Águas de Março – Capítulo 11

Ivan anotou o endereço e desligou a ligação. Abriu o GPS e viu que o local indicado era um cemitério. Assustado, não sabia se ligava para alguém ou se seguia a orientação da ligação. Chovia muito naquele início de madrugada na cidade de São Paulo e ele tinha receio de sair e se complicar no trânsito. Foi até o banheiro, jogou água no rosto e por fim decidiu ir.

Chamou um carro pelo Uber e, para evitar problemas, seguiu com o veículo apenas até 1 quilômetro antes do local indicado. Ele desceu do carro, abriu o guarda-chuva, agradeceu ao motorista e seguiu andando. Porém, no meio do caminho, foi surpreendido por uma rua alagada e tentou contornar dando a volta no quarteirão.

Após alguns passos, novamente ele se deparou com o alagamento e decidiu enfrentar. Andou no meio da água por alguns metros e decidiu voltar, pois o local indicado era muito escuro e ele não conhecia direito a região onde estava. No meio do caminho ele tropeçou e caiu no meio do alagamento. Rapidamente se levantou e seguiu adiante.

Alguns metros a mais de caminhada e ele pegou o celular e chamou novamente outro carro para voltar para casa. No dia seguinte, acordou por volta de oito da manhã e a cidade estava um caos após 12 horas de chuvas intensas. Ele chegou na redação e foi até a mesa de Mônica:

– Mônica, ontem eu recebi uma ligação muito estranha.

– Como assim?

Ele então contou tudo o que tinha acontecido e Mônica disse:

– Pegue um carro da TV, um cinegrafista e vá agora neste endereço.

Ivan seguiu a orientação e no meio do caminho ligou para Cesar:

– Oi, Cesar! Eu estou indo para um cemitério. Preciso te encontrar lá pois algo muito estranho aconteceu comigo ontem.

– O Valentim vai. Estou em casa. Choveu muito na madrugada e estou com problemas.

– Não pode ser o Valentim. Passo aí na volta.

Ivan chegou no local indicado e quando ainda estava na rua, observou um grupo de pessoas próximas a um grande jazigo. Foi até lá e viu uma mulher morta, jogada em cima do túmulo. Seu rosto estava todo arranhado e, nas suas mãos, rosas vermelhas pareciam ainda mais vermelhas com os espinhos ensanguentados.

O jornalista ficou aterrorizado com a cena que viu e ligou para Cesar. Descreveu a cena para o policial que, irritado, disse:

– Droga! Filho de uma puta! Eu tô indo.

Ivan gravou uma reportagem sobre o encontro de mais um corpo e quando Cesar chegou, o policial disse:

– Dessa vez vai ser fácil. Tem algumas câmeras de segurança na vizinhança e vou pedir para ver as imagens.

Mais tarde, Cesar e Valentim já estavam de posse das imagens e não conseguiram identificar nada. Quando estavam na última câmera, perceberam um movimento brusco de alguém parecia ter tropeçado e caído. Eles então anotaram o horário em que isso tinha acontecido para avaliar se aparecia algo naquela faixa nas outras imagens.

Enquanto isso, Ivan estava na redação trabalhando na reportagem que iria ao ar naquela tarde e buscava respostas nas anotações que tinha sobre o caso até o momento.

O programa “Tarde Viva” foi ao ar e Mônica chamou Ivan para fazer uma participação ao vivo:

– Ivan, você recebeu uma ligação passando o endereço onde a mais nova vítima do nosso serial killer foi encontrado?

– Isso mesmo, Mônica! Recebi uma ligação ontem por volta de meia noite e uma voz sintetizada me passou o endereço e pediu que eu fosse sozinho.

– Você foi até lá? – perguntou Mônica.

– Sim, eu segui até bem próximo do local sabendo que era um cemitério, mas no meio do caminho fui impedido de chegar por causa da forte chuva que estava caindo. – respondeu Ivan.

– Forte chuva que durou 12 horas e fez diversos estragos na cidade de São Paulo. Vamos continuar nosso papo daqui a pouco, pois agora vamos até o departamento de jornalismo saber as últimas notícias sobre os estragos que a enchente causou aqui na Grande São Paulo. – aproveitou a apresentadora.

Quando terminou o programa, Mônica chegou em Ivan e disse:

– Vamos aproveitar e trabalhar isso ao longo da semana. Meu faro diz que vem mais coisas por aí. – disse Mônica.

– Mais mortes? Daqui a pouco encontrar um cadáver com o rosto deformado vai ser algo normal e só vamos noticiar quando não acontecer nenhum assassinato. Aliás, você percebeu que no dia 8 de março ninguém morreu?

– Temos um assassino que respeita o dia da mulher ou um serial killer cansado?

– Eu aposto em um serial killer cansado.

Os dois começaram a rir e depois se despediram. Ivan foi para casa e Mônica decidiu passar na casa de Cesar. Ela encontrou o policial no portão observando o movimento da rua e disse:

– Eu precisava mesmo falar com você e pedir desculpas por aquele dia. Acho que me excedi.

– Você sempre faz as coisas sem pensar e se arrepende. Vai embora daqui.

– Cesar, me deixe tentar explicar…

– O que você quer? Saber por qual motivo ajudo tanto o Ivan? Eu sei que ele é capaz de ir além da suas asas. Só ajudo ele como forma de tentar fazê-lo enxergar isso. Você construiu sua carreira em cima dos outros. E agora explora o Ivan…

Mônica, em um impulso, beijou o policial. Ele interrompeu o beijo e disse:

– Vai embora!

Fechou o portão e deixou Mônica no portão. A jornalista foi para casa na sequência, abriu uma garrafa de vinho e começou a beber direto na garrafa. Depois, deitou no sofá e dormiu dizendo para si mesma:

– Isso não vai ficar assim, Cesar!

Mais tarde, na casa de Ivan já por volta de meia noite, o jornalista se preparava para dormir quando ouviu a campainha tocar.

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