Águas de Março – Capítulo 26

Cesar saiu tarde da delegacia e foi até a casa de Mônica. Ela tinha acabado de tomar banho quando o interfone tocou com o porteiro anunciando a presença do policial.

– Pode deixar subir. Quero muito conversar com ele.

Cesar tocou a campainha do apartamento de Mônica em menos de 2 minutos depois. Ela atendeu e ele entrou falando:

– Que loucura é essa de dizer que todas as vítimas interpretaram “Águas de Março”?

– Temos uma investigação e um levantamento paralelo, Cesar! E eu espero você amanhã no meu programa para falar sobre isso.

– Ah, mas isso eu não vou fazer! – revidou Cesar.

– Se você insistir em não ir, terei que levar ao ar uma história sobre um certo policial que estava vigiando um jornalista da minha equipe sem mandado e nem provas, apenas uma suspeita idiota. Talvez isso fique no ar durante todo o programa e toda a mídia vai escorraçar vocês dois e aquela delegadazinha. – disse Mônica.

– Você não muda nunca, Mônica! Sempre se apega a alguma coisa para chantagear e conseguir alguma vantagem.

– Este é o meu jogo, Cesar! Fico surpresa que você ainda não tenha aprendido a jogá-lo e viva criticando as regras. Já tá na hora de você superar isso.

Enquanto isso, Ivan caminhava impaciente pelo quarto do hotel onde estava hospedado. Estava aflito com toda a situação e mais aflito ainda por estar longe de tudo. Ligou o computador e começou a olhar a lista de vítimas e a relação de como os crimes tinham sido executados.

– Pau, pedra, beco… Tem que ter alguma coisa aqui!

Ele abriu o frigobar e pegou uma cerveja. Abriu a garrafa e foi para a varanda beber e apreciar a visão noturna que tinha do mar.

Na manhã seguinte, Vanessa acordou com o corpo dolorido. O café estava servido em um canto do cômodo e ela preferiu não comer para evitar que fosse novamente dopada. Foi quando ela ouviu a voz dele no sistema de som:

– Você tem que comer. Sabe como uma cantora precisa ter energia para cantar. E quero que você cante para mim.

– Eu não quero cantar para você! – ela disse em tom arredio.

– Você não consegue entender que eu estou no comando, não é?

– Vai fazer o quê? Continuar cantando aquele único trecho de Águas de Março? Você só sabe cantar isso? Não consegue ir além? Se quiser se divertir, monte seu repertório e…

– Chega! – gritou ele.

Vanessa se encolheu no chão e sentiu o estômago doer de fome.

– Ou você para com essa insolência e essa prepotência ou nem São Pedro, o santo que dizem mandar e desmandar no tempo, vai conseguir te ajudar.

Vanessa se encolheu ainda mais no chão e ele parou de falar com ela. Percebendo o silêncio, ela cedeu: foi até o canto onde ele tinha deixado o café da manhã e começou a comer. Quando terminou, sentiu o corpo fraquejar novamente e então deitou no chão onde estava e adormeceu.

Mais tarde, Ivan acordou, tomou café e voltou ao trabalho que tinha começado na noite anterior. Ele lia e relia a lista de vítimas sem conseguir chegar a resultado algum. Após quase uma hora, ele desistiu e foi tomar um banho. Depois, trabalhou na pauta do programa que ia ao ar naquele dia e, ainda mais tarde, se preparou para entrar no ar.

Enquanto isso, o avô de Vanessa, um homem com pouco mais de setenta anos, chegava em um distrito policial para registrar o desaparecimento da neta.

– E o senhor não veio antes por qual motivo?

– Ela morava sozinha, doutor. Tem a vida dela, é independente. Mas, todo dia a gente se falava e tem dias que ela não atende ao telefone. Aí hoje fui no prédio e o porteiro disse que ela não aparece lá faz tempo. Ela era uma menina doce, muito adorável!

– O senhor tem uma foto dela? Ajuda muito o nosso trabalho.

O avô entregou uma foto que tinha na carteira e disse:

– Essa é recente. Foi do aniversário dela. A primeira vez que fizemos uma foto depois da morte da avó dela. Ela adorava minha mulher. Orfã de pai e mãe, sabe? Perdeu os dois quando não tinha nem lembrança ainda, só sabe como era o rosto dos dois por causa das fotos. Eu e minha mulher criamos ela como a filha que a gente não teve. Só tivemos um menino, o pai da Vanessa, e ele casou, teve ela e morreu em um acidente com a esposa pouco menos de um ano depois dela nascer.

Ele disse isso e começou a chorar. O policial se comoveu com a história e disse:

– Meu senhor. Vamos fazer o possível para localizá-la.

– Muito obrigado, moço!

– Pode me chamar de Paulo. Vou anotar o número do senhor e ligar sempre que tiver alguma novidade, ok?

– Muito obrigado! Muito obrigado mesmo!

O “Tarde Viva” foi ao ar e uma hora após o término do programa, Ivan caminhava na areia observando o início da noite quando viu uma cantora se apresentando solitariamente para uma plateia invisível. Diversas pessoas passavam por ela enquanto se exercitavam ou caminhavam sem rumo assim como jornalista. Nenhum deles parecia dar atenção, mas ela não parecia se importar: continuava a apresentação como se estivesse no palco de uma gigante casa de shows.

Usando uma caixinha de som como banda e o celular como regente e produtor, ela fazia caras e bocas durante a interpretação e Ivan decidiu se aproximar para tentar ser solidário e transformar aquela tarefa em algo menos solitário.

Quando chegou perto, ela agradecia a plateia invisível pela atenção e disse:

– E para encerrar meu número musical, vou cantar um grande sucesso do nosso cancioneiro.

Os acordes iniciais soaram bastante familiar para o jornalista: era Águas de Março, famosa faixa de Tom Jobim.

– Ai, gente! Fiquei um pouco nervosa e vou recomeçar! – disse a intérprete reiniciando a faixa instrumental que usava como base para sua apresentação.

Ivan observava a jovem e percebeu que ela estava um pouco tímida com a presença dele. Ele então se afastou, continuando a caminhada e, após alguns passos, ouviu a jovem cantar:

– É o pau, é a pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um pouco sozinho, é um caco de vidro, é a vida, é o sol…

Ivan então voltou e começou a olhar com mais apreensão para a apresentação musical. Quando ela terminou de cantar, ele caminhou por mais uns trinta minutos voltou para o hotel, jantou e deitou para assistir um filme.

Quando o relógio marcava quinze minutos para a meia noite, ele ligou o computador e voltou a trabalhar na lista de vítimas. Instintivamente, o jornalista começou a jogar o nome de cada uma delas no Google para ver se descobria mais alguma coisa.

Sem conseguir tirar da mente a apresentação musical que vira horas antes, ele disse para si mesmo:

– Se essa daí morasse em São Paulo, a essa hora já estaria morta.

Ele então deu uma risada tímida e começou a cantarolar baixinho enquanto mexia na lista de vítimas:

– É pau, é pedra, é o fim do caminho…

Neste ponto da canção, ele ficou sério e, com o olhar fixo na tela do computador, disse para si mesmo:

– Eu não acredito!

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