Águas de Março – Capítulo 28

Paulo então perguntou para o homem:

– O que você viu?

– Eu vi ela entrando em um carro branco após conversar com o motorista por algum tempo. Não lembro as letras da placa do carro, mas sei que a parte com números era 6250.

– Muito interessante. Que horas eram? – questionou Paulo.

– Era bem tarde, depois da meia noite.

– E você viu a direção que o veículo foi? – perguntou o policial.

– Ele foi em direção à região de Perdizes, mas não sei se ele mudou de caminho depois.

– O senhor viu mais alguma coisa? Ela parecia nervosa quando entrou no carro?

– Não. Ela estava sorrindo. – disse a testemunha.

– Onde tudo isso aconteceu?

A testemunha indicou o endereço e Paulo anotou no celular. Em seguida, o policial agradeceu e o homem se afastou. Paulo voltou para dentro da delegacia, fez algumas anotações e depois foi embora.

Por volta de uma hora da manhã, Vanessa abriu os olhos e percebeu que estava novamente sendo observada pelo estranho homem que se fez de fã e depois se transformou em seu sequestrador. Ela fechou os olhos e fingiu dormir novamente. Ele a observou por mais algum tempo e depois sentou na cadeira e começou a olhar as notícias na tela do celular.

– Hum… Então começaram a descobrir algumas coisas sobre mim. É pau, é pedra… E em breve será o fim do caminho para essa aí. Mas, antes vamos brincar um pouco mais de “queira ou não queira”. – disse para si mesmo.

Vanessa ouviu o monólogo e quis chorar: estava em poder do serial killer que assombrava a cidade há um mês e não podia fazer nada a não ser esperar a morte certa. Ela controlou a ansiedade e começou a traçar um plano mentalmente para tentar enganar o assassino. Ela sabia que estava em uma situação bastante arriscada e vulnerável e que qualquer esperança, por menor que fosse, seria uma chance dela conseguir sair viva disso tudo.

– Ele quer brincar de “queira ou não queira”. Seja lá o que for isso, toda vez q eu digo não querer, ele fica irritado. Vou tentar fingir querer. – pensou.

Vanessa novamente abriu os olhos e ele estava mexendo no celular. Ela tentou se levantar e ele olhou para ela assustado:

– Não te vi acordando. Aliás, quando eu entrei você parecia estar com os olhos abertos e olhando param mim. Estava mesmo ou o que eu vi foi uma enorme encenação de uma atriz incompetente de quinta categoria?

– Estava mesmo com o os olhos abertos? Não lembro de nada.

– Bom, isso pouco ou nada importa agora.

Ela levantou cambaleante e foi em direção à geladeira que tinha no cômodo. Pegou um pouco de suco e um dos vários sanduíches que estavam guardados. Comeu vorazmente e ele, percebendo, disse:

– Você precisa se alimentar. Mas, fica nesse joguinho idiota de não querer nada do que eu quero te oferecer. O resultado é esse mesmo…

– É o queira ou não queira, é o vento vetando, é o fim da ladeira – Vanessa cantarolou baixinho.

– Sua voz é linda. Pena ter recusado meu convite de cantar aquele dia no encerramento do seu show.

– Eu peço desculpas. Estava tarde e o pessoal do bar estava querendo fechar. Quis ser solidária a eles e não cantei. Mas, posso cantar para você se conseguir arrumar um microfone para mim. Sou muito supersticiosa e só canto quando estou devidamente equipada. – disse Vanessa.

– Se você for uma boa menina de agora em diante, eu vou ver se trago um microfone para você cantar para mim.

– Eu estava um pouco nervosa e ansiosa. Agora estou mais calma e a adrenalina abaixou. – justificou a cantora.

Vanessa terminou de comer e deitou novamente.

– Se você não se incomoda, eu vou dormir mais um pouco. – disse.

– Faça como quiser. Você é minha hóspede, apesar de não ter vindo para cá sob livre e espontânea vontade. E, como hóspede, quero que fique bem e faça o que desejar desde que obedeça as regras da casa.

Vanessa deu um sorriso e fingiu adormecer. Ficou assim por algum tempo e depois dormiu de verdade. Mais tarde, por volta de meio dia, ele estava olhando por uma janela em um ambiente próximo ao quarto onde Vanessa estava. Ele viu a chuva começar a cair e então se voltou para um grande armário e começou a falar consigo mesmo:

– Hoje vamos brincar de queira ou não queira. Dardos envenenados serão as estrelas desse meu jogo onde a única certeza é a morte. Caso ela queira as coisas que eu oferecer, uma pergunta de conhecimentos gerais e um dardo para cada resposta errada. Caso ela não queira as coisas que eu oferecer, dois dardos arremessados sem precisar responder nenhuma pergunta.

Ele voltou novamente para a janela e viu que a chuva tinha cessado.

– As cartas estão lançadas. Essa pequena estiagem não significa nada! A chuva decide o destino de cada uma e ela já sinalizou o que devo fazer com essa daí… Agora, é me preparar para a próxima vítima. Março ainda tem alguns dias e em primeiro de abril será o meu gran finale: o meu dia de fúria.

Bem mais tarde, já no início da noite, ele jantou e depois observou pelo computador como estava a sua próxima vítima. Ela estava acordada olhando para o nada e então ele esperou ela dormir para entrar no cômodo por meio de uma passagem secreta localizada atrás de um enorme sofá.

Lá dentro, Vanessa olhava discretamente para todos os cantos em busca dessa saída e não encontrava.

Lá fora, ele estava dando os últimos retoques em seu jogo mortal enquanto esperava ela dormir.

Por volta de onze e meia da noite, ele olhou nas câmeras e Vanessa dormia. Ele então entrou no cômodo e sentou novamente na sua cadeira. Ele então a acordou e disse:

– Acho que você dormiu demais hoje.

– Nossa! Eu estava exausta! Emendei vários dias de apresentações, um após o outro. Durmo facilmente quando fico aqui pensando em tudo.

– Pensando no quê? – ele quis saber.

– Ah, em tudo. Eu lembro, por exemplo, que no primeiro dia, logo que acordei e te vi, você estava nu e disse que talvez eu não gostasse. Mas, hoje eu posso dizer que sim, eu gosto e quero. Você é meio misterioso, não deixa tudo às claras. Adoro caras assim.

Ela chegou perto dele e tirou a camisa dele.

– Vamos? – ela convidou.

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