Águas de Março – Capítulo 31 [Final]

Cesar e Daniel estavam sentados na sala enquanto comiam uma pizza. Cesar, bastante irritado, disse:

– Você botou tudo a perder. Temos agora uma apresentadora, um repórter, um cinegrafista e um policial afastado em cativeiro. Daniel, não tem jeito! Você precisa se entregar e depois a gente dá um jeito de alegar insanidade e você sai de lá. Você tem curso superior. Tenho certeza que até consegue prisão domiciliar. O pessoal lá de Brasília consegue com currículos piores que o seu.

– Você quer se dar bem à custa da minha prisão, Cesar.

– Ué, mas não foi esse o combinado, cara? – disse o policial em tom de surpresa.

– Sim, mas não estava combinado que eu seria o culpado. – reclamou Daniel.

– A coisa saiu do nosso controle, Daniel! E, no mais, você não fez como eu disse. – disse Cesar.

– Eu tentei tecer a narrativa de que o repórter seria o culpado. – justificou Daniel.

– Cheia de furos, eu diria. Nem minha avó acreditaria. Aceite que você falhou. Eu estou há mais tempo que o necessário aqui. A delegada vai mandar alguém a qualquer momento para averiguar o motivo de eu ainda estar aqui. Disse que você está algemado em um cômodo enquanto eu estou coletando evidências, que são muitas. Mas, ela não deve acreditar nisso por muito tempo.

Daniel se levantou e disse:

– Eu não vou me entregar. Vou pegar um carro, ir embora daqui agora e você se vira, Cesar!

– Você realmente não mudou nada! Sempre foi um fraco que não se recuperou nunca do primeiro pé na bunda e hoje vive colecionando itens que lembram àquela puta que você namorou.

– Marcela foi uma ingrata. – disse Daniel.

– Ingrata ou não, hoje você vive aí, colecionando essa porra de música que ela adorava cantar e matando essas mulheres todas pois em todas elas tem um pouco da putinha da Marcela.

– De todas, a que mais me lembrou Marcela foi a última, a Vanessa.

– A que você se apaixonou e deixou fugir? – provocou Cesar.

– Antes transamos duas vezes…

– Parabéns, você fez tudo que não deveria ter feito, panaca!

Daniel pegou uma arma que estava em cima da mesa, apontou para Cesar, e disse:

– Meça as palavras antes de falar comigo, Cesar!

Dentro do cativeiro, Mônica, Ivan, Valentim e o cinegrafista começavam a acordar. Ivan disse:

– Eu não acredito no que está acontecendo.

– Pode acreditar, Ivan! Somos personagens de uma história macabra. Cesar tramou tudo isso para ter algum destaque relevante e tentar algo melhor para a própria carreira.

– Mas, não entendo o motivo dele agir desta forma! – disse Valentim.

– Cesar sempre foi assim. No passado tivemos um caso quando ainda era uma repórter em ascensão. Ele me usava para estar sempre em evidência na mídia até que um dia, quando ele estava quase sendo se tornando investigador chefe, ele fez uma revelação que aceleraria sua promoção. Eu conversei com meu chefe na época e fui forçada a revelar o nome da fonte. Era isso ou seria demitida e teria a carreira arruinada ou deveria recomeçar a carreira em algum canal de TV local nos confins do interior de São Paulo.

– E o que você fez? – perguntou Ivan.

– Eu revelei o nome dele. Cesar terminou comigo e nunca mais tivemos a mesma relação. – disse Mônica.

– Mas, ele ainda assim continuava me ajudando e isso te ajudava indiretamente. – disse Ivan.

– Não sei o jogo dele. Mas, seja lá qual for, estamos hoje aqui, a caminho da morte e nada disso importa mais.

– Cesar é esperto demais. Ele observa, traça, joga histórias no ar esperando que alguém as confirme. – disse Valentim.

– Pude perceber isso com a história dos revólveres. Como ele poderia saber que nós dois tínhamos uma arma? – questionou Ivan.

– Ele me conhece suficientemente bem para saber que eu não estaria sem arma e teria te armado por motivos de segurança.

– Nada disso importa mais. Precisamos saber como iremos sair daqui. Com certeza estaremos mortos, mas eu adoraria sair ainda viva. No céu não tem emissora de TV e dificilmente eu terei um programa vespertino por lá. – ironizou Mônica.

