Outro dia abri o Instagram e entrei no perfil de um amigo falecido. É uma sensação estranha, agridoce, diferente de tudo o que já vivi. É um sentimento de que a morte de fato existiu, mas a qualquer momento um story ou novo post no feed negasse aquilo que eu faço questão de intimamente não aceitar totalmente.
Cada post nas redes sociais conta uma história, revela uma intimidade, um gosto, um prazer, como pequenos capítulos de uma trajetória. A morte interrompe isso e o perfil, outrora alimentado com os melhores registros, se torna um memorial, com fragmentos doces, ou nem tanto, de quem se foi.
No passado, quando uma pessoa desencarnava, se dizia que, enquanto ela fosse lembrada, ela sempre estaria viva. As redes sociais mudaram isso e hoje o ser humano morre, mas nunca vai deixar de existir. Sua memória seguirá viva em tudo o que postou, comentou e curtiu.
Qualquer pessoa pode acessar o perfil de um falecido, curtir suas postagens e se perguntar o porquê dela não postar mais. Ela não sabe o que aconteceu, apenas vê que aquela página não é mais alimentada com novidades.
Para os amigos, ao acessar o perfil e ver tanta lembrança viva, fica no ar uma espécie de ressurreição digital. O problema é que do outro lado parece não existir internet, pelo menos não do jeito que temos aqui na Terra.
É como se a qualquer momento aquela pessoa fosse postar um “voltei, galera”.
É a vontade de um novo post que nunca virá, o desejo de receber uma curtida que nunca chegará ou a ânsia de receber um comentário em uma publicação que nunca vai se realizar.
É uma interação fria e, ao mesmo tempo, cheia de esperança, que volta a doer quando a ficha cai e nos lembramos que do outro lado não tem rede social e nem aplicativo de mensagem.
Ao mesmo tempo, é como se a imortalidade existisse neste plano pois temos a sensação de que a pessoa ainda está por aí, só que sem postar nada, ou até mesmo por ter perdido a senha ou qualquer coisa nesse sentido.
Talvez seja uma nova forma de tentar negar a morte ou de cultivar uma esperança que fatalmente nunca vai se cumprir.
Ou, talvez seja só um novo jeito de cultivar a saudade.

Excelente abordagem, meu amigo ! É sobre um simples post eternizar a nossa essência, acalentar o elástico da saudade e o consolo de quem, um dia, estava no story e agora renasce no feed, dia após dia…
Reflexão impecável!
Abraços