Águas de Março – Capítulo 30

Vanessa olhou assustada e ele então continuou:

– Não adianta mentir! Eu sei que você estava fingindo esse tempo todo. Aliás, me entregue o dardo que perdi. Sei que está com você.

Vanessa pegou o dardo embaixo do colchão e entregou para ele. O sequestrador então colocou o objeto em cima da cadeira e depois respirou fundo, dando uma risada malévola logo em seguida.

– Pronto! Assim fica melhor. A sua obediência talvez diminua a sua dor!

Vanessa, em pânico, disse:

– Eu nunca cantei Águas de Março. – disse Vanessa.

– O que você quer dizer com isso? – ele questionou.

– Antes de eu morrer, eu posso cantar para você. O que acha? É por isso que aquele dia eu não cantei. Tinha medo de errar em uma faixa tão importante, ainda mais sendo pedido de alguém apaixonado por música. É uma responsabilidade muito grande! – ela afirmou tentando ganhar tempo.

– Agora não tem mais “É o queira ou não queira”. Agora é só o que eu quero!

– É pau, é pedra, é o fim do caminho… – começa a cantar Vanessa.

Ele fica hipnotizado com a voz dela. Ele então diz:

– A sua voz é bem doce. Não tenho nenhuma versão assim… Para! Eu vou gravar. Além da sua voz ser bem doce, é a primeira vez que você canta. Eu… eu tenho uma coleção de versões dessa música e ainda não tenho a versão de alguém que esteja cantando pela primeira vez. Mas… Como você sabe cantar se nunca cantou?

– Eu… Eu… Meu avô sempre ouve essa música e eu acabei aprendendo. Se você conseguir uma letra para eu seguir, prometo tentar não errar.

Ele ligou um enorme telão em um canto do cômodo, espelhou a tela do celular no equipamento, colocou em um site de letras de músicas e disse:

– Pronto! Divirta-se!

Vanessa começou a cantar e o celular dele tocou.

– Espere. Vou atender a essa ligação e depois você continua.

Ele se afastou dela enquanto conversava com alguém e dizia coisas como:

– De hoje não passa. Eu sei disso. Mas, vamos continuar com a lista mesmo após o mês de março acabar? O quê? Nunca! Isso jamais!

Enquanto isso, Vanessa se aproximou lentamente da cadeira e pegou novamente o dardo envenenado. Ela voltou para o lugar onde estava e colocou as mãos para trás enquanto ele ainda esbravejava ao telefone:

– As coisas não precisam ser como você quer. Não… Eu não vou meter os pés pelas mãos. Quem começou com isso foi você, eu topei e, agora que gostei, quero terminar do meu jeito e não do jeito que você está planejando.

Ele desligou o telefone e foi até Vanessa.

– Pronto! Pode continuar.

– Antes, eu queria beber um pouco de água. Minha garganta está um pouco seca e isso talvez interfira na qualidade da gravação.

– Ah, claro! Vou pegar água para você na geladeira.

Ele se afastou e ela começou a fazer alguns exercícios vocais, como se estivesse se aquecendo. Depois, ela começou a cantarolar a letra de música como se ensaiasse:

– É pau, é pedra…

Enquanto ele enchia um copo com água, ela mirou o dardo nas costas dele e o jogou, acertando pouco abaixo da nuca enquanto cantarolava:

– É o fim do caminho…

Ao sentir o dardo, ele virou para ela e disse sorrindo:

– Você realmente acha que eu estou com medo? Eu sei o que tem em cada dardo e sei quanto tempo cada substância vai demorar para fazer efeito. Além disso, você está assustada e fragilizada como todas as outras ficaram quando souberam que a morte estava, como dizemos hoje em dia, quando a morte estava dando match nelas.

– Você é um ridículo! – ela disse.

Ele retirou o dardo e disse:

– Vamos direto ao jogo final. Depois dessa sua brincadeira idiota, não tenho muito tempo antes do efeito e não quero mais gravação nenhuma. Além disso, você vai embora desse mundo com sede! – ele disse jogando o copo no chão.

– Eu não vou embora de lugar nenhum. – ela disse correndo em direção aos demais dardos e pegando o embrulho – E se você se aproximar, vou jogar todos esses dardos em você.

– Vamos, garota! Não torne as coisas mais difíceis. Você não tem escolha: seu destino é um só e será com os dardos ou com esse brinquedinho aqui.

Ele tirou um revólver que estava guardado nas costas, na altura da cintura.

– Por que você está fazendo isso? – ela disse começando a chorar.

– Eu me divirto com isso. Aliás, a vítima mais divertida foi você. Além do medo, consegui duas ótimas gozadas.

– Seu nojento! – ela disse.

Ele começou a se sentir estranho e ela, percebendo que a mão dele já não estava mais tão firme quando antes, começou a cantar observando-o fixamente:

– É o queira ou não queira… É o queira ou não queira… É o queira ou não queira…

Ele deixou o revólver cair e, em um impulso certeiro, ela chutou a arma para o outro canto do cômodo. Ele foi atrás, tropeçou e tentou se levantar, caindo novamente. Ela então afastou o sofá, abriu a portinhola e saiu do cativeiro. Saiu correndo pela casa e tentou sair, mas percebeu que todas as fechaduras eram eletrônicas e só conseguiria liberar se tivesse a senha.

Enquanto isso, Ivan procurou Cesar para falar sobre a sua suspeita:

– Eu lembro, cara, que todos na redação achamos muito bizarro alguém colecionar versões de uma mesma música. Fizemos uma longa reportagem com ele na época e eu lembro que, no dia da gravação, ele não me parecia muito normal.

– Ivan, não me venha com seus achismos. Veja o caso de Valentim e onde os achismos colocaram ele.