– Precisamos de um plano! – disse Valentim.

– Que sacada genial! – disse Mônica em tom de deboche.

– Eu não consigo pensar em nada. – disse Ivan.

– Eu tenho a solução! – disse o cinegrafista.

Do lado de fora, Cesar olhou para Daniel e disse:

– Calma, cara!

– Você não vai me humilhar mais, Cesar!

– Eu não preciso te humilhar, Daniel! Você faz isso sozinho! – em um golpe violento, Cesar tira a arma das mãos de Daniel – Era esse o seu grande trunfo? Não tem mais, babaca! Agora, pare de idiotice.

Daniel respira fundo e Cesar continua:

– Você é um fraco. Tanto que até hoje lamenta a perda da putinha Marcelinha. Ela deu para mim e para metade do bairro pois ela quis. E você até hoje se lamenta. Trinta anos depois! Matar essas mulheres era a sua redenção, cada uma delas tem um pouco da Marcela. Você só precisava criar uma narrativa e colocar a culpa em qualquer desconhecido. E, digamos, criar narrativa hoje em dia é algo fácil e qualquer um acredita. Te dei uma lista de pessoas, nenhuma delas era o Ivan. Você foi burro! Agora, Marcela continua por aí, viva na Vanessa e em tantas outras que você não vai mais conseguir matar pois a prisão te espera.

Cesar fez uma pequena pausa, respirou e então continuou:

– Você viu o olhar de todas essas mulheres pedindo piedade? Não parecia com o olhar da Marcela caso você tivesse levado a cabo seu plano de acabar com a vida dela quando ela te largou logo depois de você descobrir que a vida sexual dela era mais movimentada que a sua quando vocês estavam juntos?

– Cala a boca, Cesar!

– Eu não vou calar e nem vou medir as palavras com você, Daniel! Você é um merda, assuma isso de uma vez por todas!

– Chega, Cesar!

– Você falhou de novo, Daniel! Marcela agora está por aí, Vanessa está por aí. Todas as mulheres estão por aí e você aqui, se lamentando por causa de um pé na bunda! E agora tem uma lamentação nova: não conseguiu criar uma narrativa para culpar alguém e teve que virar culpado.

– Eu vou acabar com você! – disse Daniel.

– Você não tem forças nem para impedir que umazinha qualquer como a Vanessa te acerte com um dardo. Vai acabar comigo como?

Cesar então mudou o tom da conversa e disse:

– Vamos, seu merda! Precisamos entrar dentro do cativeiro e dar um susto nos nossos amigos.

– Vamos mata-los?

– Antes, vamos nos divertir com eles um pouco.

– Como assim? – quis saber Daniel.

– Este só não é o crime perfeito por sua causa, eu já isso disse por duas vezes e não quero repetir mais nenhuma. Chega! Sua participação encerra aqui. Eu sei o que fazer e só eu sei o que fazer. Vamos entrar e resolver isso de uma vez por todas. Estou exausto e cansado da sua cara e da cara de todo mundo que está lá dentro. – esbravejou Cesar.

Os dois caminharam até a portinhola que dava acesso ao cômodo que servia de cativeiro. Daniel entrou e Cesar foi logo atrás.

Do lado de dentro, Mônica foi a primeira a ir ao encontro dos dois logo que entraram:

– Finalmente vocês deram as caras. Acho que, mesmo sabendo que iremos morrer, vocês nos devem respeito.

– Ah, Mônica! Você sempre com esse seu ar de superior, de dona da verdade. Já está na hora de você abaixar a bola! – disse Cesar.

– Eu conheço seus métodos, Cesar! – disse Mônica.

– Você pensa que me conhece! – disse Cesar.

– Aliás, que maneira ridícula de parecer relevante. Assuma seu papel de policial mediano e viva feliz.

– E você, Mônica? E você que vai terminar a carreira apresentando um programinha escroto na grade de uma emissorazinha de TV de segunda categoria?

– Pelo menos eu bato as metas de audiência sem precisar forjar histórias e situações. Eu não preciso influenciar alguém com sérios transtornos mentais para que ele cometa uma série de crimes para que eu vire o investigador de uma história pavorosa e, no final, saia como herói. Isso é doentio, Cesar!

