de fazer uma denúncia anônima. Uma jovem foi morta e enterrada aqui perto de onde moro e vocês precisam vir até aqui… Eu… Eu e minha família estamos com medo. Por favor! Me ajude! Venham logo…

A ligação continuava com a voz passando o endereço e logo depois o telefone era desligado.

– Valentim, ela pede ajuda.

– Sim. Ela sabia que iria morrer.

– Como você conseguiu identificar?

– Fui até o velório, me identifiquei e consegui que um familiar identificasse a voz dela. Amanhã eles virão aqui fazer o reconhecimento oficial. Achei melhor termos um documento que atestasse a veracidade do áudio em nosso poder.

– Você é muito prudente, cara! Gosto disso em você! Aliás, você está aqui o dia todo! Vá para casa! Descanse e deixe que eu trabalhe um pouco em cima disso.

– Eu gosto disso. E saber que descobrimos alguma coisa, mesmo que não seja uma pista, me anima bastante, ainda mais considerando tudo que passamos ontem.

– A gente vai encontrar esse cara, Valentim!

– Eu não duvido disso, Cesar! Eu só não queria que mais alguém morresse e não sabemos se ele vai continuar ou não. Na verdade, eu acho que ele vai continuar até a gente pará-lo. E temos que ir atrás dele.

Neste momento, um policial entrou na sala esbaforido:

– Valentim, Cesar! Temos mais uma vítima!

– Meu Deus! Como assim? – disse Cesar.

– Ela foi encontrada agora perto da Catedral da Sé. Com o peito aberto e sem o coração.

Valentim deu um soco na mesa.

– Vamos agora para lá! – disse Cesar.

Eles pegaram um carro da delegacia e cerca de 20 minutos depois estavam no local do crime. Quando chegaram, Ivan já estava gravando com uma equipe da TV Jaraguá.

– Como você chegou aqui? – estranhou Cesar.

– A ronda da madrugada conseguiu a informação com a Polícia Militar. Ligaram para Mônica e ela me mandou até aqui para gravar pro “Tarde Viva”. Aliás, aquela foi a mulher que encontrou o corpo e foi até um carro da polícia que passava aqui perto para pedir ajuda. Conversei com ela e parece usuária de droga, pois disse que viu a alma sair do buraco onde estava o coração.

– É… Pelo menos é bastante criativa! – disse Valentim.

– Vou falar com ela! – disse Cesar.

Cesar se afastou e, quando voltou, encontrou Valentim sendo entrevistado por Ivan. Quando a gravação foi encerrada, Cesar disse:

– Vai ficar famoso, hein?

– Vamos bombar em audiência logo mais. – comemorou Ivan – Sou o único a ter uma sonora com a mulher que viu o corpo pela primeira vez e acionou a polícia.

– Essa mulher vai virar meme quando você coloca-la no ar dizendo que viu a alma sair do buraco onde estava o coração. – disse Valentim.

– Bem, pessoal. Eu preciso ir. Daqui a pouco preciso estar na redação para começar a editar essa reportagem. – Ivan se afastou da dupla.

Na sequência, Cesar olhou para Valentim e disse:

– Valentim, vá para casa. Deixe o resto comigo.

Mesmo contra a vontade, Valentim pediu um carro pelo Uber e foi para casa. Cesar acompanhou mais um pouco do caso e depois foi embora para a delegacia. Lá, começou a trabalhar nas avaliações dos casos e foi para casa quando o sol estava nascendo.

Cesar só voltou para a delegacia no meio da tarde. Chegou de camiseta por causa do forte calor e, ao entrar na sala, encontrou Valentim:

– Boa tarde, cara! Tá um sol bem convidativo lá fora.

De repente, um burburinho começou a surgir e Valentim começou a ouvir o nome dele. Foi até um grupo que estava em frente a uma TV e viu que ele estava na tela, na entrevista concedida horas mais cedo para Ivan. Logo depois voltou para a sala e encontrou Cesar:

– Parabéns, cara! A imprensa, quando bem usada, só traz benefícios. Quando mal usada, te leva ao inferno em poucos minutos e só com muita sorte você sai de lá.

– Não ligo para isso, Cesar.

– Faz bem, Valentim!

Os dois ficaram concentrados elencando informações dali até pouco antes de meia noite, quando Valentim disse:

– Tenho algumas informações sobre as vítimas e montei uma tabela com os dados. Não posso dizer que descobri uma pista, mas percebi uma coisa interessante que talvez possa nos ajudar.

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