Águas de Março – Capítulo 18

Ivan agendou um carro pelo aplicativo logo que Solange saiu da casa dele. Depois, dormiu pois precisaria acordar cedo no dia seguinte. Levaria as malas todas para a TV e então conversaria com Mônica para saber onde iria ficar.

Enquanto isso, Cesar tentava dormir e não conseguia. A chuva ao longo do dia 18 o deixava preocupado: ele sabia que alguma outra mulher apareceria morta e isso não tardou a acontecer. Algumas horas depois, por volta de três da manhã, o telefone tocou. Era Valentim.

– Cesar, vamos para o nosso plantão da madrugada?

– Onde dessa vez?

– Anota aí. Te espero lá…

Valentim informou o endereço e cerca de uma hora depois os dois se encontravam lá. O cenário já era bastante conhecido: Polícia Militar no local, mortalha e a conversa que quase sempre era a mesma:

– Como está o corpo?

– Ela foi morta com fortes golpes de madeira na nuca e depois… É… Veja por você mesmo…

A mortalha foi aberta e Cesar viu o rosto da jovem carbonizado. Ao lado dela, o bastão de madeira e um candeeiro a querosene, usados no crime.

– Encaminhem os dois itens como de costume. Deixa o resto com a gente!

Mais tarde, na delegacia, Cesar e Valentim tentavam chegar a alguma conclusão:

– Temos que encontrar alguma pista, Valentim! A opinião pública está na nossa cola! São 15 mulheres mortas e não prendemos ninguém e nem temos um suspeito!

– Eu já sei os tipos das madeiras que ele usou nas diversas vezes em que ele “repetiu” parcialmente o modo de assassinar. Nos dois primeiros casos, foi eucalipto. Depois, ele usou peroba, e na menina que ele retirou os olhos, ele trocou por dois nós de carvalho.

– Ótimo! E sabe o que isso significa?

– O quê? – disse Valentim.

– Nada! Não temos nada! Eu vou para a TV revelar alguns detalhes da nossa investigação para ver se ele se sente acuado e dá uma pausa nos crimes.

– Que detalhes, Cesar? Não temos nada!

– É por isso que vamos avaliar tudo a partir de agora. E, para a mídia, qualquer coisa importa. Descubra o tipo de madeira usado na última vítima. – disse Cesar.

– Tem uma outra coisa, Cesar! Quase todas as mulheres foram mortas em um dia e encontradas horas depois, já no dia seguinte. Dificilmente encontramos no dia do assassinato.

– Mulheres, artistas, mortas de diversas maneiras e com o rosto sempre desfigurado. – emendou Cesar.

– Ele tem ou teve algum problema com o rosto de alguém e por isso destrói os das vítimas. – avaliou Valentim.

– Não é muita coisa, mas são caminhos. Tive uma ideia: elenque todas as causas das mortes. Vamos ver se surge alguma coisa.

Valentim começou a fazer o trabalho e parou por volta de 8 da manhã pois precisava colher diversos depoimentos de um outro caso.

– Agora, Valentim? – quis saber Cesar.

– Pois é. Eu ainda descubro um santo para vestir outro. À tarde termino isso.

Enquanto isso, Mônica entregava para Ivan um envelope:

– Aqui tem tudo para você usar na sua estadia. Passagens, hotel por uma semana… E tome cuidado quando for embora da TV.

– Vou logo depois do programa.

– Não, você vai hoje! A grande pauta do programa será isso: o repórter que começou a ser perseguido pelo assassino e teve que fugir sem ter destino revelado. Não é demais?

– Na certa você conseguiu um patrocinador.

– Sempre! Mas, para a sua segurança, ele será revelado somente quando você puder voltar a dar expediente aqui na TV. Enquanto isso, você entra e não sai daquele quarto por nada! E somente duas pessoas terão acesso direto a você. E aproveite, hein? Consegui uma suíte presidencial! Vá logo e escolha um bom cenário para entrar ao vivo no programa pela internet.

Ivan saiu da TV e três horas depois chegou ao hotel onde ficaria pelos próximos dias.

– Poxa, vou ficar ao lado da praia e não vou conseguir aproveitar nada! – lamentou para si mesmo.

No meio da tarde, quando o “Tarde Viva” foi ao ar, ele entrou ao vivo e conversou com Mônica sobre a perseguição que havia sofrido enquanto Cesar dava entrevista para o concorrente “Nossa Tarde É Show”, da TV Mirafiori. Quando Mônica soube, quase teve um ataque no ar e alfinetou a concorrência na primeira oportunidade:

– Estamos de volta e, enquanto algumas pessoas falam mais do mesmo, só aqui no “Tarde Viva” você confere uma entrevista ao vivo com nosso repórter Ivan. Ele foi forçado a se esconder da perseguição que vem sofrendo por parte do assassino misterioso que adora matar mulheres e desfigurar os seus rostos. Ivan, parece que no seu caso ele resolveu abrir uma exceção, não é mesmo?

Ivan conversou com Mônica por alguns minutos e, ao final do programa, ela foi direto para o carro e depois foi para a delegacia esperar Cesar. Ele apareceu por lá pouco antes de 8h da noite e, ao vê-lo, ela se aproximou violentamente:

– Que palhaçada foi aquela?

– Não gostou, Mônica? Acha que só você tem programa vespertino? Aliás, eu fui atrás de quem lidera a audiência e não de quem fica em terceiro lugar e muito raramente em primeiro por alguns minutos. Aliás, sua tática de explorar a perseguição ao seu filhotinho não deu certo. Aliás, muito forçada essa história! Como ele seria perseguido se o assassino só mata mulheres?

A jornalista sentiu o estômago queimar. Sem dizer nada, virou bruscamente e entrou no carro. Antes de dar partida, ela disse:

– Isso não vai ficar assim, Cesar!

O policial balançou a cabeça, sorriu com o canto dos lábios e entrou na delegacia. Encontrou Valentim digitando e disse:

– Vamos jantar. Larga isso daí. Com o que fizemos hoje, acredito que ele se sinta acuado e pare de matar por um tempo. Assim ganhamos tempo e deixamos de ter vítimas.

Eles voltaram uma hora e meia depois e continuaram concentrados no trabalho: Cesar avaliando a repercussão da entrevista e guardando os links de tudo que encontrou na internet. Valentim lia, avaliava, pesquisava, digitava e por fim, quando o relógio marcou exatos 23 horas e 59 minutos, ele disse:

– Não temos uma pista que nos leve ao assassino imediatamente. Mas, já tenho a relação completa das causas das mortes e nomes, profissões e últimas atividades de todas as vítimas.

Enquanto isso, o telefone de Cesar começou a tocar. Era Mônica.

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