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O tribunal do placar

Sentado no canto da mesa de um bar qualquer, o Destino costuma brincar com dois dados viciados. De um lado, ele coloca o homem que todos chamam de “visionário”; do outro, aquele que o mundo apelidou de “arrogante”.

O curioso é que, se você observasse os dois minutos antes do grande salto, não saberia dizer quem é quem. Ambos têm o mesmo olhar fixo no horizonte, a mesma recusa em ouvir conselhos e o mesmo desprezo absoluto pela prudência.

A verdade é que a prepotência e o excesso de confiança sem ponderação são gêmeos idênticos. Eles vestem as mesmas roupas e frequentam as mesmas reuniões de diretoria. A única coisa que os separa não é o caráter, nem a inteligência, nem a ética. É o resultado.

O resultado é esse deus caprichoso que chega atrasado apenas para escrever a biografia dos homens. Se o empreendedor queima todas as pontes, ignora os dados do mercado e, por um milagre estatístico, acaba bilionário, a história o chamará de “homem de confiança inabalável”.

Palestrantes usarão seu nome para falar de “foco” e “coragem”. Ninguém ousará dizer que ele foi, na verdade, um irresponsável que deu sorte.

Por outro lado, se o mesmo homem, com o mesmo plano e a mesma ausência de cautela, encontra um mercado em crise ou um imprevisto qualquer, o veredito será implacável: “prepotente”.

Dirão que ele “se achava maior que o mundo”, que “não tinha pés no chão” e que sua queda era uma questão de tempo. O erro, nesse caso, não é visto como uma falha de percurso, mas como um defeito de fabricação na alma.

É uma justiça poética e cruel. Vivemos tentando distinguir o “ousado” do “soberbo”, mas a régua que usamos só aparece depois que o sangue já esfriou ou que o champagne já foi aberto.

Nesse jogo, a ponderação é a única coisa que poderia separá-los antes do fim.

O ponderado olha para o abismo e calcula o vento. O prepotente – ou o excessivamente confiante – apenas se atira, certo de que criará asas no caminho ou elas, mesmo que por milagre ou lei da atração, vão surgir naturalmente. Afinal, basta mentalizar.

Se ele voa, vira herói. Se cai, vira exemplo do que não ser.

No final das contas, a diferença entre o monumento e o pó é um detalhe chamado sucesso. O mundo não tem paciência para a complexidade do processo; ele só tem olhos para o troféu ou para a ruína.

Por isso, cuidado ao admirar o “confiante” ou desprezar o “prepotente”: você pode estar apenas reagindo ao resultado de uma moeda que ainda está girando no ar.

Publicado emCrônicas Corporativas

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