– Doentio é o que você faz, Mônica! Esse trabalho de abutre!

– Isso se chama trabalho, Cesar! Isso se chama garantir o sustento de diversas famílias. Eu não firo e nem assassino ninguém com o meu trabalho. Você, ao contrário, terminou com a vida de várias mulheres e destruiu outras tantas famílias.

– Querendo pagar de preocupada agora, Mônica? O que está acontecendo? Não foi você quem quase destruiu a minha carreira? Não lembra?

– Eu fui forçada a fazer aquilo. Já te falei!

– E eu não acredito!

– Parem vocês dois! – gritou Daniel.

Cesar se virou para Daniel:

– O quê? É isso mesmo? A fraqueza em pessoa querendo me dizer o que fazer?

– Chega, Cesar!

– Essa sua ousadia pode custar caro, Daniel!

– Eu já estou pagando um preço alto demais estando aqui.

– A coisa não era para ser assim, você sabe! Quer que eu repita pela terceira vez? Pois eu vou repetir. Matar essas mulheres era a sua única chance de fazer alguma coisa realmente útil na vida, ao invés de colecionar versões idiotas de uma música igualmente idiota!

– Te ajudar a ter evidência, você quer dizer. – interrompeu Mônica.

Cesar ignorou e continuou:

– Você só precisava criar uma narrativa e colocar a culpa em qualquer desconhecido. E, digamos, criar narrativa hoje em dia é algo fácil e qualquer um acredita. Te dei uma lista de pessoas, nenhuma delas era o Ivan. Você foi burro! A coisa começou a desandar quando o babaca do Valentim começou a desconfiar da pessoa que menos teria capacidade de matar alguém nessa vida. Ivan não mata uma mosca, aliás, Ivan é um bosta que vive à sombra da chefinha dele.

– Não fale assim do Ivan! – interrompeu Mônica.

Cesar novamente a ignorou e continuou:

– Todos aqui são uns bostas.

– Você está querendo dizer que o único realmente útil aqui é você? – interviu Mônica novamente – Eu diria que isso é um tanto presunçoso.

– Chega, Mônica! Você só manda naquele programinha que você faz à tarde. O chefe aqui sou eu.

– Deve ser uma glória para você finalmente liderar algo, ser o mentor intelectual de crimes tão cruéis e com motivo totalmente torpe, não é? Finalmente o senhor Cesar, o policial que não conseguiu nenhuma relevância ao longo de dez anos de carreira, vai ter alguma importância na vida. Ser o responsável por encontrar um assassino que ele mesmo criou. Isso deve fazer um bem enorme para o seu ego de profissional mal sucedido.

– Mônica, eu já disse para você calar a boca! Aqui quem manda sou eu!

Cesar disse isso e apontou a arma para a cabeça de Mônica.

– Mônica, quantas vezes eu vou ter que falar para você calar a merda dessa boca? Se você disser mais alguma coisa, eu não vou hesitar em te silenciar à força.

Cesar olhou para Daniel e continuou:

– Veja o olhar de pânico na cara dela mesmo que seja nítida a tentativa dela demonstrar o contrário. É o mesmo olhar que você viu em todas essas mulheres. É um olhar de quem pede piedade!

– Chega, Cesar! – disse Daniel.

– Seja homem pelo menos uma vez na vida! Aprenda a lidar com o fracasso, Daniel! Com mais um fracasso, no caso. O que você conseguiu até hoje? Uma casa? Uma coleção de arquivos com diversas versões da música que a Marcela gostava de ouvir?

– Chega, Cesar! – disse Daniel quase chorando.

– Ah, vai chorar? Eu não esperava nada além disso de você. Chorar!

– Cesar, chega! – disse Ivan.

– Ah, o jornalistinha resolveu falar também?

– Você não está bem, Cesar! Vamos parar por aqui. – disse Ivan.

– Você é o que menos tem a falar aqui, Ivan. Sempre viveu submisso, nas barras da sua chefe.

– Não é bem assim, você sabe!

– É bem assim, sim. Você sempre viveu de restos ou de bondades alheias. Na faculdade, era a sexta ou sétima opção de todas as meninas quando elas te colocavam na lista de opções. Elas passavam por mim, mais alguns e, finalmente chegavam em você. Isso quando não passavam pela faculdade inteira e aí decidiam encerrar com você.

