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Flávio Bolsonaro errou, foi moleque e agora precisa arcar com as consequências

Algumas pessoas consideraram positivo o fato de Flávio Bolsonaro ter pedido desculpas a Lula ao vivo, durante o debate da TV Globo, após fazer piadas com o fato de ele ser uma pessoa com deficiência física por ter um dedo a menos. Porém, analisando o passado e o resultado das eleições, acredito em uma situação diferente. Acredito que, quando Flávio pede desculpas, ele assume que errou. E, quando assume o erro, deixa carimbado na própria testa que foi preconceituoso e não merece o cargo de autoridade máxima de uma nação.

Existe uma diferença enorme entre situações. Uma coisa é você quebrar um copo e pedir desculpas ao dono por estar sinceramente arrependido de ter quebrado aquele bem, algo material que pode ser reposto ou comprado novamente. Outra coisa totalmente diferente é fazer chacota com a deficiência física de uma pessoa, com uma característica pessoal, e só depois pedir desculpas.

Quando você ridiculariza a condição física de alguém, está simplesmente sendo preconceituoso. Usar esse tipo de subterfúgio pode até funcionar dentro de certas bolhas, mas isso não significa que todos a sociedade inteira vá concordar com a ideia de transformar a deficiência de alguém em motivo de piada. Em um mundo que prega a diversidade, debruçar-se sobre a deficiência alheia, seja ela qual for, ou atacar qualquer pessoa que divirja de você não pega bem. E (ainda) não pega bem para a maioria do público.

Muitas pessoas se sentem diretamente atingidas por terem familiares em situações parecidas, enquanto outras se condoem por simples humanidade e empatia com o próximo. E isso pesa muito, pois fala diretamente sobre a imagem do candidato. Afinal, por exemplo, como alguém que faz piada com uma pessoa com deficiência trataria as PCDs na prática? Por mais que o candidato publique fotos, vídeos ou visite instituições que lidam com esse público, a imagem já ficou manchada lá atrás. Hoje em dia, a população não é mais tão ingênua a esse ponto e percebe quando essas ações são criadas apenas para “limpar a barra” e tentar parecer amigável após ter cometido um excesso.

Isso não significa que todo mundo vá pensar da mesma forma. Quem não gosta do Lula e tende a ter o mesmo tipo de posicionamento vai simplesmente assinar embaixo, corroborar a fala preconceituosa e seguir a vida. Outros podem achar que isso não é muito relevante e não se importar. Porém, para uma parcela da população, a empatia fala muito mais alto do que qualquer contexto político. Muita gente ainda acredita que o processo eleitoral precisa ser jogado de forma limpa e respeitosa, sem ataques pessoais ou piadas com questões privadas, mantendo uma separação clara entre a vida política e a vida pessoal. E isso, querendo ou não, diz muito sobre o perfil profissional que aquela pessoa tem que, neste caso, demonstra como o futuro governante irá exercer o cargo.

O erro de Flávio foi justamente não respeitar essa linha tênue durante o debate na Globo. Se isso foi decisivo para o resultado final, não podemos afirmar com certeza, mas é inegável que contribuiu. Mesmo que essa fala seja justificada por seus apoiadores sob o argumento de uma suposta liberdade de expressão, vale lembrar o velho ditado: quem fala o que quer, ouve o que não quer. É preciso arcar com as consequências dos próprios atos e das próprias palavras.

Além de tudo isso, devemos pesar na mesma balança o fato de Lula ser um senhor de 80 anos e, como diz a canção Dona Canô de Neguinho do Samba, eternizada na voz de Daniela Mercury no álbum Feijão com Arroz: antiguidade é posto, temos que respeitar.

Se a piada com a deficiência de Lula não foi bem vista pelo eleitorado, resta ao candidato aceitar que não foi feliz em sua colocação e correr atrás do prejuízo para as próximas eleições. Porque, diante de um assunto tão delicado, vir com um discurso inspirado em Neymar e dizer “errei, fui moleque” definitivamente não vai colar.

Publicado emArtigos de Opinião

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