Águas de Março – Capítulo 12

Ivan foi até o portão e encontrou Valentim.

– Boa noite, Valentim! Tudo bem?

– Tudo bem, Ivan. Tá sozinho?

– Ah, sim… Estou. – respondeu Ivan estranhando a presença do policial e a pergunta – É… Está tudo bem, Valentim?

– Está sim. Eu… eu soube que você está fazendo umas avaliações sobre os crimes e queria conversar com você. Minha primeira pergunta é: por que você foi ao cemitério ontem à noite no meio daquela chuva e nas duas últimas mortes você chegou ao local onde as vítimas foram deixadas antes mesmo da polícia aparecer?

– Valentim, você está querendo dizer que eu sou suspeito de matar todas estas mulheres?

– Não estou afirmando nada. Só quero saber por que você foi ao cemitério ontem à noite no meio daquela chuva e por que nas duas últimas mortes você chegou ao local onde as vítimas foram deixadas antes mesmo da polícia aparecer. Aliás, foi você quem ligou para a polícia. Acho isso bastante suspeito.

– Valentim, eu não tenho tempo para isso, cara!

– Só responde o que eu perguntei, Ivan…

– Uma das meninas foi morta aqui perto de casa e a outra eu recebi uma ligação e fui até o endereço indicado.

– Hahahaha! E você acha que eu vou acreditar nisso? O assassino ataca e te liga para avisar?

Ivan contou o que aconteceu na madrugada anterior e Valentim encerrou a conversa dizendo:

– Acho melhor você me acompanhar. Tem algumas coisas mal explicadas demais nisso tudo.

– Eu não vou, Valentim!

– Ok! Se você não vier por bem, eu venho te buscar com um mandado.

Ivan respirou fundo e disse:

– O Cesar sabe disso?

– O Cesar não é dono dessa investigação, Ivan. Eu tenho autonomia para fazer o que eu quiser e vou fazer.

– Ok! – disse Ivan abaixando a cabeça e levantando na sequência – Eu acompanho você. Mas, amanhã eu garanto que irei falar sobre isso no programa.

– Pode ameaçar, Ivan. Eu não estou te prendendo. Eu estou apenas querendo que você esclareça algumas coisas e não quero ficar conversando no portão da sua casa.

Ivan entrou, trocou de roupa, trancou a casa e depois entrou no carro da polícia. Eles foram em silêncio o caminho todo e, quando chegaram, Cesar estava estacionando o carro. Valentim saiu do carro e encontrou Cesar indo na direção dele.

– Você está louco, cara?

– Cesar, ele estava próximo ao local da morte da última vítima. Eu vi na imagem da câmera quando ele caiu no meio da enchente. Só ele passou por aquele local. Eu avaliei as imagens diversas vezes, cara! E ela ainda veio com um papo de que “recebeu uma ligação do assassino com um endereço” e foi até lá. E mais: por que ele saiu de casa no meio daquela chuva toda?

– É verdade isso, Ivan?

– Sim.

– Ivan, temos muito o que conversar. Vamos entrar.

Após duas horas de interrogatório, Cesar disse:

– Ivan, você está dispensado. Mas, seu celular fica.

– Cara, ele é meu instrumento de trabalho. Tenho meus contatos e minha vida aí!

– Seu celular, fica. Vamos fazer uma perícia.

Indignado, Ivan saiu da delegacia e Cesar foi atrás.

– Cara, eu preciso do meu celular.

– Você devia ter pensado nisso antes de receber uma ligação de um número desconhecido e ir até o local indicado por uma voz sintetizada. Cara, vamos realizar a perícia, pedir relatórios de ligações e depois te devolvemos. Mas, por hora, só posso te dizer uma coisa: fique por perto ou a coisa vai piorar pro seu lado.

Ivan virou as costas e foi andando até um ponto de táxi. Mais tarde, já na redação, conversou com Mônica sobre o acontecido. Conseguiu um aparelho emprestado de um amigo e saiu para buscar. No caminho, recebeu uma ligação da produção:

– Vá para a delegacia. Mais uma jovem foi encontrada morta.

Chegando lá, encontrou Cesar fechando a mortalha.

– Pelo visto o celular não te faz falta.

– O que aconteceu?

– O de sempre. Morta ontem à noite e encontramos agora após ligações de populares. Ah, ela estava com o rosto desfigurado e tinha duas asas negras que foram costuradas diretamente nas costas.

– Qual o sentido dessas asas negras? – perguntou Ivan.

– Ele é um maluco, Ivan! Não espere sentido algum nas coisas que ele faz. – esbravejou Cesar.

– Tem que haver um sentido, Cesar! Ele segue uma linha lógica para matar todas essas mulheres e a gente só precisa descobrir. – insistiu Ivan.

– Eu quero descobrir quem é esse cara que já matou 11 mulheres e continua atacando. Não quero descobrir mais nada. Só isso! – gritou Cesar.

Ivan abaixou a cabeça e saiu andando. Cesar continuou o seu trabalho e Valentim se aproximou:

– Esse cara é estranho.

Cesar olhou para o parceiro e depois balançou a cabeça negativamente.

Mais tarde, Ivan se despediu de todos na redação e Mônica percebeu que ele não estava bem.

– O que aconteceu, Ivan? Você está fazendo um ótimo trabalho cobrindo esse caso.

– Discuti com o Cesar, a polícia está suspeitando de mim. Se eu cometer qualquer deslize, eu duvido que fique solto.

– Deixe o Cesar comigo. Ele não vai te fazer mal algum.

– O problema é o Valentim, Mônica.

– Nem Cesar, nem Valentim. Ninguém vai te fazer mal. – disse Mônica.

Ivan foi para casa e deitou no sofá. Depois, desligou o celular e dormiu. Acordou pouco antes de meia-noite com um barulho forte no portão. Assustado, saiu para ver o que era, abriu o portão e viu a rua deserta. Correu de um lado para o outro procurando alguma pista e não viu nada.

Quando voltou para casa, encontrou um envelope jogado embaixo do portão. Fez um movimento de pegá-lo do chão e voltou atrás. Depois, tirou a camiseta que usava, envolveu a mão e só então pegou o envelope.

Fechou o portão, foi para dentro de casa e, sentado no sofá, avaliou cuidadosamente o envelope e viu o nome dele escrito em letras vermelho-sangue.

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