– Eu não entendo o motivo de tanta agressividade, Cesar!

– Ah, Ivan! Você é outro perdedor idiota. E eu cansei de você. Um bosta que não sabe nada, um aprendiz de abutre sem coragem para nada.

– Chega, Cesar! – disse Ivan.

– Olha aqui, Ivan! – disse Cesar colocando a arma na cabeça do jornalista – Quem decide quando tudo isso termina sou eu. Você não manda em absolutamente nada, nunca mandou e não vai ser agora que vai conseguir ser dono de alguma coisa.

– Cesar, se você matar a gente, o que você ganha com isso?

– E quem disse que eu vou ser o responsável por matar vocês? Você não acha que um banho de sangue seguido do suicídio do assassino não é uma ótima narrativa?

Longe dali, a delegada Marina, sem contato com Cesar há horas, liga para Paulo, o policial que realizou o resgate de Vanessa:

– Paulo, tudo bem?

– Tudo ótimo, delegada!

– Preciso da sua ajuda. Cesar até agora não voltou do local do cativeiro, não atende ao celular e estou sem notícias. Estou bastante preocupada. – disse a delegada.

– Isso realmente é muito estranho. – afirmou Paulo.

– Consegue guiar uma equipe minha até o local?

– Vou pedir autorização para um superior, mas acredito que consigo sim.

– Deixa que eu faço isso. – disse Marina.

Minutos depois, ela ligou novamente e disse:

– Falei com o delegado Jorge. Uma equipe minha vai passar aí e você vai ser o responsável por guia-los. Muito obrigado pelo apoio, Paulo!

Cerca de meia hora depois, Paulo embarcava em direção ao local do cativeiro. Dois carros seguiam o veículo no qual ele estava. Ao todo, 12 policiais estavam na ação.

– É um local de difícil acesso. Mas, a gente consegue chegar.

Enquanto isso, na casa, Ivan olhou para Cesar e disse:

– Você é doente, cara! Eu acreditei que você estava querendo me ajudar, mas na verdade você estava me usando para conseguir uns minutos de fama!

Cesar começou a rir e disse:

– Eu te usei de duas formas e você só conseguiu perceber uma! Tá vendo como você é fraco e facilmente enganado?

Cesar fez uma pausa e continuou:

– Eu te usei para atacar Mônica. Eu sabia que ela tomaria uma atitude ao ver que você conseguiria informações que ela não tinha acesso diretamente. E tomou: te transformou no repórter queridinho dela, para que você não saísse nunca da asa do programazinho que ela apresenta.

– Ivan foi promovido de produtor a repórter pelo conjunto da obra. E em breve se tornaria apresentador eventual do meu programa.

– Eu disse para você ficar calada, Mônica!

– Você precisa aprender que as pessoas têm vontade própria e você não consegue controlar tudo. – disse Mônica.

– Você só promoveu o Ivan para ele não aprender a voar sozinho. Se isso acontecesse, você deixaria de ter informações exclusivas e o “Tarde Viva” deixaria de existir em pouco tempo. E seu ego ficaria como ao ver um projeto seu sair do ar?

– Você quer que eu responda que ele ficaria igual ao seu ao ver o plano da sua vida começar a ruir como estamos vendo? Pois eu digo outra coisa: digo que eu iria tirar férias e trabalhar em outro formato. Ao contrário de você, eu nunca precisei forjar nada nem menosprezar ninguém para conseguir chegar a algum lugar.

Cesar foi até Mônica e disse:

– Não precisou forjar nada? E o tesão que sente por mim e sempre precisou forjar não sentir nada para não dar o braço a torcer? Abaixe a crista, Mônica! Seu orgulho ainda provocar a tua morte e ela está bem próxima, eu diria!

Cesar disse isso e passou o revólver na cabeça de Mônica.

– Bem… Mais alguém tem mais alguma coisa a dizer antes de eu começar o gran finale? Estou exausto e tenho certeza que enfrentarei uma maratona de entrevistas após o encerramento desse caso. E você, Daniel, vai finalmente ser útil para alguma coisa.

Valentim, que até então estava quieto, disse:

– Acho que seu plano não é tão perfeito assim, Cesar!

Cesar se vira para Valentim e diz:

– E por qual motivo não seria, seu aprendiz de qualquer coisa? Ou poderia te chamar de Dom Quixote, aquele que vive lutando contra moinhos de vento que julga serem dragões assustadores.

