Águas de Março – Capítulo 17

Cesar se aproximou do corpo da vítima e viu que dois pedaços de madeira estavam no lugar dos olhos.

– Isso é o nó da madeira. Meu pai era serralheiro e lembro de algumas coisas que ele me ensinava.

– E onde ele colocou os olhos dela? – quis saber Cesar.

– Estão dentro da boca. – respondeu o policial militar que atendeu à ocorrência.

Cesar abriu a boca da vítima para conferir e depois afastou o rosto.

– Levem para a autópsia e encaminhem esses pedaços de madeira para a delegacia. Eu vou para casa. Não tenho cabeça para continuar hoje. – disse um tanto irritado.

O policial se afastou e foi para o carro. Valentim foi logo depois e encontrou o parceiro no banco do passageiro:

– Você dirige. Estou sem cabeça.

O domingo amanheceu nublado. Cesar acordou e decidiu correr no Ibirapuera, coisa que há tempos não fazia. Após estacionar o carro, entrou no parque e foi em direção à pista de cooper. Após 5 minutos correndo, ouviu uma voz conhecida atrás dele. Era Mônica:

– Você por aqui, policial? – disse a jornalista em tom provocativo.

– Mônica? O que você quer? – respondeu.

– Você sabe que eu corro aqui todo domingo de manhã. Mas, recomendo você manter a postura. Tem muita gente por aqui e sou uma pessoa pública. Pegaria muito mal para você discutir com a apresentadora do programa da tarde enquanto ela simplesmente se exercita no domingo de manhã. Aliás, você fica um gato com essa roupa esportiva. Deveria vir mais vezes. Tenho certeza que iria arrancar suspiros e aumentar a sua lista de possíveis presas. – provocou Mônica.

– Chega das suas ironias, Mônica! – disse Cesar um pouco irritado.

– Não estou sendo irônica. Não aguenta ouvir a verdade, policial?

Cesar respirou fundo e disse:

– Pelo menos eu não sou alguém sexualmente frustrado que busca o prazer nos números de audiência e faz de tudo para isso. – provocou o policial.

– Excelente tentativa, policial. Mas, não conseguiu me abalar. Eu tenho um programa na TV, sou preocupada com os pontos de audiência como todos lá dentro estão e faço isso pois tem muita gente na minha equipe que depende disso para sustentar a família.

– E tem outros na sua equipe que usam isso para atrapalhar a vida dos outros, assim como você, Mônica.

Cesar aumentou a velocidade e deixou Mônica para trás. A jornalista parou e ficou observando o policial até que ele deu uma volta completa e passou por ela novamente. Mônica correu na mesma velocidade, o alcançou e disse:

– Pelo menos aqui você consegue estar alguns passos à minha frente. Não tenho culpa que meu repórter é mais inteligente que você e aquele insosso do Valentim. – provocou Mônica novamente.

– Eu pedi para ele não divulgar nada enquanto não pudéssemos comprovar.

– O furo jornalístico é nosso mais uma vez. Estamos em 2019, a informação circula cada vez mais rápido. Se não fosse a gente, seria outro veículo ou programa.

– O Ivan tem que parar com isso. O assassino sabe onde ele mora, talvez até conheça a rotina. E tenho certeza que sabe onde ele trabalha. – disse Cesar.

– Ele sabe se cuidar. – argumentou Mônica.

– Ele sabe procurar sarna para se coçar. Só digo isso! Ele vai se complicar nessa história! O Valentim até já quis prendê-lo!

– O Ivan é assassino para o Valentim e um abelhudo para você. E para mim é um excelente jornalista.

Cesar novamente aumentou a velocidade e deixou Mônica para trás. Ela saiu da pista e foi em direção ao carro. No caminho, ligou para Ivan e começou a ficar desesperada quando o jornalista não atendeu ao telefone. Ela então entrou no carro e foi até a casa dele.

Enquanto isso, Ivan acordou jogado no sofá de casa. Não lembrava como tinha ido parar ali, mas sabia que tinha aproveitado ao máximo a festa, tanto que ainda tinha o cheiro da aniversariante pelo corpo. Procurou o celular pela casa e o encontrou sem bateria no banheiro, colocou-o para carregar e ligou logo depois. Viu que tinha várias mensagens da dona da festa da noite anterior e, entre elas, algumas fotos dela nua.

– Uau! Pelo visto ela ficou empolgada mesmo! – disse Ivan.

Ele respondeu combinando um encontro mais tarde e então chegou uma mensagem de Mônica dizendo que estava a caminho da casa dele.

“Estou esperando”, ele escreveu como resposta.

Minutos depois, ele estava com Mônica no sofá da sala:

– Você precisa mudar para um hotel enquanto essa história do assassino estiver acontecendo. Vi Cesar há pouco e ele disse uma coisa extremamente sensata: o assassino sabe onde você mora e deve conhecer a sua rotina. Amanhã vamos procurar um hotel, de preferência fora de SP, e você vai trabalhar de lá e pela internet.

– Mônica, acho que é um pouco demais. O cara só mata mulheres.

– Ele pode querer queimar algum arquivo e você seria a vítima perfeita. Sabe mais que a polícia e não duvido que chegue até ele antes da investigação oficial. Não venha com justificativas e negativas. Amanhã você muda daqui. Eu já até imagino para onde você vai.

Ivan não relutou e só completou:

– Está bem. Vou fazer as malas e amanhã cedo vou com elas para a TV.

– Assim que eu gosto. Um garoto obediente!

O domingo foi chuvoso e Ivan ligou para Cesar no meio da tarde. O policial não atendeu e o jornalista decidiu enviar uma mensagem com o seguinte texto:

“Quero te pedir desculpas pessoalmente por aquela reportagem. Precisei fazer aquilo ou seria demitido!”

Depois, continuou a arrumar as roupas em uma mala junto com computador, carregadores, tablet e um leitor de livros digitais. Por volta das sete da noite, a aniversariante da noite anterior chegou à casa dele. Ivan sorriu, levou ela para o quarto e por lá ficaram até pouco antes de onze da noite.

– Eu preciso ir, Ivan! – disse ela se levantando e vestindo a roupa rapidamente.

– Poxa, Solange! Eu gostei tanto de você. Fica mais um pouco.

– Pode me chamar de Sol. Aliás, é a minha melhor nota! – disse ela.

– Tudo bem, Sol! – disse Ivan.

– Olha como minha voz fica ótima em sol! – disse ela cantarolando.

Solange disse que não poderia ficar, pois no dia seguinte teria que trabalhar cedo:

– Vida de artista parece ser glamourosa, mas a gente rala muito.

Solange se despediu de Ivan e ele disse que iria acompanha-la até o carro chegar.

– Não precisa. Eu vou andando até o metrô. Tem uma estação aqui bem próxima. Em dez minutos eu estou lá.

***

Ele viu Solange saindo da casa de Ivan e a seguiu. Ela decidiu pegar um atalho para chegar mais rápido na estação e virou em uma rua de pouco movimento e que naquele horário já estava deserta.

Ele percebeu uma poça formada pela água da chuva e passou em alta velocidade propositalmente, molhando a jovem.

– Moço! Olha por onde anda!

Ele saiu do carro e disse:

– Desculpe. Perdi o controle do meu veículo! – Ele abriu o porta-malas e pegou uma toalha – Tome. Seque-se com essa toalha.

Ela pegou a toalha, e ele começou a mexer no porta malas, como se estivesse arrumando. Foi quando tirou um bastão em madeira e bateu com força na nuca de Solange e ela perdeu os sentidos.

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