Águas de Março – Capítulo 14

Ivan olhou para Mônica e disse:

– Acho que não é um bom momento para você ir. Talvez Cesar pense que…

– Eu não estou nem aí com o que o Cesar vai pensar! – interrompeu Mônica – Eu vou te acompanhar e ponto final!

Ela foi para o quarto e voltou em menos de cinco minutos:

– Estou pronta! Vamos? – disse ela indo em direção à porta.

Os dois chegaram na delegacia pouco mais de 40 minutos depois e encontraram Cesar tomando café na recepção.

– Pelo visto a noite vai ser longa, policial! – disse Mônica chegando perto de Cesar.

– Bem, Mônica. Eu quero conversar somente com o Ivan. Você espera aqui fora.

– Eu vou entrar com ele. – disse Mônica.

– Aqui quem manda sou eu. Você fica aqui fora e ponto!

Ivan entrou com Cesar em uma sala e eles encontraram Valentim aguardando-os.

– Sente-se, Ivan! – disse Cesar.

Ivan sentou e Valentim começou a falar:

– Temos uma possível pista com a gente, como você deve saber. E dessa vez parece que você agiu certo entregando o material para a gente antes de fazer qualquer besteira.

– E meu celular? – quis saber Ivan.

– Semana que vem. Talvez… – disse Valentim.

– Vamos direto ao assunto, Valentim! – interrompeu Cesar.

– Ok! Vamos lá… – retomou Valentim – Dentro do envelope nós temos apenas um calendário com o mês de março e algumas marcações nos dias que já passaram, exceto no dia 8.

– E isso quer dizer exatamente o quê? – perguntou Ivan.

– Ainda não interpretamos, mas possivelmente ele marcou os dias em que ele agiu e no dia 8, como não teve nenhuma morte, ele não marcou nada.

– Nossa! Que serial killer genial! – ironizou Ivan.

– Deve ter alguma outra coisa por trás disso! – disse Cesar.

– Mas, o pior ainda está por vir. – falou Valentim – Aparentemente ele fez todas as marcações do envelope com o sangue das vítimas. E seu nome foi escrito com o sangue delas também.

– E por que ele está atrás de mim? – perguntou Ivan.

Valentim abaixou a cabeça.

– Eu entendi, Valentim! Você acha mesmo que eu fabriquei essa prova.

– Eu não disse nada, Ivan. – provocou Valentim.

– Seu olhar disse mais que qualquer afirmação que você viesse a soltar. Você colocou na cabeça que eu estou por trás desta história e vai levar isso até o final. Ou até eu provar que não tenho nada a ver. Pois bem, eu te faço um desafio: me prenda! Se as mortes cessarem, eu assumo todos os assassinatos mesmo sem ter nenhuma culpa. Se as mortes continuarem, prepare-se para ser massacrado pela mídia e pela opinião pública. É pegar ou largar, meu caro!

– Chega vocês dois! – gritou Cesar interrompendo a discussão e dando um tapa na mesa – Nós temos um maluco lá fora atacando todas os dias, não sabemos quem é, nem por qual motivo mata e precisamos descobrir antes que mais mulheres morram. É só isso que precisamos. Você tem todo o direito de duvidar do Ivan, Valentim. Mas, não tem o direito de provocar alguém que você suspeita e de quem não tem nenhuma pista concreta. E você, Ivan… Pare de usar as artimanhas da sua chefinha que aqui não cola. Aqui quem manda somos nós! Entendido?

Valentim saiu irritado da sala e bateu a porta.

– Desculpe, Cesar! Eu passei do ponto.

– Pare de aceitar as provocações de Valentim ou vai se complicar ainda mais.

– E o envelope? – quis saber Ivan.

– Eu vou falar com exclusividade no seu programa. Falo sobre a perícia, os resultados e tudo o mais. Depois terei que abrir para os outros veículos de imprensa.

– Muito boa essa pauta! – disse Mônica entrando na sala e aplaudindo – E eu vou te entrevistar ao vivo, Cesar.

– Tudo bem. Eu não tenho medo.

– Excelente. Entretanto, Ivan não dá entrevista para nenhum outro veículo.

– Cesar, é só isso que temos sobre essa correspondência?

– Sim, Ivan. Vamos juntar essa pista à investigação e ver se damos algum passo.

– Te espero às 13h na TV, Cesar! – disse Mônica.

Ela saiu da sala, voltando logo em seguida:

– Ivan, vamos embora?

Ivan agradeceu Cesar e se despediu. Saiu da sala pouco depois e os dois voltaram para o apartamento de Mônica.

Mais tarde, a entrevista de Cesar e a revelação exclusiva fez Mônica ter 4 pontos de audiência e toda a equipe comemorou.

– Parabéns, Ivan! Eu sempre soube que você aprenderia a negociar em favor do seu trabalho mesmo estando no alvo de alguma situação perigosa! – disse Mônica.

Ivan sorriu sem graça e então viu Cesar passando pela redação após sair do camarim que estava usando.

– Cesar! – gritou Ivan indo atrás do policial.

– Eu preciso ir, Ivan!

– Eu só queria perguntar se tivemos alguma morte ontem.

– Até agora ninguém nos acionou. Encontramos uma vítima ontem de manhã e tudo indica que ele deu mais uma trégua.

– Muito obrigado! E obrigado pela entrevista.

Cesar saiu da TV Jaraguá e voltou para a delegacia. Ivan, por sua vez, optou em ir para a casa dele e, quando chegou lá, encontrou Valentim no portão.

– O que você quer agora? – perguntou Ivan.

– Vim devolver seu celular. Não tem nada, mas pelo menos conseguimos informações e estamos tentando rastrear a ligação que você recebeu.

– Tô livre da sua suspeita? – indagou Valentim.

– Nem minha avó está livre da minha suspeita! – disse Valentim entrando no carro e dando partida bruscamente.

Ivan entrou em casa e ligou para Cesar. Ele perguntou se havia mais alguma vítima e o policial respondeu:

– Pode marcar aí que não. Ontem o nosso assassino descansou mais uma vez. Ele sempre mata à noite e descobrimos o corpo de manhã ou de madrugada. São pouco mais de oito horas da noite e duvido que encontremos algo.

Ivan desligou a ligação e ligou o computador. Começou a trabalhar na investigação dele até pouco antes de meia noite e então ficou olhando para um calendário que ele montou para auxiliar no trabalho. Ele ficou olhando para o dia 8 e para o dia 13 e disse para si mesmo:

– O que tem em comum entre esses dois dias para ele dar uma pausa no plano dele?

Ele então sentou no sofá, ligou a TV e começou a assistir o boletim do tempo da TV Jaraguá quando a apresentadora disse:

– Hoje o dia de foi de bastante chuva no início da noite, como era de se esperar. Aliás, os dois únicos dias sem registro de chuvas intensas em março foram dia 8 e dia 13 de março.

– É isso! – disse Ivan abrindo um enorme sorriso e dando um soco no sofá.

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