Águas de Março – Capítulo 15

Ivan levantou do sofá em um pulo e começou a caminhar pela casa dizendo para si mesmo:

– É isso! É isso!

Quis ligar para Cesar, pensou em ligar para Mônica, mas não conseguia coordenar os pensamentos. Por fim, foi para o computador, fez algumas anotações e ligou para Cesar:

– Cesar, eu descobri! Faz todo o sentido!

– O que, Ivan? Você está louco? Descobriu o que?

– Eu estou indo para a sua casa. Preciso te explicar melhor. Aliás, venha até a minha casa.

– Ivan, é tarde! Tenho um maluco para perseguir amanhã e não posso ficar trabalhando em teorias conspiratórias durante a madrugada.

– Não é teoria conspiratória, Cesar. O que eu descobri faz todo o sentido.

– Eu quero dormir. Tchau!

Cesar desligou o telefone e Ivan, eufórico, chamou um Uber e foi até a casa do amigo policial. Quando chegou lá, ligou para Cesar e disse:

– Eu estou aqui fora.

Cesar abriu o portão com cara de sono e usando um pijama:

– Ivan, o que você está fazendo aqui a essa hora? Eu quero dormir, cara! Esse maluco está me deixando sem dormir e eu preciso aproveitar quando eu consigo ter qualquer resquício de sono.

– Cara, desculpe vir aqui a essa hora, mas eu preciso muito falar com você. Eu descobri o porquê do calendário e das marcações. E foi você mesmo quem me orientou a sempre te procurar quando tivesse qualquer informação que pudesse me comprometer. E, aparentemente, eu descobri um pedaço do processo de ação dele.

– Ivan, na boa! Vamos nos falar mais tarde, na delegacia.

– Depois pode ser tarde. Logo mais teremos mais uma morte.

– Como você sabe, Ivan? Como você pode ter certeza?

– Ele mata somente nos dias de chuva. É isso!

– Como você descobriu isso? – perguntou Cesar em tom curioso.

– Eu estava avaliando os dias das mortes das vítimas e as marcações no calendário que ele enviou. Os únicos dias em que ele não atacou foi dia 8 e 13. E o que tem em comum a essas duas datas? Foram os dois únicos dias em que não choveu na região central, onde ele abandonou a maioria dos corpos.

– Você está me dizendo que nosso assassino só mata quando o tempo fecha no centrão da cidade?

– Sim!

– Ah, Ivan! Que brincadeira idiota!

– Pois eu tenho certeza de que amanhã você terá a notícia de uma nova vítima. Certeza absoluta!

– Só não fale isso pro Valentim ou ele vai arrumar um jeito de te prender.

– Pode prender. Eu estarei dentro da cadeia e as mortes continuarão acontecendo aqui fora.

– Ivan, segundo a sua lógica, em breve descobriremos uma nova morte, correto? E por qual motivo?

– Ontem choveu, Cesar! Todo serial killer tem um critério e nosso parece ter escolhido os dias de chuva por qualquer motivo.

Cesar pediu para Ivan entrar em ligou para a delegacia. Conversou com alguém que atendeu à ligação e, olhando assustado para Ivan, disse:

– Eu estou indo para o local.

Ele desligou a ligação e disse:

– Ivan, como você sabia que mais uma mulher tinha sido morta?

– É só prestar atenção no tempo. Ontem choveu. Dia 8 e dia 13 não caiu nenhuma gota. Chove, tem morte. Não chove, não tem morte.

– Só falta termos um assassino devoto de São Pedro. – ironizou Cesar.

– E que mata como forma de devoção ao santo? – emendou Ivan.

– Seria demais para a minha cabeça. Você vem comigo! Encontraram mais um corpo, dessa vez jogado próximo ao Rio Tamanduateí e antes do Mercadão Municipal. Alguns policiais militares já chegaram lá e mandaram umas fotos. – disse Cesar mostrando as imagens para Ivan.

– Ele encheu o rosto dela de anzóis. Mas… Como assim?

– Nada faz sentido, cara! Por isso que essa sua teoria deve ser analisada com cuidado antes de divulgarmos ou viraremos chacota. E, assim… Eu sei que você adora sua chefe, mas não conte isso a ela. – disse o policial enquanto trocava de roupa.

Após quase vinte minutos, eles chegaram ao local onde a nova vítima estava. Ivan ficou bastante impressionado com a crueldade e fez um breve registro usando o celular.

Mais tarde, Mônica abriu o programa “Tarde Viva” com Ivan ao lado dela:

– Boa tarde, Brasil! Estamos no ar com mais um “Tarde Viva” e temos uma revelação inédita sobre o caso dos assassinatos de mulheres na cidade de São Paulo!

