Águas de Março – Capítulo 23

Valentim levantou da cadeira e começou a andar pela sala. Ligou para Cesar e o policial o atendeu em tom mal humorado:

– O que foi, Valentim? Tô indo para uma ocorrência. Nem preciso dizer o que é.

– Eu fiz uma descoberta, Cesar!

– Valentim! A delegada não disse que você tem que ficar longe desse caso?

– Eu não consigo, Cesar. Eu preciso mexer com isso e…

– E perseguir quem não tem absolutamente nada a ver com isso? E inventar um culpado para poder corroborar as suas conclusões equivocadas? Valentim, fica longe disso. Eu estou te avisando. A Delegada Marina já está sendo gentil demais com você. Fica esperto.

Cesar desligou o telefone e Valentim pensou em ligar para Marina. Pegou o celular, olhou o número dela e desistiu. Ele acreditava que a delegada não veria a notícia da sua persistência no caso com bons olhos, assim como Cesar não viu. Valentim então deitou e começou a pensar no que poderia fazer.

Pensou em montar um blog ou até mesmo criar um perfil anônimo nas redes sociais para divulgar o caso e os resultados da sua investigação paralela.

– Isso vai complicar a minha vida ainda mais! – disse para si mesmo.

Ele então fechou os olhos e ficou esperando o sono chegar. Enquanto isso, Cesar chegou no local do crime e encontrou uma equipe da Polícia Militar o aguardando.

– Dessa vez nem desmontamos o cenário. Esperamos você chegar para ver o absurdo.

– Como descobriram?

– Os jovens passam por aqui voltando de uma faculdade próxima. Um deles foi até o canto escuro para urinar e quase urinou na vítima. Ele está desesperado! – disse o policial apontando um jovem sendo atendido por uma unidade do Samu.

– Mas, precisou mesmo chamar o Samu?

– Era isso ou teríamos outro óbito. – disse o policial militar com um sorriso no rosto.

Cesar então acendeu a lanterna do celular e começou a observar a vítima. Ela tinha uma máscara de esfinge sobre a cabeça, escondendo o rosto. Ele tentou tirar, mas percebeu que ela estava colada no rosto da vítima.

– Isso parece absurdo demais. Não dá para acreditar que estamos falando da mesma criatura. – disse Cesar.

– Tudo indica que sim: morte, dia de chuva e rosto deformado ou, neste caso, em vias de ser deformado. – afirmou o militar.

– Pelo visto não vamos saber nunca quem é esse louco e ficaremos aguardando o gran finale desse circo. Ele não deixa pistas, sempre ataca onde não tem câmera de segurança, ninguém nunca vê nada, nenhuma vítima teve comportamento estranho antes de morrer.

– Uma hora esse maluco dá uma brecha. Pode acreditar!

Cesar voltou para o carro e foi para casa. Tomou um banho e logo depois deitou e ficou olhando para o teto até conseguir dormir.

No meio da tarde de sábado, Valentim estava deitado no sofá quando recebeu o nome completo da nova vítima. Ele então conferiu o perfil dela nas redes sociais e fez uma anotação na planilha que tinha criado. Pensou em ligar para Cesar, mas desistiu.

Enquanto isso, Mônica chegou em Santos e foi direto para o hotel onde Ivan estava hospedado.

– Belo local, hein? Vista para o mar e tudo. E ótimo serviço de quarto que eu sei… – comentou a jornalista.

– Mas, o que adianta se eu não posso arredar o pé daqui?

– Você não sai para nada? – perguntou Mônica.

– Às vezes saio, mas sempre disfarçado.

– Eu acho que não precisa de tanto cuidado. O nosso maluco de estimação só ataca em São Paulo. Aqui estamos a salvo. – disse Mônica se jogando na cama.

– É, mas você esqueceu de que temos outro maluco tentando me incriminar?

– Valentim é carta fora do baralho. Ele foi afastado do caso e da polícia por pelo menos um ano. Tive que fazer um acordo com Cesar para não levar ao ar o caso da perseguição e em troca ele participa do programa todos os dias para comentar sobre as investigações.

– Nossa! É por isso que você pediu para eu não falar nada ainda sobre isso?

– Sim. Mas, vim aqui também para te transferir de hotel. Não podemos deixar o Valentim à solta sabendo onde você está hospedado. Arrume suas malas e vamos sair.

Duas horas depois, Ivan e Mônica estavam em outro hotel. Ela entrou na frente e ele foi logo atrás:

– Uau! Essa ainda é melhor que a outra.

– Só espero que Valentim não me descubra aqui.

– Tomaremos todos os cuidados e outros mais! – disse Mônica.

Os dois aproveitaram o resto da tarde e início da noite para conversarem sobre o planejamento do programa na semana seguinte e por volta de nove da noite, Mônica disse:

– Estou exausta! Vamos pedir algo para comer.

Entre pratos e bebidas, eles aproveitaram o momento livre para um papo mais descontraído e Mônica disse:

– Você leva jeito para apresentar um talk show, sabia? Vamos cavar essa possibilidade na TV assim que esse maluco deixar de atacar ou assim que ele for preso. O que acontecer primeiro.

Mônica em seguida desceu na recepção para acertar a hospedagem de um quarto para ela passar a noite. Decidira dormir em Santos e voltar para São Paulo somente no domingo à tarde.

Quando voltou para o quarto, pouco antes de meia noite, encontrou Ivan desligando o celular e com um olhar sinalizando estar bastante intrigado.

– Valentim acabou de me ligar. Ele está em Santos e disse que quer falar comigo.

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