– Ok, Cesar! Comece a lançar seus ataques contra mim.

– Veja a merda que você fez. Começou a perseguir Ivan, Marina, uma sonsa que não presta nem para ter um marido por mais de um ano, te afastou… Aliás, Valentim! Ser afastado pela Marina? Como você conseguiu essa proeza? Ser afastado pelo cabide de empregos mais evidente da delegacia!

– Tem mais? Continue! – provocou Valentim.

– Você realmente pareceu ser capaz de algo quando começou a descobrir algumas coisas. Mas, não foi além disso. Começou a perseguir o cara errado e deu no que deu. Aliás, com 10 anos de polícia, você é outro exemplo de profissional fracassado, que vai do nada para o lugar nenhum. – respondeu Cesar.

– O mesmo nada que você habita por tantos anos e tenta desesperadamente sair criando um plano mirabolante para conseguir alguma relevância? – provocou novamente Valentim.

– Não adianta usar as armas que uso para tentar me atacar, Valentim!

– Não estou usando nada contra você, Cesar. Estou apenas questionando. Não precisa responder se não quiser ou se não conseguir. – provocou Valentim, percebendo que Cesar começava a se desestabilizar.

Valentim então deu um passo para o lado e Cesar apontou a arma para ele.

– Fique parado.

– Eu só dei um passo para o lado, Cesar. Nada mais! – respondeu Valentim.

Mônica se intrometeu:

– Vocês dois parem! É a mim que o Cesar quer atacar. Então, venha! Acabe comigo, mas deixe todos os outros vivos. Ivan tem uma carreira brilhante pela frente. Valentim é muito inteligente e também tem muito a fazer neste mundo. E as imagens que o Roberto, nosso cinegrafista, capta são as melhores do mundo. Eu sou apenas uma mulher que daqui a pouco começa a ficar velha para o vídeo e terei que sofrer verdadeiras mutações no rosto para continuar na frente das câmeras. Cesar se aproximou de Mônica e colocou a arma na cabeça dela.

– Pelo visto alguém está se rendendo. – provocou Cesar.

– Não. Eu quero que você libere todos os outros. Sua mágoa toda é por minha causa. Ninguém merece pagar com a vida por causa disso.

Enquanto o diálogo entre eles acontecia, centralizando todas as atenções, Valentim sorrateiramente dava pequenos passos para o lado e conseguiu se aproximar de Daniel. Ele segurou-o na frente do corpo como se fosse um escudo enquanto tirou uma arma da cintura.

O revólver pertencia ao cinegrafista. Ele sempre tinha uma arma no carro para se defender e decidiu portá-la com ele nessa missão por temer que alguma coisa pudesse acontecer. “A gente nunca sabe da loucura dos outros”, ele dizia sempre.

– Chega, Cesar! Seu plano acaba aqui! – disse Valentim.

Cesar se virou para ele e disse:

– Nossa! Parabéns! Nota 10 no treino de agilidade. Pena que seja tão debilitado quando o assunto é inteligência.

– Você não vai conseguir me atingir, Cesar!

– Verbalmente talvez eu não consiga. Mas, sou treinado para dar tiros certeiros e não tenho dúvida da minha pontaria.

– Eu não duvido da sua pontaria, Cesar. Aliás, se tem alguém que duvida de alguma coisa aqui é você. No passado eu duvidei da pessoa errada, mas hoje eu tenho certeza de uma coisa. Sua carreira acaba aqui. Mesmo que você nos mate, sua reputação vai deixar de existir em pouquíssimo tempo.

– Ah, é? E o que você vai fazer? Chamar a mamãe para pedir socorro?

– Eu não preciso me esconder atrás de alguém nem forjar nada para conseguir algo, Cesar. Consigo tudo por mérito próprio!

– Ah, você realmente consegue as coisas por mérito próprio. Você conseguiu ser afastado do caso por mérito próprio, inclusive! Eu nem precisei fazer nada quando você começou a descobrir coisas demais.

– Sua carreira acaba aqui, Cesar! É só o tempo da delegada Marina ouvir o áudio que a Mônica acabou de mandar para ela.

Cesar virou para Mônica e ela estava com um sorriso malévolo no rosto.

