A notificação acende na tela do celular no meio de uma tarde qualquer, vestida com uma elegância quase comparável à da realeza britânica:
“Gostaria de te fazer um convite.”
A frase carrega um charme quase ultrapassado. Sugere aristocracia, taças de cristal, talvez um sarau intimista ou um jantar à luz de velas onde o menu foi harmonizado por um chef premiado e com milhares de seguidores nas redes sociais.
Não há como ignorar. O ser humano, vaidoso por natureza, ainda amansa a alma quando se sente selecionado para uma experiência exclusiva. E a mensagem parece abrir portas para uma possibilidade que jamais irá se repetir caso o inesperada oferta seja recusada.
No entanto, ao deslizar o dedo para abrir a mensagem, descobre-se a verdadeira natureza da recepção.
O anfitrião em questão não é um velho amigo de infância nem um patrono das artes; é um corretor de imóveis. E o suntuoso “convite” nada mais é do que a oportunidade ímpar de visitar o decorado de um studio de trinta metros quadrados e assumir, com a formalidade de uma assinatura em cartório, um compromisso financeiro de trinta e cinco anos.
É admirável a evolução do eufemismo imobiliário. Antigamente, vendia-se o produto pelo nome: uma casa, um apartamento, uma dívida. Hoje, vende-se a ilusão de uma dádiva, um milagre celeste, um sinal divino que não se pode ignorar (pelo menos até a próxima esquina).
Você não está sendo abordado para figurar no topo do funil de vendas de uma campanha de tráfego pago; você está sendo agraciado com um convite único. Mas a sofisticação da linguagem para por aí, porque o banquete que se segue ao convite aceito costuma ter um sabor bastante indigesto.
Aceitar a generosa cortesia do mercado exige entrar no grande salão do crédito imobiliário brasileiro. É ali que a mágica acontece. Sob a promessa suave do “sonho da casa própria”, apresenta-se o custo da celebração: taxas de juros que parecem competir com a altura do próprio edifício, somadas a correções monetárias que transformam o saldo devedor numa criatura viva, capaz de crescer enquanto você dorme.
Ao final de três décadas de pagamentos rigorosamente em dia, você descobre a beleza da multiplicação dos pães ao contrário: pagou o equivalente a três apartamentos para, com sorte, ter as chaves de um.
O endividamento de longo prazo passou a ter contornos de status. Ficar devendo metade da vida útil de um cidadão para o sistema bancário agora é apresentado com laço de fita e convite personalizado. “Venha tomar um café conosco”, dizem eles, como se o café não fosse custar, no cálculo dos juros compostos, o valor de um automóvel popular.
Talvez o problema seja a nossa falta de sensibilidade refinada. Deveríamos ser gratos por essa cortesia tão requintada de ser convidado a financiar a própria vida sob condições astronômicas. Na próxima vez que o celular apitar com essa delicada deferência, valerá a pena responder com a mesma polidez social:
“Agradeço imensamente o convite, mas fico em dúvida sobre o rigor do código de vestimenta: devo ir de traje esporte fino para assinar a minha servidão financeira ou o smoking completo seria mais adequado, considerando que a cerimônia tem todos os contornos de um velório bem-concebido, no qual a falecida é a minha saúde financeira e os herdeiros são os juros do banco?”

Seja o primeiro a comentar