Águas de Março – Capítulo 24

– Como é que é, Ivan? Valentim quer falar com você a essa hora? Diga a ele que o espero amanhã na TV Jaraguá. Esse otário não vai atrapalhar tudo novamente pois eu não vou deixar.

– Mônica, vamos dar uma chance a ele. Sinto que tem alguma coisa aí.

– E trazê-lo aqui? Aí ele descobre onde você está hospedado e novamente vai tentar protagonizar aquele roteirozinho idiota de filme americano que ele criou e ficar na porta do prédio te vigiando. Ivan, me poupe! Nos poupe!

Ivan ligou para Valentim e disse que não poderia encontra-lo. O policial então respondeu:

– Se você não descer, eu subo. Ninguém aqui neste hotel sabe que eu estou afastado. Eu preciso muito falar com você!

– Valentim, eu… é… eu saí para comer alguma coisa. Me espera aí na porta que daqui a pouco eu volto e conversamos. – disfarçou Ivan.

– Ok! Eu vou te esperar. – respondeu Valentim desligando o telefone.

– Parabéns, Ivan! Você acabou de cair nas garras desse maluco novamente! – disse Mônica aplaudindo ironicamente.

– Mônica, ele disse que ia dar um jeito de subir no quarto dizendo que era policial. E tudo o que não queremos é que ele descubra que eu não estou mais naquele hotel. Correto?

– Você tem razão. Próximo passo: encontrar algum lugar para levar o maluco.

Os dois saíram do hotel onde estavam e foram até o antigo endereço temporário de Ivan. Encontraram Valentim dentro do carro e ele disse:

– Vamos subir?

– Hum, é melhor não. Aquele dia você causou confusão demais e recebemos uma notificação do hotel. – disse Ivan.

– Entre no meu carro e vamos dar uma volta. No caminho conversamos.

Valentim entrou no veículo e Mônica deu partida.

– Eu espero que o que você tem a dizer seja realmente importante. Eu ainda não engoli aquela papagaiada toda que você fez e só não queimei teu filme pois isso vai atrapalhar as investigações e todos queremos esse assassino na cadeia. – disse Mônica.

– Eu só vim até aqui pois sei que prejudiquei muito o Ivan e esta é a minha forma de pedir desculpas. Tenho uma nova pista sobre com o assassino age que pode ajudar a salvar vidas.

– E… Por qual motivo você não falou com Cesar ou a delegada? – questionou Mônica.

– Estou proibido de mexer com qualquer coisa relacionada a esse caso. Se fizer isso, vou sofrer severas punições. Tentei falar com Cesar, mas ele não quis me ouvir. – explicou Valentim.

– Bem, então diga o que você descobriu.

Enquanto isso, em algum lugar de São Paulo, Vanessa encerrou o show cantando Aquarela do Brasil. Durante os aplausos, ela recebeu um guardanapo dobrado de um dos garçons e dentro dele um pedido: “Águas de Março”.

– Pessoal, antes de encerrar eu queria muito agradecer o carinho e atenção de vocês e dizer que infelizmente não poderei atender a nenhum pedido de música pois está tarde e o pessoal do bar precisa encerrar o expediente. Mas, semana que vem estarei novamente aqui e prometo abrir o show com uma linda canção que me foi pedida hoje: “Águas de Março”. Beijo, gente! Até semana que vem!

Vanessa saiu do palco e foi para um cubículo na parte detrás do palco que todos chamavam de camarim. Recebeu o dinheiro da apresentação em um envelope, guardou na bolsa, colocou uma blusa fina para se proteger do vento gelado que soprava do lado de fora e saiu do bar.

Ficou na calçada esperando um carro que havia chamado pelo aplicativo e então um veículo parou, o motorista abriu o vidro e disse desligando o carro:

– Você tem uma voz linda. Pena que não quis cantar Águas de Março. Tenho certeza que ficaria linda no seu timbre com a sua interpretação leve e doce.

– Muito obrigada! Mas, eu não tive escolha. O pessoal do bar já estava me olhando feio…

– Ah, sim. Compreendo! É como diz a letra: “é o queira ou não queira”. – disse o motorista rindo.

– Exato! – Vanessa riu junto.

A cantora olhou no celular e viu que o carro ainda estava longe. Ela então perguntou:

– Foi você quem pediu a música no final?

– Sim, fui eu! – o motorista respondeu.

– Espero que esteja aqui semana que vem. Vou abrir a apresentação com ela. – ela disse.

– Você parece meio aflita. Está tudo bem? – disse o motorista.

– Estou esperando um carro pelo aplicativo e ele está demorando. Estou exausta e quero chegar em casa. – explicou Vanessa.

– Entra aí. Eu te levo. Prometo não te fazer nada de mal. Se quiser, faça uma foto da placa do meu carro e mande para algum parente. – prontificou-se o motorista.

Vanessa aceitou a proposta e entrou no carro. O motorista deu a partida no veículo enquanto ela cancelava o carro no aplicativo. Quando terminou a tarefa, disse o endereço para o motorista e ele disse:

– Perfeito! Sei chegar lá sem mapa. Conheço bem aquela região.

Ele dirigiu por cerca de 20 minutos e então parou o carro em uma praça abandonada. Vanessa achou aquilo estranho e perguntou:

– O que estamos fazendo aqui? Você parou o carro…

– Fique tranquila. Vai ficar tudo bem. Só parei para verificar uma coisa no porta-luvas. – disse ele abrindo e tirando uma injeção.

– Você se droga? – disse Vanessa assustada.

Ela tentou sair do carro e descobriu que as portas estavam trancadas. Ele então pegou uma arma que estava embaixo do banco e disse puxando gatilho e apontando o cano para o rosto da cantora:

– Se você fizer qualquer coisa que chame a atenção, vou ser obrigado a ser mais enfático. Estou te dizendo que vai ficar tudo bem! Agora, me dê seu braço. Não vai doer, é uma injeçãozinha de nada! – disse o motorista com um sorriso nos lábios.

Enquanto Vanessa estava hipnotizada com o cano da arma, ele rapidamente aplicou a injeção no braço da artista e ele então abaixou a arma.

– Por favor, me deixa em paz… Pode levar o dinheiro do show… – disse ela antes de tombar desacordada.

– Não é o dinheiro que eu quero… – disse o motorista dando partida no veículo.

Horas mais tarde, Mônica estava na entrada de um hotel em Santos. Valentim saiu e ela disse:

– Muito bem! Espero que tenha tido uma ótima noite e descansado bastante.

– Consegui sim, Mônica! Muito obrigado! – disse Valentim.

– Não precisa agradecer. Você me deu uma informação valiosa! Amanhã corro o risco maravilhoso de liderar a audiência. Tem coisa melhor?

– Eu só não posso ser creditado como fonte da descoberta ou estarei ferrado!

– Fique tranquilo! Ivan vai assumir a culpa, se é que podemos chamar assim! Aliás, conte com a gente quando precisar divulgar alguma coisa sobre a investigação paralela que está fazendo. Vai ser um prazer ajudar.

Mais tarde, pouco antes de meia noite, Vanessa abriu os olhos e viu que estava em um quarto todo iluminado, com móveis brancos e aparentemente sem janelas e portas. Ela levantou da poltrona onde estava e viu o motorista de costas e sentado em uma cadeira preta, contrastando com o ambiente todo branco.

– Onde estou? – ela quis saber.

O homem então virou a cadeira e Vanessa percebeu que ele estava nu.

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