Águas de Março – Capítulo 20

Ivan ficou alguns segundos pensando no que iria fazer e então disse:

– Eu vou descer. Peça que aguarde.

Ele não acreditava que Valentim estava ali e se perguntava como ele tinha descoberto o seu paradeiro.

Antes de descer, mandou uma mensagem para Mônica e abriu o gravador de áudio do seu celular. Quando chegou na recepção, encontrou Valentim sorridente e então o chamou para subir até o seu quarto.

Os dois subiram em silêncio no elevador e, quando chegaram no quarto, Ivan disse logo após trancar a porta:

– O que você está fazendo aqui, Valentim? – indagou Ivan.

– Oras, pensei que você já tivesse adivinhado! Não é muito curioso que, no primeiro dia após a sua fuga, nenhuma mulher tenha aparecido morta? – disse Valentim em tom irônico.

Ivan começou a rir e só conseguiu dizer:

– Você ainda acredita nessa história? Sério mesmo?

– Eu não acredito nessa história. Eu tenho certeza absoluta que você tem algum envolvimento nas mortes dessas mulheres todas! – afirmou Valentim.

– Pois bem. Vou repetir minha proposta: me prenda! Se as mortes cessarem, eu assumo todos os assassinatos mesmo sem ter nenhuma culpa. Se as mortes continuarem, prepare-se para ser massacrado pela mídia e pela opinião pública. É pegar ou largar, meu caro! – desafiou Ivan.

– Você com certeza tem um acordo com a Mônica para o caso de você ser preso. Ou talvez com mais gente. – acusou Valentim.

– Quê? Você acha que eu montei um grupo de assassinos para… Não! Não quero nem pensar pois quero ficar longe desse mundo paranoico que você criou. – disse Ivan.

– Paranoia ou não, você se afastou de São Paulo e no primeiro dia uma morte deixou de acontecer. – afirmou o policial.

– Simples, Valentim: não choveu.

– Ah, e você quer que eu acredite que o assassino foi bonzinho com você e te passou informações por simples afinidade?

– Valentim, onde você está com a cabeça? Você está surtando, cara! Vamos fazer assim: sai do meu quarto ou eu chamo a segurança. Duvido que você tenha um mandado para me prender e eu não vou me entregar.

– Eu consigo um em pouco tempo.

– Ótimo! Enquanto você tenta, vai conseguir comprovar que eu não sou nenhum assassino.

Valentim saiu do quarto e bateu a porta. Ivan encerrou a gravação e enviou para Mônica. Menos de uma hora depois, ela estava na porta da casa de Cesar. Após fazer muito barulho, ele atendeu:

– Mônica, o que você quer comigo a essa hora? Já não basta a desmoralização que você e seu pupilo fizeram?

– Cesar, eu preciso da sua ajuda.

– Ah! Parece que o jogo virou! Mônica Rodrigues pedindo a minha ajuda! Em que o Cesão aqui pode ser útil? Tá com saudade do meu corpo, é? Pois saiba que foi você quem impediu que ele continuasse a sua disposição e…

– Valentim descobriu onde Ivan está e foi lá ameaça-lo! – interrompeu Mônica.

– O que?

– Isso mesmo! E eu espero que você não tenha nada a ver com isso!

– Eu, Mônica? Eu jamais faria isso sem provas suficientes e sem um documento que me desse respaldo!

Cesar convidou Mônica para entrar e minutos depois eles estavam sentados no sofá da casa do policial. Ela abriu o arquivo de áudio e, ao final, Cesar disse:

– Esse cara é maluco! Aliás, me mande esse áudio e o local onde Ivan está que vou dar um jeito nisso assim que chegar no trabalho.

– Você tem que ir lá agora! – disse Mônica enquanto enviava o arquivo de áudio.

– Eu vou falar com a delegada para tirá-lo do caso. Deixe comigo!