– Você esqueceu a lição número 1 de todo policial, Cesar: nunca confiar, sempre revistar!

Do lado de fora da casa, Paulo e os outros policiais chegavam e arrombavam o portão. Ele começou a guiar:

– Vamos, é por aqui. Mas, é melhor alguns de nós ficarmos aqui fora. Todo cuidado é pouco. Sugiro que uns 8 fiquem aqui e apenas 4 entrem. Revistem o lado de fora também. E não se separem.

– Esse caso é nosso, Paulo! A gente agradece, mas não podemos te colocar nessa. – disse Vitor,  um dos policiais enviados por Marina.

– O dever me chama, meu camarada. Não posso deixar vocês e nenhuma daquelas pessoas lá dentro correndo risco sabendo que posso ajudar.

– Então, vamos lá! – disse Vitor.

Eles seguiram até o local a entrada do cômodo e viram a portinhola aberta.

Do lado de dentro, Cesar bastante nervoso dizia:

– Então existe um plano contra mim? Vocês esconderam um celular e uma arma somente para me enganar? Parabéns, Valentim! Você é mais inteligente do que eu jamais imaginei! – disse Cesar cada vez mais abalado – Bem, não me resta nenhuma alternativa a não ser começar a promover o desfecho dessa história pois eu já estou cansado.

Cesar então ouviu um barulho vindo da direção da entrada do cômodo e jogou a arma no chão. Os policiais entraram e Paulo começou a gritar:

– Todo mundo no chão! Agora!

– Ainda bem que você chegou, policial! Esse maluco ameaçou matar todo mundo! – disse Cesar apontando para Valentim.

– Você está preso, Valentim! – disse Vitor – Jogue a arma no chão, solte o refém e não reaja pois pode ser pior para você.

– De novo você está mostrando o merda que você é, Vitor! – disse Cesar pegando a arma no chão e apontando para o policial.

Vitor voltou a arma para Cesar e disse:

– Você está cercado, Cesar! Se entregue, vai ser melhor. Tem mais de 30 homens lá fora. Seu plano falhou, sua carreira acabou, cara! – disse Vitor.

Enquanto isso, Marina terminava de ouvir o longo áudio enviado por Mônica.

– Que grande filho de uma puta! – disse a delegada dando um soco na mesa.

Ela ligou para Vitor, mas ele não atendeu.

– Atende, Vitor! Atende essa porcaria de telefone!

Ela então desistiu e ligou para outro policial da equipe.

– Renan? Aconteça o que acontecer, eu quero Cesar vivo!

– Como assim, delegada? Estamos do lado de fora, na retaguarda. Não sabemos de nada que está acontecendo lá dentro.

– Apenas me ouça: eu quero Cesar vivo! Não importa quem está do lado de dentro. Essa mensagem precisa chegar até lá.

Do lado dentro, Cesar viu todos os policiais apontando a arma em sua direção. Vitor deu uma algema para Valentim colocar em Daniel.

– Eu… Eu… Quem matou todo mundo foi Daniel, não eu.

– Você é o mentor intelectual disso tudo, Cesar! – disse Mônica – Daniel só se tornou um assassino pois você o coagiu e o levou a fazer isso. Se ele é fraco, você é um demente sem coragem de nada. Um perdedor.

Cesar começou a rir e disse:

– Você não me achava um perdedor quando estava dando prá mim.

Mônica ficou ruborizada e então disse:

– Sempre te achei um perdedor, Cesar! Eu só dava prá você quando eu não conseguia ninguém melhor. Meu lema sempre foi: antes com você do que sem companhia. – inventou Mônica.

– Você está mentindo que eu sei! – disse Cesar quase chorando.

– Pior que é verdade, cara! Todo mundo na TV sabe disso, cara! – mentiu Ivan.

Cesar ouviu isso, secou uma lágrima que começou a escorrer e colocou a arma na boca.

– Cesar, essa não é a melhor solução! – disse Vitor.

– Ninguém se move. Se alguém der um passo, eu me mato.

– Ninguém se importa, Cesar! – provocou Mônica – Vivo ou morto, a lembrança que vamos ter de você será sempre a mesma. Então, fique vivo e tente se redimir.

Paulo tentou assumir o controle da situação:

– Coloque a arma no chão, Cesar. Não vamos atirar em você e não queremos que você se mate.

