Eu perdi a minha mãe recentemente. Quando isso acontece, é como perder uma âncora existencial. É o fim do mundo como o conhecíamos, onde o cordão umbilical, cortado fisicamente há anos, revela-se ainda presente em sua forma psíquica e somos transportados automaticamente para um território de perguntas sem eco.
Durante o velório dela, nos momentos em que a dor batia mais forte, eu cantarolei baixinho para mim o seguinte trecho de So Many Things da Sarah Brightman: “With so many questions unanswered / Or was that part of your mystery?”. Me perguntava sobre um “motivo escondido” que levou a tudo aquilo, coisa que jamais saberei, resposta que jamais terei e se somará ao mistério que ela sempre terá para mim e que nunca será completamente decifrado.
De alguma forma, essa espécie de “mantra improvisado” me ajudou a assimilar a dor. Não amenizou, mas ajudou a acalmar. Dizem que, na vida, a gente acaba se acostumando com tudo e, para este post, reinterpretei a letra com um olhar enlutado, com o coração machucado e sem saber o que o futuro me aguarda nesse novo mundo mais incerto que nunca.
A memória como resgate e culpa
“And so many things I’d forgotten / In a world that we shared”
O luto materno é um despertar tardio. No cotidiano, tomamos a presença da mãe como algo garantido, uma paisagem permanente. Ao perdê-la, somos inundados por lembranças de pequenos detalhes que havíamos negligenciado. Esses versos soam como uma confissão: agora que o mundo compartilhado se fechou, cada coisa esquecida dói como uma nova despedida.
“With so many things for the asking / Never asked for the madness there”
Existe uma crueldade no “tempo que achávamos que tínhamos”. Havia tanto para perguntar sobre a vida dela, sobre o passado, sobre os seus medos. Mas a “loucura” — seja a doença, a velhice ou a rapidez da morte — invadiu o cenário. Ficamos com o inventário das perguntas que nunca saíram da garganta.
A dissociação: o exílio na margem
“Strange how I find myself / So often on a distant shore”
Esta é a descrição definitiva do estado dissociativo que segue a morte de uma mãe. Sem ela, você perde o ponto de referência. O mundo continua a girar com sua normalidade ensurdecedora, mas você se sente em uma “margem distante”. É um exílio emocional: você observa a vida do outro lado de um abismo, estranhando a própria pele agora que a sua origem não habita mais o mesmo plano que o seu.
O mistério e a confusão de si mesmo
“There’s only one thing that’s confusing / Was it you? Was it me?”
Na psicologia do luto, a fusão entre mãe e filho é profunda. Quando ela morre, uma parte de você morre junto, e você passa a questionar onde terminava a dor dela e onde começava a sua. A confusão de “quem era quem” em certos conflitos ou sacrifícios torna-se uma névoa que paira sobre a consciência do sobrevivente.
“With so many questions unanswered / Or was that part of your mystery?”
Mães são, para seus filhos, figuras eternamente enigmáticas. Só compreendemos que elas eram mulheres com mistérios, segredos e vidas antes de nós quando o silêncio da morte se instala. Você aceita que o “mistério” faz parte do que ela era, e que algumas respostas morreram com ela, transformando-a em um símbolo sagrado e inalcançável.
O eco do desamparo final
“So many things I’d forgotten / So many things for the asking / Strange how I find myself / So often on a distant shore”
A repetição final da letra é o movimento circular do luto. Não há uma linha de chegada; há apenas o hábito de caminhar pela margem. Você continuará lembrando, continuará querendo perguntar e, repetidamente, se encontrará naquela “praia distante” da saudade.
“So Many Things” não é uma música de consolo, mas de validação. Ela diz que é normal sentir-se à deriva quando a nossa primeira casa — o ventre e o colo materno — torna-se apenas uma memória.
Se você pudesse fazer apenas mais uma pergunta para a “margem distante” hoje, qual seria? Talvez a resposta esteja no silêncio que você aprendeu a ouvir.

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