Águas de Março – Capítulo 21

Ivan se aproximou de Valentim e disse:

– Cara, esquece isso. Até quando você vai continuar com essa tese absurda?

A delegada o interrompeu:

– Valentim, vamos embora agora.

– Eu não vou embora, delegada! Ivan é culpado sim! Tivemos alguma morte ontem? Não tivemos e sabe qual o motivo? O assassino não está na cidade.

– Valentim, você acha que se eu fosse o assassino e quisesse de fato sumir para não ser preso, eu estaria na televisão todas as tardes?

Cesar interrompeu:

– Valentim, chega! Vamos embora.

– Não, Cesar! Deixe ele aqui. Eu fiz um acordo com ele e vou reforçar aqui, na frente de todos: Se as mortes cessarem, eu assumo todos os assassinatos mesmo sem ter nenhuma culpa. Se as mortes continuarem, prepare-se para ser massacrado pela mídia e pela opinião pública. É pegar ou largar, meu caro!

– E precisa mesmo? Dois dias com você longe de São Paulo, dois dias sem vítimas.

A delegada interrompeu:

– Ivan, não posso deixar um policial aqui nessas condições. Você não é suspeito de nenhum assassinato e…

Valentim interrompeu:

– O último contato da última vítima foi com Ivan. Ele foi o último a vê-la viva!

– O que? Solange morreu? – perguntou Ivan.

– Sim. Você não sabia? – perguntou Cesar.

Ivan sentou na beira da cama e abaixou a cabeça. A delegada disse:

– Vamos embora, Valentim. E mais tarde te espero na minha sala.

Cesar saiu do quarto com a delegada e Ivan continuou sentado. Eles chegaram na rua e começaram a conversar:

– Você acha que Valentim vai embora? – perguntou a delegada.

– Duvido. Ele vai ficar aqui até provar que está certo. É teimoso! A teimosia dele ajuda muito na maioria das vezes, mas dessa vez só vai complicar as coisas. – disse Cesar

– Valentim confunde persistência com teimosia. A primeira exige sabedoria. A segunda não exige nada. Vamos embora, Cesar! Vamos procurar um hotel. Assim que o sol raiar eu resolvo isso.

Mais tarde, Cesar acordou e viu a delegada já pronta para viajar.

– Terei que ir a São Paulo. Só vou conseguir dar um basta no Valentim mais tarde. Preciso acertar uns documentos antes.

Eles voltaram para São Paulo e foram direto para a delegacia. Cesar foi para a sala de investigação e começou a avaliar o que tinha em mãos.

– Pau, pedra, beco, toco de madeira… Qual a lógica desse cara?

Logo depois pegou o celular, respondeu algumas mensagens e depois voltou ao trabalho. No meio da tarde, ele levantou, ficou observando a chuva pela janela por algum tempo e então disse:

– Hoje vamos ter alguma vítima. E, com essa chuva que não para, eu espero que seja apenas uma. Não estou preparado para uma chacina.

Cesar voltou ao trabalho, fez algumas ligações e então Mônica ligou:

– Boa tarde! Obrigado pelo que fez pelo Ivan. Acabei de falar com ele e soube que vocês estão resolvendo tudo.

– Mais do que isso, Mônica. Uma equipe de Santos vai vigiar Valentim enquanto não conseguimos os documentos que precisamos para tirá-lo de lá. A delegada está correndo com isso e acredito que ainda hoje vamos poder dizer que ele está fora desse caso e com licença de um ano para cuidar da loucura que o acometeu.

– Obrigado! E… É… Vou desligar! Obrigado, Cesar!

Cesar percebeu a titubeada de Mônica e disse:

– Não era só isso que você queri… – Mônica desligou a ligação e Cesar interrompeu o que estava dizendo.

Ele voltou ao trabalho pensando na noite anterior. Percebendo que a sua concentração estava toda em Mônica, ele foi até o banheiro e lavou o rosto. Voltou para a sala minutos depois e continuou trabalhando até que foi interrompido no início da noite por um policial que entrou apavorado na sala e disse:

– Investigador, temos uma nova vítima. A militar já está retirando o corpo do local, mas tenho fotos aqui no celular.

Ele mostrou as imagens para Cesar: uma jovem negra foi encontrada com uma touca vermelha na cabeça e com uma das pernas cortadas. Seu rosto estava queimado e na boca era possível perceber o resto de um cachimbo.

– Ele quis fazer uma espécie de saci feminino? E a outra perna?

– Ainda não sabemos da outra perna. Porém, a certeza que temos é que ela está morta já a alguns dias.

– Desde quando?

– Possivelmente desde o dia 18. Pedi para trazerem o cachimbo para a gente.

– Quem descobriu o corpo?

– Uma vizinha estranhou o silêncio. A vítima adorava cantar e sempre estava se apresentando nos bares da região onde ela morava. Além disso, cantarolava em casa enquanto estava limpando a casa. A vizinha estranhou ela ter parado de cantar, chamou a polícia e então encontraram o corpo.

A delegada entrou na sala, encontrou os dois conversando e interrompeu:

– Vamos para Santos. Essa nova morte desmonta toda a estratégia de Valentim.

Cerca de 40 minutos depois, na estrada, Cesar recebe outra ligação e a delegada atende. Ela conversa por alguns minutos e então desliga.

– Mais uma vítima encontrada. Ela foi morta com várias pancadas de madeira em formato de hélice. Parece estar morta desde o dia 20 pois foi a última vez que foi vista na rua.

– A tese de Valentim realmente foi por água abaixo mais uma vez! – disse Cesar.

Enquanto isso, Ivan estava deitado no sofá enquanto esperava o jantar. Valentim, do lado de fora do hotel, recebeu uma ligação falando sobre as duas novas vítimas encontradas e depois entrou no carro. Ele acionou o motor e saiu dirigindo sem rumo pelas ruas de Santos.

Horas depois, minutos antes de meia noite, ele parou o carro na frente do hotel e Cesar se aproximou dele:

– O jogo acabou, cara! Você vem comigo. Deixa o carro e vem!

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