Mônica abaixou a cabeça e então olhou para o policial e disse:

– Obrigado, Cesar! E desculpe por ter falado na TV sobre os detalhes do calendário do assassino. Achei que poderíamos ajudar as mulheres. – disse em tom de lamentação e, em seguida, em tom de provocação – Mas, ainda não entendi você ter ido no meu principal concorrente falar coisas que todo mundo sabia e apresentar conclusões óbvias.

– Para quem não tem nenhuma roupa, Mônica, qualquer trapo vira uma peça de grife.

– Você quis me provocar! Eu sei!

– E conseguiu!

Mônica levantou irritada:

– Não conseguiu coisa nenhuma!

Em um impulso, Cesar beijou Mônica intensamente e a derrubou na cama. Os dois só levantaram por volta de 11 horas da manhã, quando Mônica abriu o olho e disse:

– Estou atrasada! E não acredito que eu me rendi a você.

– Você não muda nunca, Mônica!

A jornalista levantou com pressa e foi para a TV Jaraguá.  Cesar chegou na delegacia por volta de uma da tarde e foi falar com a delegada:

– Eu sei do paradeiro de Valentim. Preciso de ajuda para destitui-lo do caso. Ele cismou que Ivan, aquele jornalista do “Tarde Viva”, é o assassino, descobriu o local onde ele está pois a TV suspeita que o assassino esteja na cola dele e foi até lá!

– Mas… O que tem na cabeça desse cara? – disse a delegada.

– Alguma coisa parecida com vento, eu suponho! – brincou Cesar.

– Chegaram umas informações novas sobre o caso. Por favor, cheque e mais tarde vamos resolver isso. Aliás, você tem o endereço do local onde o tal jornalista está?

– Tenho sim. Vou mandar junto com o áudio da conversa dos dois. Ivan gravou, enviou para Mônica e ela me passou.

Mais tarde, já por volta de sete da noite, Cesar foi chamado pela delegada e ela disse que os dois sairiam de São Paulo rumo ao litoral por volta de nove da noite. O policial continuou trabalhando no caso até o horário de partida combinado e às 22h30 eles chegaram no endereço indicado por Mônica.

Cesar desceu do carro, procurou o veículo de Valentim e não encontrou nada.

– Ele não está aqui.

– Vamos esperar! – disse a delegada.

Os dois aguardaram até cerca de 11 e meia da noite e então Cesar tentou ligar algumas vezes para Valentim e não conseguiu. Ele então ligou para Ivan e disse:

– Estou aqui embaixo. Eu sei que Valentim veio atrás de você.

– Por favor, suba! – disse Ivan.

Cerca de dez minutos depois, o jornalista abriu a porta e os dois policiais entraram.

– Valentim está aqui embaixo desde ontem. Deve ter saído para comer alguma coisa ou tomar um banho. Sei lá! Ele cismou que eu fugi para não ser preso pois eu sou o assassino de todas essas mulheres. E ele comprova isso com o fato de nenhuma mulher ter morrido no meu primeiro dia longe de São Paulo.

– Ele não pode fazer isso! – disse a delegada – Se um dia tivermos indícios suficientes contra alguém, essa pessoa será interrogada e, se necessário, presa preventivamente, mas não perseguida.

O interfone tocou e Ivan atendeu.

– Boa noite, Senhor Ivan! O Senhor Valentim está aqui em baixo novamente querendo falar com o senhor.

– Pode mandar subir, por favor. – disse Ivan.

– Pelo visto essa loucura está próxima de acabar! – disse Cesar.

Minutos depois, já perto de meia noite, a campainha tocou e Ivan abriu. Valentim entrou e disse:

– Mais uma noite se foi e, até o momento, nenhuma nova vítima. Justamente no segundo dia seu longe de São Paulo, Ivan! O que você tem a dizer?

– Ele não tem nada a dizer! – disse a delegada saindo do banheiro e sendo seguida por Cesar – Mas eu tenho uma coisa para te falar, Valentim: a sua brincadeira de gato e rato com uma suspeita infundada termina aqui.

Deixe uma resposta