Águas de Março – Capítulo 10

– Como assim, Ivan? O que está acontecendo?

– Venha até minha casa agora.

Cesar desligou o telefone, se levantou e saiu logo em seguida. Valentim ficou observando e depois voltou ao trabalho. O policial pegou o carro no estacionamento e saiu em alta velocidade. Cerca de 30 minutos depois, ele chegava na casa de Ivan e encontrou o amigo na rua.

– Vem comigo, Cesar! Ah, o pessoal da TV está vindo para cá. E eu exijo uma entrevista sua.

Os dois caminharam até o local onde um grupo de pessoas ainda estava aglomerado e Cesar começou a passar pelo meio de todos.

– Polícia! Polícia! Se afastem todos!

Quando chegou no local onde estava o motivo da confusão, abaixou a cabeça e deu um irritado soco no ar.

– Droga! Droga! Eu não acredito!

O corpo de uma mulher jazia no chão e, ao seu lado, um sol feito de madeira tinha um coração humano afixado com uma pequena lança de metal.

– O que ele está fazendo, Cesar? Por que tanta crueldade?

– Eu não sei, Ivan. Estamos investigando e não chegamos a lugar algum. Não temos pistas, não temos câmeras de segurança, não temos nada.

– Eu estou tentando entender a lógica que ele usa, mas não chego a lugar algum. – confessou o jornalista.

– A única coisa que sabemos é que não é uma pessoa sã. Eu e Valentim estamos tentando, nos agarramos a cada indício e só conseguimos ir do nada ao lugar nenhum. Só descobrimos uma coisa, mas não é nada que seja muito relevante.

– O quê? – perguntou Ivan bastante curioso.

– Todas as vítimas tem alguma ligação com atividades artísticas. Não sabemos exatamente o que o atrai, mas todas são modelos, atrizes, cantoras… Sem exceção. Só não passe isso para ninguém, ainda é sigilo.

– Hum… Isso é muito curioso…

– E mais – continuou Cesar – na sexta-feira ele não atacou.

– E por qual motivo?

– Suspeitamos que ele esteja descansando um pouco.

Ivan riu e logo avistou a equipe da TV Jaraguá chegando.

– Minha equipe chegou, Cesar! Vou até lá e não se esqueça da minha entrevista.

– Eu não prometi nada…

– Eu te chamei antes aqui. Poderia ter chamado seus colegas da militar e entrevistas quem viesse. Não é você quem luta há tanto tempo por uma chance de melhorar na carreira? Chegou a vez das coisas começarem a mudar…

Ivan sabia como convencer Cesar. O policial tinha uma vontade enorme de mudar de status na carreira e quase nunca recusava uma possibilidade de se ver em evidência.

– Ok! – disse Cesar sorrindo – Mas, só direi aquilo que não atrapalhar as investigações. Tudo bem?

– Como você preferir, policial! – disse o jornalista.

Ivan foi até o carro e cumprimentou a todos. Pegou o microfone, se ajeitou no espelho retrovisor da porta e conversou alguma coisa com o camera man enquanto testava o áudio do equipamento.

– Vamos lá. Estou pronto.

Mais tarde, ele e Mônica estavam na redação em plena tarde de domingo vendo material.

– Ótimo trabalho, Ivan! Excelente trabalho, aliás! Tá perdoado até por ter me traído e entrando ao vivo no jornalismo.

– Você ainda não esqueceu isso, Mônica?

– Eu fui um elefante em outra vida, Ivan. Lembro de tudo! – ela brincou.

– Ou você toma o Ômega 3 da Top Therm! – brincou Ivan simulando um dos merchandisings do programa.

Mônica começou a rir e disse logo em seguida:

– Pois é isso mesmo! Amanhã você entra no estúdio comigo para falar sobre as investigações. Descubra alguma coisa e prepare essa pauta. Já são três da tarde de domingo. O programa entra às três da tarde de segunda. Você tem 24 horas! Boa sorte!

Ivan ficou assustado com a novidade e disse:

– Cesar não fala mais nada sobre os crimes.

– Não existe apenas o Cesar naquela delegacia. Fale com outras pessoas. Duvido que hoje você consiga alguma coisa, mas tenho certeza que amanhã de manhã dá para conseguir muita coisa.

Mônica disse isso, levantou e foi embora. Quando estava na porta da redação, virou para trás e disse:

– Confio em você!

Ela se virou logo em seguida e sumiu no corredor.

Ivan não sabia por onde começar e então foi para casa continuar as investigações que estava fazendo em paralelo. De posse dos nomes das vítimas, ele começou a pesquisar em sites de buscas e redes sociais sobre a relação de todas elas com atividades artísticas, conforme Cesar tinha falado.

Por volta de 9 horas da noite, a chuva caía torrencialmente do lado de fora quando ele decidiu pausar um pouco e observar o céu pela janela do quarto. Os raios rasgavam o céu e os trovões rompiam o silêncio da casa.

Ele foi para o quarto, deitou e cochilou ouvindo o barulho da chuva na telha. Só acordou pouco antes de meia noite com o celular tocando insistentemente. Ele atendeu e uma voz feminina sintetizada do outro lado da linha dizia:

– Esta é uma mensagem para Ivan!

Ele desligou a ligação reclamando:

– Droga. Telemarketing a essa hora da noite no domingo?

O telefone tocou novamente. Ele atendeu e a mesma voz feminina sintetizada atendeu:

– Esta é uma mensagem para Ivan!

Ivan desligou novamente o telefone e mais uma vez o telefone tocou. Ele olhou na tela buscando identificar o número que estava ligando e disse:

– Zero, zero, zero, zero? Não vou atender.

Ivan deixou o aparelho de lado até que ele parou de tocar. Menos de dez segundos depois, o telefone tocou novamente. Na tela o mesmo número da última ligação e Ivan decidiu ouvir a ligação até o final:

– Esta é uma mensagem para Ivan! Dirija-se sozinho até o endereço informado ao final desta gravação. E não esqueça: vá sozinho!

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