Águas de Março – Capítulo 29

O sequestrador, achando aquilo muito estranho, se afastou e disse:

– O que você quer?

– Quem tem que fazer essa pergunta sou eu. Ou você acha que eu esqueci quando você estava totalmente sem roupa na primeira vez que nos vimos? – ela disse.

– Você não quis nada aquele dia.

– Eu estava assustada. Mas, mesmo assim eu não pude deixar de reparar em você.

– E gostou do que viu?

– Tem como não gostar? – ela disse de maneira sedutora.

Ele ainda estava duvidando, mas Vanessa estava decidida.

– Você é solteiro? – ela perguntou.

– Não. E não quero falar sobre isso. – disse ele.

– Como você quiser. Vamos falar de coisas mais alegres.

– Vamos jogar. O prêmio no final será meu, mas vai ser divertido brincar com você.

– Podemos fazer coisas mais divertidas que jogar. E podemos ainda realizar uma vontade sua.

O sequestrador começou a beijar Vanessa desesperadamente. Asco e ódio se misturavam e ela se viu obrigada a segurar todos esses sentimentos e simular estar sentindo prazer. Vinte minutos depois, quando ele finalmente terminou de usar o corpo dela como ele queria, Vanessa queria chorar, mas segurou com força a dor que vinha de dentro e rasgava a alma e disse:

– Uau! Você é muito bom nisso! Adorei! – elogiou Vanessa.

– Eu estou exausto! Você tem muito gás e quase não consigo te acompanhar. – ele confessou.

– Você também não é fraco e me deixou sem fôlego. – ela disse.

– Hahahaha! Muita delicadeza da sua parte.

– Eu preciso dormir. Essa nossa brincadeira me deixou cansada e tenho certeza que foi mais divertida que o jogo que você queria fazer. – disse Vanessa

– Hum… Não tenho certeza! Porém, não desisti da brincadeira. Só não vamos brincar agora. Vou descansar um pouco antes disso. Você realmente me deixou exausto! – disse ele.

– E como seria essa brincadeira que você quer propor? – disse Vanessa cheia de medo por dentro, mas simulando um tom sensual na voz.

– Não tem graça se eu revelar as regras antes. – ele afirmou.

– Ah! Queria me preparar para o jogo.

– Na hora do jogo eu te explico tudo. Agora, vou descansar. Sugiro que você faça o mesmo.

Ela entendeu o recado e foi deitar no colchão que usava como cama. Ele, por sua vez, sentou no sofá e ficou observando Vanessa deitar e, algum tempo depois, dormir. Logo que ela pegou no sono, ele pegou os dardos e os demais itens que tinha levado para o jogo e saiu pela passagem atrás do sofá.

Quando ouviu o som do sofá voltando à posição original, Vanessa abriu os olhos. Se viu sozinha no cômodo usado para seu cativeiro e então se cobriu totalmente e chorou por longos minutos. Sabia que o sequestrador estava dormindo e então tentaria fugir durante o repouso dele e usando a passagem secreta.

Levantou instintivamente e foi até o sofá. Depois, foi na geladeira, pegou um pouco de água e começou a beber para se acalmar. Olhou para o chão e viu um dos dardos que ele tinha levado para a tal brincadeira, não consumada graças ao falso interesse que ela fingiu ter em seu sequestrador.

Apesar de precisar seguir em frente com a simulação, não sabia se conseguiria fingir tão bem novamente, e então pegou o dardo e viu que ele tinha uma agulha na ponta e um líquido claro dentro dele. Imaginou se tratar de algum veneno ou calmante e então colocou o dardo cuidadosamente embaixo do colchão.

Ela deitou novamente e começou a traçar um plano para sair do cativeiro, mas antes precisava aplicar o líquido do dardo em seu sequestrador para ter mais tempo na empreitada. De repente, ela começou a sentir um cheiro estranho no ar e poucos segundos depois ela perdeu os sentidos. Só conseguiu abrir os olhos já no meio da tarde e viu que ele estava sentado no sofá, esperando por ela somente de cueca.