– É isso mesmo, Mônica! Nossa equipe está trabalhando com uma investigação paralela à da polícia e descobriu algo incrível: todos os assassinatos cometidos ao longo do mês de março por esse maníaco que ainda está à solta foram cometidos em dias de chuva na região central da cidade, onde quase todos os corpos foram encontrados. – emendou Ivan.

– A polícia ainda não confirma esta informação e disse estar investigando e trabalhando com diversas possibilidades. Mas, vamos colocar no ar um calendário que montamos especialmente para você, telespectador. Os dias marcados com um “X” tiveram registro de assassinatos. Apenas os dias 8 e 13 não possuem marcação e a ligação entre eles é surpreendente: nos dois dias não tivemos registro de chuva na região central da cidade de São Paulo!

Enquanto isso, na delegacia, Valentim assistia ao programa e deu um tapa na mesa. Cesar se aproximou dele e disse:

– Filho de uma puta! Eu disse para ele não divulgar isso!

– E, pior: ele disse que a TV está fazendo uma investigação paralela. Nem preciso dizer que em breve a população vai desmerecer o nosso trabalho.

Cesar, irritado, voltou para a sala e Valentim foi atrás.

– Segundo a previsão do tempo, hoje vai chover. – disse Cesar.

– Vamos para a rua e ficaremos na região central. Temos que agir! – disse Valentim.

Os dois começaram a organizar a operação e, pouco antes de nove da noite, Cesar disse:

– Continue o trabalho aí. Eu já volto!

Cesar pegou o carro e dirigiu em alta velocidade até a casa de Mônica. Se identificou na portaria e recebeu a informação de que a jornalista ainda não estava em casa. Ele então pegou o carro e foi até a TV Jaraguá. Chegou lá por volta de onze da noite e perguntou por Mônica e Ivan na recepção.

– Eles ainda estão trabalhando. – disse uma jovem na recepção.

– Eu sou da polícia e preciso falar com eles.

– Hum… Vou ver se eles atendem o senhor. – afirmou.

A jovem fez uma ligação e desligou poucos segundos depois:

– Ela disse para o senhor aguardar que ela já está descendo.

Cinco minutos depois, Mônica apareceu na recepção e disse:

– Olha, que coisa! Boa noite, policial!

– Você faz qualquer coisa pela audiência, Mônica! Como você consegue?

– Cesar, não é educado discutirmos aqui, na recepção do meu trabalho. Eu nunca dei nenhum escândalo na porta da sua delegacia nem mesmo quando você me sonegou informações.

Mônica levou Ivan para uma pequena sala de espera ao lado da recepção e continuou:

– Pronto, aqui está melhor! Continue…

– Você não mudou nada, Mônica! E aquele capacho do Ivan está seguindo sua cartilha fielmente!

– O Ivan não tem nada a ver com isso. O problema aqui é entre nós dois. Sempre foi. Você sabe disso!

Enquanto isso, Ivan chegou na recepção, ouviu os dois discutindo e optou por ficar atrás da porta ouvindo a conversa.

– Você está ensinando o Ivan a ser como você. Daqui a pouco vai estar se deitando com qualquer uma para conseguir informações.

– Como se você não aproveitasse a sua condição para passar o rodo nas repórteres que caem na sua lábia. Você só age assim comigo pois eu não joguei o seu jogo, Cesar!

Irritado, Cesar abriu a porta bruscamente e saiu da sala. Foi até o carro e saiu dirigindo em alta velocidade. Enquanto isso, Ivan entra na sala e encontra Mônica quase chorando. Ele abraça a jornalista e diz:

– Calma, ele já foi embora.

Mônica então secou uma lágrima que teimou em cair e disse:

– Eu… Eu… Eu vou pro meu camarim. Preciso arrumar minhas coisas e ir embora. Hoje tivemos um programa incrível, do jeito que gosto: com notícia exclusiva. Se a polícia não gostou? Não me importa! Eu pratico a boa e velha cartilha do jornalismo!

Mônica saiu da sala e Ivan saiu logo atrás.

Por volta de meia noite, Cesar chegou na delegacia e encontrou Valentim afoito:

– Por onde você andou, cara? Tô te ligando! Encontraram mais uma vítima. Precisamos ir para o endereço.

– Choveu hoje no centro de São Paulo?

– Sim! – disse Valentim.

Enquanto isso, Ivan chegou com Mônica no apartamento e ela disse em tom de agradecimento enquanto entrava e se sentava no sofá:

– Muito obrigado pela companhia, Ivan! A visita do Cesar me abalou um pouco, mas a volta para casa me ajudou a melhorar.

– Mônica, é… Eu sei que não tenho nada com isso, mas preciso te perguntar uma coisa.

– Pois não… – disse Mônica se acomodando no sofá.

– Eu… Eu ouvi você dizer para o Cesar que o problema era entre vocês dois. O que tem entre vocês dois?

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