Águas de Março – Capítulo 19

Cesar olhou o celular e desligou. Em seguida, Valentim continuou:

– Como disse, tenho a relação completa das causas das mortes e nomes, profissões e últimas atividades de todas as vítimas. E tenho uma informação bem interessante. Parece que começamos a traçar o perfil das vítimas desse louco.

Valentim entregou uma planilha impressa para Cesar que disse logo em seguida:

– Bom trabalho! Vamos ver o que temos aqui.

Cesar avaliou por um tempo e disse:

– Temos uma informação bastante relevante: ele mata artistas e tem uma preferência por cantoras ou aspirantes a cantoras. E nenhuma estrela de videokê! Bom trabalho, Valentim! E a última? Deixa eu ver… Cantora de MPB em barzinho! Por outro lado, pode ser bom! Tem muita cantora de MPB no mundo, não tem? – disse Cesar rindo.

– Cesar, o assunto é sério. Qualquer cantora pode ser vítima desse maluco. Ele começou com uma famosa, continuou atacando e não sabemos onde ele pode parar. Se daqui a pouco ela mata outra famosa, estamos lascados.

– Estamos lascados de qualquer jeito, Valentim! Não vai ser uma nova famosa morta que vai mudar as coisas.

– Antes de continuarmos, Cesar. Dê uma olhada na última atividade da Solange, a última vítima.

Cesar correu os olhos pelo documento até encontrar a informação e depois disse:

– Ah, Valentim! Para com isso!

– Solange esteve com Ivan até pouco antes de morrer. Uma amiga dela me mostrou uma mensagem dela dizendo que iria até a casa dele.

– Isso não prova nada, Valentim! Se fosse alguma informação útil, todas as demais mulheres teriam tido algum contato com ele antes da morte. A investigação, pelo que temos aqui, mostra coisas bem diferentes.

– Cesar, Ivan esteve perto do local onde uma das vítimas foi encontrada e por vezes chegou ao local do crime antes da gente.

– Ah! Então temos um Xeroque Rolmes aqui!

– Quê? – quis saber Valentim.

– É um meme, imbecil! Depois te mando um link no Whatsapp explicando.

– Cesar, isso não é hora de brincadeiras. Temos vários indícios que apontam aquele jornalista. O que estamos esperando?

– Você, eu não sei. Da minha parte, estou esperando a terra se abrir e eu pular para ver se fico longe dessa sua teoria maluca de que o Ivan é o assassino.

– Cesar, Ivan fugiu! Eu vi ontem no programa da Mônica. Todo mundo sabe.

– Isso não prova nada, Valentim! Só prova que Ivan é sensato e saiu de perto do assassino que o estava perseguindo.

– Eu tenho certeza que Ivan é o assassino e aquela tal de Mônica está o protegendo, tanto que deu um jeito de encontrar um lugar para ele fugir.

– Valentim, você tomou café hoje? Para com esse vício! Tá te fazendo mal…

– Eu ainda vou provar isso, Cesar!

– Vá em frente, Valentim! Mas, vá sozinho e depois não diga que eu não avisei. Mônica tem o poder de estragar sua reputação se você agir contra ela ou algum protegido sem pensar. E o Ivan é um protegido dela, cara! E além disso, na real, eu duvido que Ivan tenha feito tudo isso.

– Eu vou seguir essa linha de investigação. E você está protegendo ele por ser seu amigo.

Cesar respirou fundo e então devolveu:

– Você está com raiva por que ele te desafiou. Lembre-se que você já tentou explorar essa pista antes e ele disse que se as mortes cessassem após você eventualmente prendê-lo, ele assumiria todos os assassinatos mesmo sem ter nenhuma culpa. Se as mortes continuassem, você seria massacrado pela mídia e pela opinião pública. E pelo visto isso não saiu da sua cabeça e feriu seu ego mortalmente.

Valentim engoliu em seco e depois saiu da sala. Cesar pegou a chave do carro e depois foi embora. Chegou em casa cerca de meia hora depois e foi deitar direto. Acordou por volta de meio dia com o celular tocando:

– Alô! Oi, Delegada! Não, não sei onde Valentim está. No início da madrugada conversamos e ele disse que iria provar que Ivan, o cara lá da TV, é culpado. Sim, eu sei, é uma ideia maluca, mas ele se fixou nessa tese e quer tentar de todas as formas prova-la. Sim, ok! Eu estou indo para a delegacia. Em menos de uma hora eu chego aí.

Cesar chegou na delegacia por volta de uma da tarde e foi direto para a sala da delegada:

– Eu não sei onde ele se meteu. Só sinto que ele está entrando numa fria se ele fizer o que estou pensando.

– Cesar, não podemos perseguir alguém com base em achismo e sem prova alguma, você sabe! – afirmou a delegada.

– Nós dois sabemos. A delegacia inteira sabe. Menos Valentim!

– Vamos dar um jeito nisso. Vou pedir apoio para a militar antes que esse idiota faça alguma coisa.

– Nosso nome já está na merda por causa dessas mortes todas e nenhuma pista que nos faça chegar ao assassino. Aliás, a primeira grande pista foi descoberta por um repórter de um programa sensacionalista vespertino. Cesar, faça alguma coisa. O problema agora é seu!

Cesar saiu da sala e tentou ao longo do dia encontrar Valentim sem sucesso. No início da noite, a Polícia Militar informou Cesar que não tinha encontrado nenhum vestígio do policial desaparecido.

Enquanto isso, Ivan preparava um texto para o programa do dia seguinte. Cansado por ter trabalhado o dia todo sem descanso e por ter feito duas longas entradas na edição do “Tarde Viva” daquele dia, levantou, andou pelo quarto e depois ficou observando o mar da janela da suíte presidencial de um hotel em Santos. Por fim, voltou para a cama, dormiu e acordou pouco antes de meia noite com o interfone de seu quarto tocando.

Estranhou um pouco a ligação fora de horário mesmo não tendo solicitado nenhum serviço, mas atendeu mesmo assim:

– Boa noite, Senhor Ivan! O Senhor Valentim está aqui em baixo querendo falar e disse que é da polícia.

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