Águas de Março – Capítulo 16

Mônica levantou do sofá e disse:

– É melhor isso ficar entre eu e Cesar. E não adianta ir atrás do seu amiguinho para tentar descobrir algo. Ele pode falar o que ele quiser. Para mim, essa história fica apenas entre eu e ele.

– Vocês tem uma história muito antes disso tudo que está acontecendo. Não é?

– Ivan, não seja teimoso.

– Mônica, pelo seu bem e pelo bem do Cesar: resolva essa história com ele e… – disse Ivan.

– Cesar é teimoso e pensa exclusivamente no bem dele. E eu não quero mais falar sobre isso! – interrompeu Mônica.

– E eu vou embora para a minha casa.

Ivan se despediu de Mônica e foi embora. No caminho, passou em um bar, começou a beber e uma jovem loira se aproximou da mesa e sentou para conversar.

– Você é o moço da TV, não é?

– Depende… Qual moço de qual TV?

– Aquele do programa da Mônica. Um que sempre fala dos casos dessas mulheres que estão sendo assassinadas. Não é você?

– Sim, sou eu mesmo. – disse Ivan.

– Quem você acha que é o assassino? – ela perguntou.

– Eu não sei. Aliás, não sei nem quem pode ser o assassino e, nestes casos, ele pode ser qualquer pessoa, inclusive eu ou até mesmo você.

– Eu não levo o menor jeito para cometer esses crimes todos. – disse a jovem.

Ivan deu um sorriso e ela retribuiu.

Enquanto isso, Cesar e Valentim chegavam ao local próximo ao extremo sul da cidade, onde mais uma vítima tinha sido encontrada. Os policiais militares já haviam isolado a área e a mulher já estava dentro de uma mortalha e embaixo de uma grande árvore.

– E como está o rosto? – quis saber Cesar.

– O crânio dela foi esmagado com um disco de madeira que está ao lado do corpo.

Valentim se aproximou e disse:

– Alguém viu algum movimento estranho por aqui?

– Nada, nada. Um grupo de jovens estava acampando aqui perto e um deles veio ver essa árvore quando se deparou com o corpo caído e nos acionou. Depois de encontrarem a morta, ficaram com medo do maluco ainda estar por aqui e foram embora.

Cesar abaixou a cabeça, olhou para o horizonte e só conseguiu dizer:

– Recolham tudo e coloquem o disco de madeira no meu carro. Vamos leva-lo para a delegacia e anexar no processo de investigação. – disse Cesar.

– Vou mandar o disco para perícia assim que o sol raiar.

– Nosso amigo repórter já descobriu que o nosso amigo serial killer mata somente nos dias de chuva. Só precisamos torcer para não chover mais.

– Difícil, hein? Estamos em março! Época das famosas águas de março da música, que sempre levam o verão… – completou Valentim.

– Ah, Valentim! Enfia no rabo essas suas analogias idiotas. Temos que pegar um maluco e não brincar de associar letras de músicas!

Cesar foi para o carro e Valentim entrou logo depois:

– Alguma ideia, Cesar?

– Já sabemos que ele mata em dias de chuva e segue a previsão do tempo da região central da cidade, onde ele deixa a maioria dos corpos. Só não consigo entender o porquê de algumas vítimas serem deixadas tão longe.

– Já tentei fazer uma relação entre os nomes das vítimas e os locais onde elas foram encontradas. Não tive nenhum resultado. E aqui, no extremo sul, não faz o menor sentido. Só tem mato! E se não fosse o grupo de jovens, jamais encontraríamos. – completou Valentim.

– Ele deve ter escolhido muito bem todos os cenários. Mas, baseado em quê? – questionou Cesar.

– Eu não sei. Durante o dia virei aqui para avaliar o local e tirar umas fotos. Até a espécie da árvore onde ela foi encontrada eu vou olhar. – disse Valentim.

– É a terceira vez que ele usa madeira, não é? Avalie o tipo de madeira usada em cada um dos crimes. Pode ter uma pista aí. – disse Cesar.

Mais tarde, Ivan acordou em um quarto de hotel com a loira do bar ao lado dele. Ele vestiu a roupa, deixou algum dinheiro embaixo do celular dela e foi embora. Já na rua, disse para si mesmo:

– Você foi um calhorda, Ivan! Onde já se viu deixar dinheiro embaixo do celular e ir embora?

Pensou em voltar, mas preferiu seguir adiante. Chamou um Uber e foi para casa. Sentado no sofá, começou a pensar em tudo que tinha acontecido e qual poderia ser o motivo da briga entre Mônica e Cesar.

O sábado passou sem grandes acontecimentos e por volta de cinco da tarde Ivan foi ao mercado comprar alguns itens para a casa, olhou para o céu e disse para si mesmo:

– O céu está entre nuvens e até agora não choveu. E duvido que chova. Pelo menos alguém não vai morrer hoje.

Estava errado. Algumas horas depois, a chuva molhava o chão da cidade de São Paulo. Da janela de sua casa, Ivan observava e dizia para si mesmo:

– Em breve teremos mais uma vítima.

Logo depois, pegou o celular e ligou para Cesar. O amigo não atendeu. Ele então tomou um banho, deitou no sofá para ler um pouco e, por volta de onze e meia da noite, aceitou um convite de alguns amigos da TV para uma festa de aniversário de uma desconhecida para Ivan, mas amiga de alguns dos amigos dele.

– Mas, eu nem conheço a aniversariante! – tentou argumentar Ivan, declinando educadamente do convite.

– Tem mais umas duas pessoas no grupo que não a conhecem. Você vai com a gente, Ivan! Pelo menos você para de trabalhar e sai dessa investigação, além de arejar um pouco a cabeça.

Enquanto isso, Valentim e Cesar já estavam na rua. Seguiam para mais um endereço onde outro corpo havia sido encontrado. Chegaram lá e encontraram a vítima ainda fora da mortalha e o policial militar que veio encontra-los disse quando eles saíram do carro:

– Dessa vez ele pegou pesado de novo.

Deixe uma resposta