Águas de Março – Capítulo 13

Ivan ficou bastante assustado ao ver o seu nome escrito no envelope. Foi até uma mesa, pegou uma tesoura e, quando ia começar a abri-lo, decidiu ligar para Cesar:

– O que você quer, Ivan! Olha a hora. Tô dormindo!

– Cesar, eu estava em casa, ouvi um barulho no portão, saí, não vi ninguém e, quando voltei, percebi um envelope no chão, embaixo do portão. Trouxe ele para dentro sem deixar vestígio da minha digital ou, caso contrário, o Valentim expede um mandado de busca e apreensão de qualquer coisa na minha casa e percebi que meu nome está escrito em uma tinta vermelho-sangue do lado de fora.

– Tá, e você quer que eu acredite nessa história? Você está lendo o quê, hein?

– Eu estou com o envelope aqui. Lacrado!

– Tá, traz aqui. Vou ver isso.

Ivan chama um Uber e pouco mais de vinte minutos depois chega na casa de Cesar.

– É… Realmente, você tem razão. Seu nome escrito com uma tinta vermelho-sangue. Aliás, tinta bem estranha essa. Bem, vou leva-lo para a delegacia amanhã. Pode ser uma pista importante.

– Cesar, eu quero levar isso para a TV.

– Ivan, você está maluco? Levar isso para a TV? Não está bom o estrago que você fez indo até perto do local onde uma vítima foi encontrada no meio da noite e ainda ser filmado por câmera de segurança? Aí, Valentim começa a te investigar. O que mais você quer? Ser preso, suspeito da morte dessas mulheres todas?

– Cara, eu tenho direito sobre esse envelope. Ele foi entregue para mim e tem meu nome.

– Não estamos falando de direito nem privacidade. Aliás, estamos falando de coisas bem diferentes. Estou falando da vida de mulheres assassinadas injustamente e de um maluco à solta que precisamos prender. Você está falando de audiência e faturamento. A vida dessas mulheres vale mais, Ivan. O envelope fica comigo. Aliás, finalmente você agiu como qualquer pessoa deve agir: chamou a polícia. Sempre faça isso. Costuma evitar problemas. Você não é nenhum ser especial acima do bem e do mal, sabia? Antes de ser jornalista, você é uma pessoa que pode ser presa sim!

– Nossa, Cesar! Você está bem?

– Não. Eu fiquei muito irritado com você. Como você dá uma brecha dessa, cara? Pela audiência? Por noticiar primeiro? Você poderia ser morto. Não foi, mas agora o Valentim está na sua cola. E eu não vou fazer nada para ele sair.

– Tá, desculpe. Entendi e vacilei. Vacilei feio.

– Tudo bem, cara! Amanhã vou levar o envelope para a perícia e… Sei lá… Prometo tentar te passar o resultado em primeira mão assim que sair e dar um tempo para você ter exclusividade na divulgação desta pista. Tudo bem?

– Ok, Cesar! Mas… Eu… Eu queria te pedir uma coisa. Posso dormir aqui? Tô com medo de ficar em casa sozinho depois disso.

– Isso eu não posso. Você é suspeito e eu vou me complicar se o Valentim aparecer aqui e te ver. Talvez até tenha que sair do caso e adeus exclusividade ou notícias em primeira mão.

– Tudo bem. Você tem razão. Vou tentar outra coisa.

Ivan liga para Mônica e pede ajuda. Explica a situação e ela diz:

– Venha para cá e amanhã vamos trabalhar juntos.

Ivan se despede de Cesar e chama outro Uber. Uma hora depois, ele chega na casa de Mônica e ela está esperando ele no sofá da sala.

– Onde está o envelope?

– Deixei com Cesar para perícia.

– Você é louco? Perícia não dá audiência!

– Mônica, o Valentim está na minha cola. Não sei o que tem dentro do envelope e tenho certeza que ele vai encontrar uma forma de me incriminar ainda mais.

– Ivan, se eu dissesse que iria abrir aquele envelope no ar, teríamos 10 pontos de audiência ao longo das três horas de programa! Eu não acredito que você fez isso!

– E no dia seguinte estaria preso, suspeito de matar todas essas mulheres. E tenho certeza que você faria uma matéria dizendo que o assassino trabalhava com você.

– Pelo visto você paga favores com ironia e ingratidão. Eu vou dormir. Tenho mais o que fazer do que ficar discutindo com você aqui, no meio da minha sala.

Mônica foi para o quarto e fechou a porta. Ivan, sozinho, sentou no sofá e depois deitou. Ele acordou às oito horas e encontrou Mônica na porta do quarto, em pé:

– Estava quase pegando um balde com água para te acordar. Estamos atrasados e precisamos ir para a TV. Perdemos uma pauta, mas temos um programa de três horas para preencher.

Os dois tomaram café e depois foram para o trabalho em silêncio. Quando chegaram lá, encontraram a produção desesperada, pois mais uma vítima do serial killer foi encontrada, dessa vez com uma enorme corda amarrada em formato de laço no pescoço e pendurada em uma árvore dentro do Parque da Luz. Ao mesmo tempo, a polícia já sinalizava com o caso de um atirador que invadiu uma escola em Suzano.

– Ivan, você vai para Suzano!

– Mas, Mônica! Eu quero continuar no caso das mulheres.

– É só mais uma vítima desse maluco! Suzano é o seu lugar hoje.

– Mas…

– Sem “mas” nem nada! Quero um boletim da situação na cidade em uma hora! Vá!

Ivan foi para Suzano a contragosto e, mais tarde, ficou no ar durante as três horas do programa. Voltou para São Paulo no início da noite e encontrou Mônica na redação.

– Acho que peguei pesado com você hoje, Ivan! Comprei pizza para nós dois e vou abrir um dos meus melhores vinhos.

Mônica sempre foi muito orgulhosa e incapaz de pedir desculpas. Porém, quando sentia que deveria pedir perdão, fazia surpresas ou comprava presentes.

– Não precisa, Mônica. Vou voltar para casa. Sem falar que preciso trocar de roupa, tomar um banho… – disse Ivan.

– Não. E se o maluco aparecer por lá de novo? – questionou Mônica – Eu te levo, você faz tudo isso e depois vamos para a minha casa.

– Não precisa, Mônica.

– Nós vamos fazer assim e ponto final! – impôs.

E assim foi feito. Chegaram na casa de Mônica por volta de oito e meia e ela foi tomar um banho. A pizza chegou algum tempo depois.

Eles comeram, conversaram, riram e secaram duas garrafas de vinho. Mônica, bastante alterada, começou a dançar na sala enquanto cantarolava qualquer refrão ininteligível (e possivelmente inventado na hora) e Ivan gargalhava.

Abriram mais uma garrafa e as brincadeiras e gargalhadas continuaram e só cessaram quando o telefone de Ivan tocou. Era Cesar.

– Você pode vir até a delegacia? Tenho novidades sobre o envelope.

– Pode ser amanhã, Cesar? Fui para Suzano hoje e estou bem cansado.

– Estou trabalhando até agora por sua causa, para tentar te tirar do radar do Valentim.

– O que você descobriu sobre o envelope, Cesar?

– Venha até aqui e conversamos. Você não quer audiência? Garanto que a informação que tenho é mórbida o suficiente para garantir alguns pontos para você.

– Eu estou indo, Cesar! – disse Ivan desligando o telefone em seguida.

– Nós vamos, Ivan! Nós vamos. Você não sai daqui sem mim. – interrompeu Mônica.

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