Águas de Março – Capítulo 25

Vanessa correu para um canto do cômodo e ele levantou e foi até perto dela cantarolando um trecho da canção Águas de Março:

– É o queira ou não queira. É o queira ou não queira. É o queira ou não queira. É o queira ou não queira…

Ele então parou de andar e ficou observando ela se encolher em posição fetal. Depois, disse:

– É o queira ou não queira e pelo visto você não quer ou não gosta.

– Eu tenho nojo de você! – disse Vanessa.

– Temos uma insolente aqui. Não sabe onde está nem quem sou eu e insiste nessa prepotência. Sugiro abaixar a bola…

Ele então colocou uma cueca e abriu uma geladeira que estava em um dos cantos. Ele tirou um lanche e levou até perto dela.

– Eu não quero! – ela disse com medo de ser uma armadilha.

Ele novamente começou a cantarolar um trecho de Águas de Março:

– É o queira ou não queira. É o queira ou não queira. É o queira ou não queira…

Logo depois ele passou a falar em um tom mais sério e disse:

– Você não tem o que querer. Coma esse lanche!

– Eu estou sem fome! – ela conseguiu dizer ainda amedrontada.

Ele então abriu novamente a geladeira, pegou uma caixa de suco, retirou o lacre, abriu e colocou em um copo. Mais confiante, ela aceitou e deu alguns goles na bebida. Ele então sentou novamente na cadeira e ficou a observando.

– Quer mais suco? Beba à vontade!

Ela então pegou mais um copo e bebeu vorazmente.

Ele mais uma vez começou a cantarolar um trecho de Águas de Março:

– É o queira ou não queira. É o queira ou não queira. É o queira ou não queira…

Logo depois ele voltou a falar em um tom mais sério e disse:

– Vamos, cante comigo!

Vanessa então começou a cantarolar:

– É o queira ou não queira. É o queira ou não queira. É o queira ou não queira…

Logo depois ela sentiu o corpo começar a amolecer e desmaiou em seguida. Ele então sorriu e disse:

– Injeção na caixa sempre funciona. Só espero que ela acorde bem pois tomou quase metade da caixa de suco e eu caprichei na dose. A dose certa? Não… Duas vezes o necessário é suficiente para o que eu preciso!

Vanessa acordou muitas horas depois, já por volta de duas da tarde. Ela se sentiu zonza e viu a geladeira no canto do cômodo. Procurou o motorista e não o encontrou. Então, ela passou a procurar uma saída e também não encontrou. Então, ela ouviu uma voz vinda de um sistema de som:

– Desista de procurar, Vanessa! Mesmo que você queira, eu não quero te mostrar a saída. Aproveite a estadia e descanse…

Vanessa deu um grito e a voz voltou:

– Não grite tanto! Isso prejudica a voz e você sabe bem disso!

Um enorme telão se acendeu em um canto da sala e ele disse:

– Divirta-se! Estou por aqui quando precisar.

A vinheta do programa Tarde Viva passou na tela e logo em seguida Mônica apareceu sorridente:

– Boa tarde, amigas e amigos! Está no ar mais um “Tarde Viva” e hoje vamos direto com o nosso repórter refugiado para uma revelação bombástica! Boa tarde, Ivan! Temos uma importante revelação para fazer hoje, não é?

– Isso mesmo, Mônica! – respondeu Ivan – Mas, antes, vamos fazer uma retrospectiva desse caso que está intrigando a todos!

Mônica segurou o caso ao longo do programa e no início da última hora, ela chamou Ivan novamente e o jornalista então lançou:

– Nossa investigação paralela aponta que todas as vítimas até o momento cantaram a canção Águas de Março pouco antes de morrer em suas apresentações.

Na delegacia, Cesar foi chamado pela delegada alguns segundos depois dessa revelação:

– Cesar, Mônica não falou sobre a perseguição de Valentim, mas veja isso.

Cesar olhou para a TV e viu Mônica e Ivan falando sobre a nova descoberta. Ele ficou sem reação e somente conseguiu dizer:

– Eu vou agora na TV Jaraguá.

– Não faça isso. Deixe a poeira abaixar. Vão nos perguntar sobre isso e nós iremos dizer apenas que não é uma pista da investigação oficial. E você, Cesar, faça o que Mônica te prometeu ou teremos um problema muito sério quando ela abrir a boca sobre a perseguição alucinada de Valentim.

No cativeiro, Vanessa assistia ao programa e não conseguia pensar em nada. Ela entendeu o motivo de estar presa ali. Ela quis gritar novamente mas não teve forças. Apesar de ser cantora, ela não tinha cantado Águas de Março em nenhuma de suas apresentações até o momento e também compreendeu o motivo do pedido inusitado de música feito horas antes. Por fim, ela entrou em desespero quando percebeu que esteve face a face com o famigerado assassino por tantas vezes.

O telão desligou por alguns segundos e na sequência ligou novamente e começou a passar as imagens do videoclipe da versão de Águas de Março interpretada pela primeira vítima, Tamara Leão. O material ficou rodando repetidas vezes infinitamente até que ela gritou:

– Eu não quero mais ouvir isso!

Ele então desligou o telão, suspendeu a exibição do vídeo e mais uma vez começou a cantarolar um trecho de Águas de Março, desta vez no sistema de som:

– É o queira ou não queira. É o queira ou não queira. É o queira ou não queira…

Vanessa percebeu que uma fina fumaça começou a tomar conta do ambiente e em seguida ela sentiu o corpo ficar mole até que desmaiou. Ela acordou poucos minutos antes de meia noite e encontrou ele sentado novamente na cadeira e olhando para ela.

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