– Eu não tenho nada a perder, Cesar!

– Mas eu tenho, Ivan! Eu tenho uma reputação que levei anos para reconstruir. Eu poderia estar muito melhor se não fosse… Ah, deixa prá lá! Vá embora daqui, Ivan! Guarde as suas suspeitas para o programinha que você e sua chefe fazem. Ou, quem sabe um dia você e Valentim não escrevem um livro de ficção? Criatividade não vai faltar, hein?

Ivan sai da casa de Cesar e vai até Valentim. Após ouvir Ivan, ele responde:

– Parece uma coisa meio maluca, mas nenhum serial killer é normal. Eu topo. Estou ferrado mesmo. O máximo que vai me acontecer é ter que prestar serviços administrativos na polícia.

– O único problema é que eu não lembro do endereço dele. Mas, se você for até a Praça da Sé, eu consigo lembrar o caminho que fizemos.

Tamo junto nessa, Ivan!

Valentim pegou duas armas e entregou uma para Ivan:

– Para a nossa segurança. Apenas mire e atire! Só não pode mirar em mim.

– Eu nunca atirei e não sou muito bom de mira. – disse Ivan.

– Vai aprender na prática!

Já era cerca de 4 da manhã quando Paulo, o policial responsável pela investigação do sumiço de Vanessa, chegou ao local do cativeiro após extensa investigação e avaliação de câmeras de segurança e depoimentos. Ao chegar lá, vê o portão da casa fechado e, após subir no carro, consegue pular o muro. Ele bate na porta e Vanessa, desesperada por não conseguir sair:

– Quem está aí?

– Polícia! Quem é você?

– Eu sou Vanessa!

– Tenha calma, Vanessa! Eu estou te procurando. Seu avô registrou o seu desaparecimento e eu comecei a investigar. Saia daí!

– Eu não consigo sair. A casa está trancada e as fechaduras são eletrônicas.

– Vou tentar invadir. – ele disse.

– Por favor, seja rápido! Ele está adormecido e não sei quanto tempo temos.

Ele então começa a andar em volta da casa e procura uma janela para estourar. Ao chegar na cozinha, percebe que consegue entrar pela janela e estoura os vidros. Ele então consegue abrir a janela e vai até a sala e encontra Vanessa.

– Você está bem?

Ela o abraça e só consegue dizer:

– Eu quero sair daqui!

– Onde ele está?

– Lá dentro. Está sob efeito de alguma substância. Ele queria arremessar dardos envenenados em mim e consegui pegar um e arremessar nele.

– Saia pela janela da cozinha. Deixe o resto comigo.

– Tenha cuidado! Ele é o responsável pelo assassinato de todas essas mulheres no mês de março. Ele é maluco.

Vanessa foi para a cozinha e saiu pela janela. Paulo começou a caminhar lentamente em direção ao local indicado por Vanessa enquanto ligava para a delegacia e pedia reforços. Ele entra no cativeiro e vê o sequestrador caído no chão, como se estivesse dormindo. Ele avalia o ambiente e então liga para a delegada Marina. Após ouvir toda a história, ela diz:

– Não saia daí. Vou mandar o investigador Cesar até aí.

Paulo então vai até Vanessa e diz:

– Está tudo sob controle. O cara está dormindo e tem uma equipe vindo para cá, incluindo o investigador do caso do serial killer. Esse já era!

Enquanto isso, Ivan liga para Mônica, avisa sobre o caso e ela diz:

– Passem aqui. Vou com vocês.

Cesar chegou ao local do cativeiro por volta de 7 horas da manhã. Poucos minutos depois, o carro com Ivan, Valentim, Mônica e um cinegrafista da TV Jaraguá chegou. Cesar viu o grupo saindo do carro e disse:

– Tem algum circo por aqui ou os palhaços erraram o endereço?

– Seu mau humor não vai atrapalhar o nosso trabalho, Cesar!

Paulo havia conseguido estourar a fechadura da entrada principal e então todos conseguiram entrar por lá. Ele passou as informações para Cesar e disse:

– Meu trabalho encerra aqui. Eu só precisava encontrar Vanessa, mas tivemos sorte e encontrei o maluco que estava à solta.

– O importante, Paulo, é que agora vamos ter um doido a menos para perseguir. Ótimo trabalho! Deixe que eu assumo a partir daqui.

Paulo levou Vanessa até o carro e ela disse:

– Por favor, me leva prá casa do meu avô.

– Precisamos cumprir algumas formalidades antes de te liberar. Mas, seu avô já foi avisado e estará te esperando dentro de meia hora.

Ela sorriu agradecida e os dois seguiram até a delegacia.

Na casa, Mônica assumiu a cobertura do caso e disse:

– Vamos gravar primeiro aqui fora e depois dentro do local do cativeiro.

– Mônica, vamos gravar lá dentro antes e aproveitar que o maluco está desmaiado.

– Cesar, entre no cativeiro com a gente. Vai ser muito bom para a sua carreira uma entrevista assim.

Todos entraram no cômodo que servia de cativeiro e viram o sequestrador ainda deitado no chão. Valentim observou todo o local e Cesar disse:

– Se Marina souber que você está aqui, se prepare para limpar privada em alguma delegacia do interior do estado.

Mônica também observava tudo enquanto o cinegrafista captava imagens do local.

– Como é o nome dele, Ivan? – quis saber a jornalista.

– Daniel, se não me engano.

– Cesar, o que vai acontecer com o Daniel agora que foi identificado como suspeito de todos os crimes bárbaros envolvendo diversas mulheres ao longo do mês de março? – disse ela levando o microfone até a boca do policial e esperando uma resposta.

Cesar se virou para ela com um olhar macabro e começou a rir.

Deixe uma resposta