Cesar continuava com a arma na boca. Renan, um dos policiais que estavam do lado de fora,  entra no local do cativeiro e fica observando a cena. Ivan se ajoelhou perto dele e disse:

– Cesar, para com isso!

– Você não entende, Ivan! Tá tudo perdido! A Mônica acabou com a minha vida e com a minha carreira em definitivo. Agora não tem mais volta. Da primeira vez eu consegui me reerguer com muito custo. E agora?

– Agora você tenta outros caminhos, Cesar. Fazer algo grandioso não é o mesmo que ser grande. Temos tantos ignorantes por aí fazendo coisas grandiosas.

– Não tenho mais o que tentar, Ivan. Vou ser preso. Vou ser para sempre taxado como um maníaco manipulador.

– Coloca a arma no chão, Cesar! Por favor! Eu estou te pedindo! – disse Ivan.

Cesar então apontou a arma para Ivan e disse:

– Se afaste! Sai de perto de mim.

Ele levantou, começou a girar em torno de si mesmo e a apontar a arma para todo mundo. O policial que estava observando se aproxima e dá um tiro na direção de Cesar.

Cesar caiu e Vitor olhou para o colega policial responsável pelo tiro:

– O que você fez, Renan? Tá maluco, cara?

– Que tiro foi esse? – debochou Mônica.

– Foi só um tiro na mão. Nada demais. Marina ligou e disse quer Cesar vivo. Algemem ele e tirem a arma de perto. Ele ainda tem uma mão boa, não esqueçam.

– Parabéns, policial… – disse Mônica se aproximando de Renan e olhando para ele com visível interesse.

– Meu nome é Renan, dona Mônica! Minha mãe adora assistir ao seu programa. E meu namorado também.

Mônica, visivelmente desconcertada, conseguiu dizer:

– Que ótimo! É… Vamos então combinar e você leva todo mundo para conhecer os estúdios da TV Jaraguá. É minha forma de agradecer a você por nos salvar.

– Vai ser um prazer, dona Mônica!

– Bem, é… Vamos para o lado de fora. Quero gravar uma entrevista com você.

Ivan saiu do cativeiro, abraçou Valentim e disse:

– Finalmente acabou, cara.

– Acabou prá você, Ivan! Eu ainda vou enfrentar um processo administrativo pois deveria estar bem longe daqui.

Vitor entrou na sala correndo e disse:

– A delegada Marina está chegando, pessoal.

– O que está ruim quase sempre piora e o fundo do poço quase sempre tem um alçapão! – disse Valentim.

Minutos depois Marina entrou na sala e ficou surpresa ao ver Valentim.

– Acho que tem gente sobrando aqui, não é mesmo? O que você está fazendo aqui, Valentim? Decidiu enterrar a carreira assim como o seu ex-parceiro de investigação?

Ivan olhou para Marina e disse:

– Valentim salvou a gente, delegada.

– Mesmo assim ele desrespeitou uma ordem superior. Isso é bem grave. Passe amanhã na delegacia. Tivemos emoções demais por hoje.

– Delegada, eu… Eu… Eu quero pedir a minha exoneração. Depois do que fiz hoje desobedecendo uma ordem superior, eu sei qual será o meu destino. Sendo assim, prefiro vender capinha de celular no farol a ter de enfrentar a humilhação.

– E por qual motivo você vai fazer isso, justamente agora que decidi mudar a minha decisão e você poderá voltar ao trabalho. Mas, você precisará fazer acompanhamento psicológico por um ano se optar por continuar na polícia.

Marina se afastou e foi em direção ao policial Vitor.

– Onde está Cesar?

– Está algemado e preso aguardando atendimento médico. Ele tentou se matar e Renan deu um tiro na mão dele para evitar pois a senhora havia dito que queria ele vivo.

– Leve-me até ele.

Vitor levou Marina até Cesar. Ela então olhou firmemente para ele e disse:

– Eu só quero saber o que te levou a isso, Cesar.

– Eu estava cansado de ser um simples investigador. Queria mais, eu posso mais.

– Eu tenho certeza disso. Você poderia ter usado a inteligência desperdiçada nesse caso em outras coisas. Você acabou de destruir uma carreira brilhante.

