Águas de Março – Capítulo 22

Valentim saiu assustado do carro e Cesar disse:

– Você ferrou a nossa vida, cara! O Ivan tem tudo na mão e tenho certeza que vai fazer o que prometeu.

– Mas, eu não prendi ele. – respondeu Cesar.

– Você pode não ter prendido, mas ficou aqui, plantado e vigiando. Mais um pouco você ia para o quarto dele e ficaria lá ameaçando uma com uma. A delegada Marina está na sua cola e é bem possível que você enterre a sua carreira de vez. O que você tem na cabeça, Valentim? – disse Cesar bastante irritado.

– Eu não sei! Eu fiquei desesperado. Eu vi aquelas mulheres todas morrendo e a gente sem saber para que lado ir. Aí algumas pistas começaram a apontar o Ivan e eu investi nisso. – respondeu Valentim.

– Investiu errado. Agora, eu não sei o que fazer para evitar que Ivan e Mônica ferrem com a gente. Ivan gravou a conversa de vocês, cara, e ele com certeza vai usar isso para destruir a sua reputação. Imagina a opinião pública caindo em cima da gente por acusar um repórter de assassinato sem ele ter culpa alguma! Ele estava aqui para se proteger e não para fugir.

– Eu vou ser preso?

– Não. Você vai ser afastado por um tempo. A Marina vai alegar insanidade temporária por causa da pressão em relação ao caso. Pelo menos assim a corja de jornalistas que vai aparecer na delegacia tem algo para se alimentar enquanto você fica em casa sem sair para nada por pelo menos 20 dias.

Valentim fechou o carro em que estava entrou no veículo de Cesar.

– E meu carro?

– Amanhã venho buscar. A delegada está te esperando até a hora que for necessário.

Pouco menos de uma hora e meia depois, os dois chegavam na delegacia. Valentim foi direto para a sala de Marina e Cesar saiu imediatamente para o local onde uma nova vítima tinha sido encontrada. Enquanto dirigia, Cesar disse para si mesmo algumas vezes:

– Idiota! Valentim é um idiota que quase estragou tudo!

Cerca de uma hora após sair da delegacia, ele chegou no local onde a vítima estava. Encontrou a mesma cena costumeira e, após se apresentar para o militar responsável pela ocorrência, abriu a mortalha: o rosto havia sido desfigurado com o auxílio de uma pedra e depois jogado do alto de uma ribanceira. Ao lado do corpo, a pedra usada no assassinato.

– Morreu do quê, além de todo esse absurdo que foi feito? – perguntou Cesar.

– Possivelmente afogada. Encontramos ela com a cabeça dentro do riacho. Certamente ele a fez adormecer e jogou o corpo aí ainda com vida e ela morreu algum tempo depois. – respondeu o policial.

– Que horas ela foi descoberta? – indagou Cesar.

– Pouco antes de meia noite.

– Como vocês chegaram até aqui? – perguntou novamente Cesar.

– O dono da casa de shows onde ela iria cantar por volta de nove da noite tentou contato pois deu o horário da apresentação e ela não apareceu. Então, uma jovem passou aqui após sair da casa do namorado e ouviu um barulho de celular tocando. Ela pensou ser um celular perdido, mas achou estranho o fato de ter uma espécie de pacote jogado na margem do rio e o barulho de um celular tocando vindo daquela direção. Ela então acionou a polícia.

Cesar pediu que mandassem as pedras para a delegacia, entrou no carro e foi até a casa de Mônica. Chegando lá, ligou para ela e disse:

– Não importa o que você diga, eu vou subir para conversar com você!

– Eu sei o que você quer. Podemos falar amanhã na televisão. Te espero às 13 horas no meu camarim.

Mônica desligou e avisou a portaria na sequência que não queria ser importunada por estar com forte dor de cabeça.

Mais tarde, às 11 da manhã, Cesar estava com a delegada Marina.

– Conversei com Valentim. Ele pediu desculpas, mas não tive o que fazer: 20 dias sem dar as caras na rua, um ano sem prestar serviço e depois, na volta, ele passa a fazer somente trabalhos administrativos em outra unidade. – disse ela calmamente.

– Delegada, Ivan vai jogar uma bomba atômica sobre a gente. Ele não vai mudar de ideia por nada.

– É o trabalho dele, Cesar. Temos que aceitar nos defender.

Por volta de meio dia, Cesar saiu da delegacia e uma hora depois estava no camarim de Mônica.

– Ora, ora! Pelo visto agora eu tenho as cartas. Eu sei o que você quer, mas só vou te dizer uma vez: não! Vou ajudar Ivan a destruir aquele idiota que mal sabe descobrir onde ele deixou a cueca após tomar banho e vocês ainda colocam para investigar uma série de crimes tão pesada! Onde vocês estavam com a cabeça?

– Mônica, eu faço qualquer coisa para você não fazer o que eu tenho certeza que você vai fazer daqui a pouco no seu programa. Eu me rendo. E não vou deixar você novamente quase acabar com a minha carreira.

– Muito bem! Vejo que está aprendendo a jogar. Faria qualquer coisa mesmo, investigador?

– Sim!

No início da noite, já na delegacia, Cesar detalhava para a delegada a conversa e Marina só conseguiu dizer:

– Exclusividade, Cesar? Não trabalhamos com isso, você sabe. Vamos dar um jeito nisso.

– Impossível. Ela gravou a conversa e disse que se houver qualquer deslize no acordo, ela vaza todos os áudios que ela tem, incluindo os de Valentim acusando Ivan.

– Essa mulher é podre. – disparou a delegada.

– Era isso ou teríamos a imprensa do Brasil inteiro na nossa porta.

Enquanto isso, Valentim estava em casa trabalhando na investigação mesmo estando oficialmente afastado. A delegada disse que ele estava proibido de mexer com qualquer coisa relacionada ao assunto, mas ele decidiu não seguir essa orientação e montou um pequeno escritório na sala.

– É aqui que vou chegar no assassino.

Ele conectou um pendrive ao computador e depois abriu uma planilha com os nomes de todas as vítimas, incluindo a que tinha sido descoberta horas antes em uma ribanceira. Apesar de oficialmente afastado, ele tinha amigos na Polícia Militar que passavam informações para ele sobre qualquer coisa.

Com a lista aberta, ele começou a mexer nos perfis de todas elas em todas as redes sociais e avaliar os estilos que gostavam de cantar. Fez diversas anotações na planilha que tinha e pouco antes de meia noite, ele deu um grito e disse:

– É isso! Estava na minha cara o tempo todo!

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