– Hum… Vejo que está querendo me provocar. – ela disse espreguiçando.

– Não é o objetivo, mas se você se sente assim, fico muito feliz.

– Vem cá! – disse Vanessa.

– Não! Só trouxe algo para você comer. Depois, descanse pois iremos finalmente jogar logo mais. Te encontro à meia noite em ponto. E como talvez essa seja a sua última refeição por aqui, trouxe um banquete especial. Divirta-se!

Vanessa gelou por dentro. Segurando o medo, ela abriu as marmitas que ele tinha levado e viu salada, arroz, feijão e salmão.

– Adoro isso! Salmão é o meu peixe favorito! – disse alegre.

– O meu também! E esse ainda está com molho de mostarda e mel. Esse almoço vai te ajudar a ter bastante energia para a nossa brincadeira de logo mais.

Vanessa foi até ele e disse:

– Eu queria brincar com você agora. Repetir aquele jogo gostoso da madrugada. Depois você almoça comigo e à noite jogamos o que você quiser.

Vanessa começou a perceber que sua encenação estava fazendo efeito e foi adiante. Começou a beijá-lo loucamente e ele aos poucos cedeu ao desejo. Ele tirou a roupa dela com violência e vontade quase selvagem e transaram ali mesmo no sofá. Quando ele terminou, se jogou em cima do corpo de Vanessa e disse:

– Por que você está fazendo isso?

– Eu sou uma mulher que sabe apreciar um belo homem. – ela disse sorrindo.

Ele saiu de cima dela, vestiu a cueca e disse:

– Almoce. Vamos precisar ter energia para mais tarde.

Vanessa se vestiu e depois obedeceu a ordem do sequestrador. Depois, deitou novamente no colchão e adormeceu. Ele saiu do cômodo e então ela abriu os olhos. Novamente se cobriu, chorou copiosamente sentindo um nojo imenso de tudo o que estava precisando fazer para sobreviver e então novamente sentiu um cheiro estranho no ar e poucos segundos depois ela perdeu os sentidos novamente.

Fora do cômodo, ele riscava o nome de Vanessa em uma lista e começou a cantarolar:

– É o queira ou não queira… É o queira ou não queira… É o queira ou não queira…

Vanessa acordou por volta de onze e meia e se viu sozinha no cômodo. Não sabia que horas eram, mas sabia que aquela era a hora de tentar executar seu plano. Sabia que, independente do resultado, estaria morta em poucas horas e queria pelo menos tentar se salvar.

Ela pegou o dardo embaixo do colchão, tirou o short que usava e o embrulhou, ficando apenas de calcinha e camiseta. Rapidamente foi até o sofá, afastou e então viu a portinhola usada para entrar no cômodo. Era preciso se abaixar e quase deitar no chão para passar pela passagem e Vanessa precisou empurrar o sofá para facilitar a fuga. Atrás do móvel, ela viu uma corda que servia para puxá-lo para o lugar.

Ela tentou abrir a portinhola e viu que estava trancada. Não insistiu, pois sabia que faria barulho e iria complicar as coisas. Ela colocou o sofá no lugar e deitou em seu colchão, escondendo o dardo novamente. Fechou os olhos e começou a pensar no avô e disse para si mesma em tom de desespero:

– Pai, mãe! Estou indo encontrar vocês! Não é do jeito que eu queria, mas o que me conforta é saber que vocês estarão do outro lado para me receber.

Minutos depois, ela ouviu o barulho da portinhola sendo aberta e fingiu dormir. Ele empurrou o móvel, entrou e disse:

– Não precisa fingir que está dormindo. Aliás, eu também sei fingir e adoro fazer de conta que estou sendo enganado. Levante-se! Vamos começar o jogo final!

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