Cesar começou a chorar e Marina se levantou. Ela foi até Mônica e ela disse:

– Amanhã, às 15h, te espero no meu programa. Temos muito o que conversar.

– Não gosto muito desse tipo e coisa, mas aceito o convite. Graças ao trabalho do Ivan a gente conseguiu resolver este caso e, como agradecimento, o mínimo que posso fazer é isso.

– Obrigada, delegada! – disse Mônica.

– Ah, e vamos levar Ivan para trabalhar na polícia. – brincou a delegada.

– Isso não vai acontecer nunca! Temos outros planos para ele na TV! – disse Mônica.

Ivan chegou em casa exausto. Longe de toda aquela confusão, se permitiu chorar durante o banho. O choro não era de tristeza, mas do desgaste emocional e físico, somados à pressão que vivera. Saiu para almoçar e, quando estava quase chegando em um shopping próximo à sua casa, recebeu uma ligação de Mônica.

– Venha para a minha casa. O mínimo que merecemos depois de tudo isso é um momento de paz com pessoas que realmente nos querem bem enquanto almoçamos.

Trinta minutos depois, Ivan chega na casa de Mônica. Quando desce do carro, recebe uma ligação de Valentim dizendo que Cesar se matou na prisão.

– Levaram ele para uma cela e, quando Marina foi vê-lo, ele tinha se enforcado usando a própria calça.

Ivan abaixou a cabeça quando soube da notícia e agradeceu Valentim. Depois, subiu para o apartamento de Mônica. Ela o recebeu com uma taça de vinho na mão.

– Entre! Vamos beber e comemorar que estamos vivos e saímos de uma das situações mais caóticas da nossa vida.

– Mônica, eu não consigo. Cesar está morto, acabei de saber pelo Valentim. Sempre fomos grandes amigos, você sabe disso.

– Cesar também foi um dos homens que mais gostei em toda a minha vida. Sempre quis ser feliz ao lado dele, mas ele era muito teimoso e nunca conseguiu me perdoar. Eu fui forçada a dizer quem era a minha fonte, você me entende? – ela disse em tom estarrecido.

– Eu te entendo, Mônica! Agora é um pouco tarde para falarmos sobre isso. Cesar está morto, eu tenho medo de fechar os olhos.

Mônica virou um gole de vinho na boca e disse:

– Faça como eu: beba vinho. O vinho alivia, relaxa e acalma.

– Vou virar um alcoólatra desse jeito.

– Não seja exagerado, Ivan!

– Eu… Honestamente, eu perdi a vontade de tudo por hoje, Mônica.

Mônica colocou a taça em cima de uma mesa e disse:

– Eu também, Ivan! Mas, não podemos deixar nos abater. Temos que continuar. Eu estou tentando me fazer de forte, mas aqui dentro está tudo bagunçado. Eu sempre quis ser feliz com Cesar, não sei se formar família, mas pelo menos ter uma vida a dois. Talvez eu não tenha dado certo com ninguém até hoje pois inconscientemente eu ainda procurei ele em outros homens. Vamos viver, vamos trabalhar. Amanhã é um outro dia e tem programa ao vivo.

– Admiro a sua força, Mônica.

– Eu também, Ivan! Mas, confesso que talvez me afaste do programa a partir de amanhã e por toda a próxima semana. Não sei se quero reviver isso no ar. Falar com você sobre isso aqui no apartamento é fácil. Com uma câmera na sua cara e revendo imagens no telão, o diretor na minha orelha… Não sei se aguento. Inclusive, tenho uma novidade: a partir de amanhã você está fora do Tarde Viva.

– O quê? Você está me demitindo?

– Não! Eu conversei com o pessoal do jornalismo e está na hora de você voar sozinho. Sempre me disseram que você tem o perfil para apresentar um programa de entrevistas e tem mesmo. A partir de amanhã você começa a trabalhar nesse projeto e não adianta recusar. Não é um convite, é uma ordem.

Ivan deu um sorriso e abraçou Mônica.

– Poxa, nem sei como agradecer nem o que falar.

– Você merece, Ivan!

Lá fora, o sol ainda brilhava forte, mas já dava os primeiros sinais de que em breve iria se pôr no horizonte. Mas, é claro que ele iria voltar no dia seguinte trazendo abril e enterrando definitivamente o março mais sombrio na cidade de São Paulo.

FIM

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